Páginas

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Carta à mãe

mamã (3/4 anos)
Às vezes
apetece-me tocar o sol com a ponta dos dedos.
Sentir a respiração doce da luz
e colocá-la a distância nenhuma dos sonhos.
Às vezes, tantas vezes,
apetece-me abraçar com força
a inconstância das nuvens
e colocá-las docemente nas margens da vida.
Às vezes, muitas vezes,
apetece-me parar
à distância do voo das aves
e prender bem forte o arquejo da vontade.
Às vezes, quase sempre,
apetece-me soprar o pó das lembranças,
deitar ainda a cabeça no teu colo
e esquecer o restolho dos dias.

Celeste Pereira



2015-08-06

terça-feira, 4 de agosto de 2015

"The tree Of Life" de Gustav Klimt


Mergulho cada vez mais nas minhas memórias.
Deslizo o olhar para dentro e passeio
por entre as cornucópias das lembranças boas.

Espessam-se os ocres
que me olham num través sedutor.

Na lonjura dos sonhos vividos
enrolo-me em afagos mornos,
agasalho-me com sorrisos lentos
perdidos na topografia esquiva da alma


e escuto a respiração tépida das flores.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Devaneio

Rosa do meu jardim


Sentada no jardim,
rodeada de luz
e de uma largura imensa de tarde de verão,
descanso no devaneio.

Sob as saias brancas da audácia
finjo percursos
e ouso provar o interior da luz.
Abafo os uivos das palavras
que chocam nos dentes
e envolvo-as na ternura tépida da saliva.

Vou criando ecos
que calam o aperto cinzento e amargo
que se arredonda no peito
e emudece a alegria.

Mordem-me as ausências.
Mesmo as que se escondem sob a gentileza das pedras,
sob a ilusão do ainda estar,
do ainda ser…

Tento limpar o sal do dia
que se acumula no rosto claro da tarde e sobra
na lágrima que se desprende do olhar.

Na diáspora das palavras
busco afectos errantes,
noites passadas,
infâncias esquecidas.

E golpeiam-me as palavras
na cadência do sangue.

Crescem as infâncias,
seguro as noites passadas,
tento assear a alegria
e agarro os afectos pela esquina do sopro.

Embrulho-me no devaneio
e, obstinadamente,
quedo-me a ouvir o eco
de todas as palavras nunca ditas.



domingo, 7 de junho de 2015

Carta a um amigo

Imagem retirada da capa do livro "Nas Ruelas da Má Fama" de de Américo Dias 


Soube agora que partiste.
Estou incrédula e vencida pela notícia.
Afinal ainda há pouco, muito pouco mesmo,
éramos tão eternos!
Lembras-te?
Éramos eternos quando nos sentávamos
em redor de um café e conversávamos.
Conversas tão intermináveis! Tão loucas!
Tínhamos tanto a dizer.
Sabíamos tantas coisas.
E, contudo, sei-o agora,
faltava-nos saber tanto…

Éramos eternos quando
buscávamos felicidades.  
E combateste vontades duras.
E conseguiste.
E foste feliz.

Éramos tão eternos
nos longos dias de Verão
quando sob o sol do teu Algarve
buscámos o calor, a aventura, a cor, o brilho, o viço,
a vida…
Lembras-te?

Éramos ainda eternos
quando nasceram os nossos filhos,
quando os contemplávamos embevecidos
numa ânsia de água fresca,
quando os eternizavas em imagens que são abraços
 quando, ainda em longas conversas,
exorcizávamos os medos,
partilhávamos os sonhos,
os grandes pequenos nadas,
as nossas eternidades.

Fomos mesmo eternos
quando tivemos que puxar com força as pontas à vida.

Ficou tanto por dizer.
Ficou tanto por viver.
E, afinal, tu és mesmo eterno…


06-06-2014

sábado, 25 de abril de 2015

Afinal


As minhas glicínias em Abril

E, mais uma vez, chegou Abril e
o cheiro das cores frescas
acabadas de nascer e
o viço de asas macias que
esvoaçam e me desarrumam
as memórias e os silêncios.
Cresce a estridência das flores que
espreitam mansinho das árvores com
brilhos de água fresca e que
eu quase não vejo de serem tantas.
Ah!
E as gaivotas.
Tantas as gaivotas.
De mais as gaivotas.
Já não trazem tanto mar no coração e
o vento nas asas endureceu e
agora comem as pombas nos Aliados…
Mas é Abril
inevitavelmente Abril
e também inevitavelmente
a saudade escorrega devagar
pela lembrança de outros dias, de
outras gaivotas de esperança, de
cravos com muita gente
a dizer vontades, de
olhos rasos de brilho de
nós a sermos nós
livres
felizes para sempre.

