Era enorme a minha curiosidade em relação a este livro por diversas razões.
Em primeiro lugar, logo que ouvi falar, aí por meados de Agosto, que Saramago iria lançar um novo romance cujo nome era “Caim”, previ, tal como com o “Evangelho segundo Jesus Cristo” polémica acrescida para além da que já é mais ou menos habitual em relação aos livros de Saramago. Mais uma vez iria mexer com a instituição Igreja; pelo menos assim dava a entender o título…
Depois, agora por alturas do seu lançamento, não só se confirmaram as minhas previsíveis suspeitas como, o próprio autor, proferiu afirmações conducentes a agravar a contenda já adivinhada.
Logo a seguir se levantaram vozes vindas dos mais diversos quadrantes proferindo, elas próprias, afirmações tanto ou mais contundentes quanto as do autor.
Devo dizer que, no meu ponto de vista, algumas delas, além de evidenciarem um tom de agressividade semelhante ou até superior tinham em seu desfavor, por um lado a falta dos dotes de inteligência que o autor tem, é um facto, por outro a irreflexão de quem reage a algo de forma muito perturbada, com pouca ponderação.
Confesso que li também respostas bem dadas e que tocavam exactamente os pontos fracos das afirmações do autor embora, infelizmente, tenham passado talvez mais despercebidas pela sua serenidade.
Em boa verdade haveria alguém que não esperasse já estas ou outras afirmações semelhantes pronunciadas pelo autor?
Conquanto as considere evitáveis e, talvez até, exageradas no tom, para mim, eram mais do que certas…
Enfim! As afirmações do autor versus reacções da “oposição” cumpriram a sua função: Em dez dias de venda o livro atingiu a quarta edição!!!!
Por tudo isto, logo que acabei de ler “Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar” de António Lobo Antunes e para não estranhar muito a leitura uma vez que os considero a ambos artífices exímios no que concerne a esgrimir as palavras, dei início à sua leitura.
Pois bem. Encontrei um romance pequeno que li em dois dias.
Entendi-o como uma ficção literária, muito bem escrita (como, aliás, já é hábito) que nos agarra desde o início.
Começa com Adão e Eva no Jardim do Eden e as diversas peripécias até à sua expulsão. Vai continuando em toada ligeira, eivada de humor, até à morte de Abel às mãos de Caim.
Este, personagem central, vai-nos conduzindo no seu vaguear pelo mundo, pelos diversos “presentes” com que se vai deparando.
Esses presentes não são mais do que episódios diversos, ligeiramente ficcionados, em que as personagens são as da própria bíblia, alvos de grande análise crítica e, atrever-me-ei mesmo a dizer novamente, de sentido de humor, que nos são narrados no Antigo Testamento.
Todos eles revelam um deus caprichoso, intolerante, déspota e cruel, como qualquer pessoa que leia este documento considerado histórico (é através do Antigo testamento que ainda hoje se interpretam os vestígios arqueológicos da Mesopotâmia e se dá corpo a aspectos da sua História), sem o halo da crença, também o verá.
Os homens cumprem sempre a vontade de uma entidade toda poderosa, sem questionarem razões, por mais absurdas que elas possam ser, apenas para lhe agradarem sendo que o retorno, na maioria das vezes, não existe.
É um livro polémico, sem dúvida. Sobretudo para quem for crente. Mas, quero acreditar que mesmo esses, se forem honestos consigo próprios, serão levados a reflectir sobre algumas questões sem que contudo tenham que macular as suas crenças. Por outro lado, continuo a dizer, se conseguirem despir-se de preconceitos, julgo que não podem deixar de considerar o livro literariamente bom embora de leitura muito simples e apelativa.
A única coisa que realmente não me agradou muito e já tinha acontecido num outro livro do autor, foi o final. Penso que surge como um remate abrupto e fraco tendo em conta todo o conteúdo do livro. Dá a sensação que José Saramago chegou ali e pronto; não lhe apeteceu escrever mais.
Recomendo, obviamente.