Afinal é só Abril que
mais uma vez

chega.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Envelheço com as horas


Em dias assim
em que não sei o que te dizer,
estendo as mãos.
E no vento que delas se desprende
procuro palavras em estado translúcido.
Mergulho em rios que não são rios
e busco intensamente metáforas
que também não são metáforas…
procuro nas raízes das pedras uma silhueta,
uma penumbra,
o brilho de uma cor com que esboce a palavra
que não será palavra…
De olhos fechados mudo a direcção do silêncio.
Procuro ouvir para lá das vozes
que acordam o fundo das páginas.
Agito as mãos.
Acordo o gato

e envelheço com as horas.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Natais passados (Chaves)

Presépio da Tia Elsa

Rendo-me à reverberação dos dias felizes
e reúno devagarinho lembranças quentes e muitas, e muito boas,
das que deixam um rasto doce de uma saudade morna:

Os natais da minha infância.

E lembro os pais que brilhavam muito
e riam muito e se vestiam de sons vibrantes e doces.
Os irmãos pequeninos, tão pequeninos,
tão precisados de mim!
Os avós, branquinhos, enrugados e felizes
e eu tão precisada deles.
Os tios muito novos e grandes e vivos,
de gargalhadas vermelhas, fortes, excitantes,
quase assustadoras.
E o frio, o cheiro a resina, o pinheiro,
as bolinhas, os anjinhos, as fitas douradas,
a casa enorme,
tudo enorme, tudo mágico.
Os fogões grandes e muito quentes,
o sapatinho, a chaminé, o borralho,
os gatos no borralho, a candura…
E as rabanadas! Tão boas as rabanadas!
A mesa grande e cheia de cores muito doces e muito quentes.
A fava, o brinde, o chocolate quente na manhã de Natal
e as loucinhas de barro, as bonecas de papelão,
as meiinhas, os casaquinhos de tricô, os sapatos novos…
E os sonhos, tantos sonhos, um nunca acabar de sonhos.
Uma história por contar.
E um céu muito negro por onde escorregava o olhar.
E as estrelas, tantas, tantas estrelas.
Tão brilhantes! Tão lá longe!
O sabor bom do espanto…
E a pena que eu tinha, e tenho,
de um pai natal perdido naquele céu,
naquele frio, naquele tempo, naquele sonho…

no meu sortilégio.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Já aqui estive em dias mais claros

Praia do Marreco

Já aqui estive em dias mais claros.

Aqui, no meu bar, da minha praia. Olho o mar que hoje se perde num manto de nevoeiro espesso e viscoso. Lascivo, a coberto da bruma, lambe os rochedos e deixa-os cobertos de uma baba negra onde as gaivotas pousam numa geometria precisa que apenas elas sabem. Pontos brancos na névoa cinzenta. Silenciosas. Sem olhar devido à distância. Melhor. De olhar invisível.

A praia estende-se à minha frente sem brilho, sem o ouro habitual. Mais fria. Menos cúmplice. Hoje vestida de branco e vermelho de barraquinhas lembrando o verão. Mesmo assim mais bonita quando despida. Quando dourada, quando apenas areia e mar e céu e silhuetas de barcos ao fundo.   

Hoje o silêncio é mais pesado. É feito de ruídos surdos e húmidos e de gaivotas de olhar invisível que me assustam. E, apesar do vermelho das barraquinhas, as poucas palavras soam líquidas e escuras, submersas na espessura da névoa, no olhar invisível das gaivotas e perdem-se, esvaziam-se, não são mais palavras.

E eu, que já aqui estive em dias mais claros, imersa no assombro, procuro entalhar o tempo entre os finos grãos de areia e continuar imortal.


Marreco 2014-08-24

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

Feliz Aniversário Mamã


Procuro palavras bonitas para ti, hoje.
Daquelas que cabem em poemas e fazem brilhar muito os olhos daqueles a quem se dirigem.
Gostava tanto de te fazer brilhar os olhos!
Procuro as palavras.
Mas há dias em que elas custam a sair. Colam-se à alma e desarrumam-se em silêncios antigos e bons.
Afinal não preciso de palavras.
Estão tão gastas as palavras! São tão pequeninas as palavras!
Nunca significaram muito para nós, as palavras.
Meros muros onde nos refugiamos sempre. Onde vestimos a alma de panos grosseiros e escondemos a seda e o veludo de que é feita.
Por recato? Porque nos assusta o macio?
Onde a cobrimos de vermelhos fortes, de cinzas e de negro escondendo as cores feitas de luz…
Tememos o brilho?
Connosco bastam os silêncios. São sempre mais eloquentes os silêncios.
Hoje, mais uma vez, olha-me nos olhos e lê-me a cor do silêncio.


terça-feira, 10 de junho de 2014

Vida em construção

"Um instante em rosa e cinza" Matosinhos 2014

Juntei um instante a outro instante.
Depois, outro instante ainda, daqueles longos, descoloridos, de textura viscosa, muito iguais, que não nos querem deixar.
Acrescento agora, com mais ligeireza, todos aqueles que encontro.
Mas dos outros, dos fugazes, normalmente muito vermelhos, laranjas, azuis ou verdes e que não conseguimos prender por muito tempo.
Que teimam em nos fugir.
Polvilho profusamente o preparado, de momentos.
Todos os momentos brilhantes de que me lembro.
Muitos momentos. Muito brilhantes.  
Procuro conservar-lhes, aos instantes, a eternidade.
Junto tudo e envolvo com cuidado e muita audácia à mistura,
e pitadas de encantamento, e bocadinhos salgados de candura…


Sopro vagarosamente a nuvem até se dissipar um dia.

sábado, 17 de maio de 2014

Maio


Flores de Maio "Chez moi"
Ainda tão moço este Maio,
Mal sacudiu o aroma dourado das giestas que lhe adoçaram a madrugada e já se adivinha aquele calor feito de cores muito novas e muito frescas e muito macias das flores; de todas as pétalas muito lavadas pelas neblinas fininhas das manhãs.

Tão moço este Maio…
sem sombras, de primaveras maduras, de dias muito definidos, muito grandes, muito bonitos que antecipam entardeceres de perfumes rosados e muito doces, de vozes amolecidas, de cantos cálidos que se dissolvem nas arestas das cores e nos emocionam pelo deslumbre.

Este Maio
gordo de mães, de Marias, de Marias que são também mães, de cerejas túrgidas e macias e muito doces, de raios de sol envaidecidos que tropeçam nas cortinas, que são as folhas muito verdes e muito frescas, e nos roçam como carícias.

Maio
sem remorsos, todo feito de amanhãs urgentes, de vozes paralelas, de passados curtos, quase sem vincos em que se emendem memórias.

E o feitiço dos amanheceres maiores do que o mundo, das horas que se enrolam em sonhos brandos, dos espaços que se confundem, dos silêncios do tamanho de todos os silêncios…

E o sortilégio das palavras que podem ser belas, e são, e que fazem de cada ser
um poeta.


2014-05-11 

sexta-feira, 25 de abril de 2014

De novo Abril

Fotografia de Maria Manuela Silva

E de novo Abril.
E de novo o céu muito azul, o brilho dos sons, as cores dos silêncios, as madrugadas serenas e os cheiros doces do espanto que apenas o tempo desmedido nos traz.

E de novo Abril.
E os verdes, tantos verdes, verdes fininhos como cordéis de amarrar quimeras, com brilhos de assombro e sopros de memórias desarranjadas pelas brisas.

E de novo Abril
E os restos de restos de sonhos. E muitas ilusões perdidas numa penumbra baça apenas com rascunhos de liberdade. E memórias incómodas que desarrumam o absurdo dos poemas e lhes reorganizam o paradigma. E muitas vontades amarrotadas.

E de novo Abril
E muitos políticos de plástico com gravatas de plástico, sorrisos de plástico e palavras medíocres de chumbo muito negro e muito pesado. Palavras sem som mas com muito frio. E inamovíveis porque cuspidas por lábios muito frios empurradas por dentes muito brancos e muito perfeitos, também eles plásticos. Palavras que doem na alma e embrulham as esperanças em cinzas. E matam as ilusões.

E de novo Abril
Feito quase só de escombros.
Procuro os ténues resíduos de esperança por entre os verdes fininhos e discretos, os sons coloridos, o frescor das antemanhãs serenas, os sons cintilantes dos muitos azuis que pintam a primavera.
E enxergo a dignidade na revolta branda, o absoluto das vontades, o poema sujo de cóleras, o desassossego das metáforas.

É de novo Abril!


2014-04-25

domingo, 16 de março de 2014

Xs

Xs

Decidiste morrer.
E decidiste fazê-lo sozinha, tímida e discretamente como sempre viveste.
Enrolaste-te bem, embrulhaste-te no teu manto de pêlo e escolheste o canto mais esconso do armário mais esconso de todos os armários esconsos que normalmente preferes.
Assim! Desta forma serena e recatada que é a tua.
Assim, sem carícias, sem mimos, sem ronrons, sem cuidados, sem medo?
Envolta em toalhas esperavas pacientemente pela morte. Sem ruído. Apenas tu. E talvez a dor. E, quem sabe, a saudade de um passado mais que perfeito…
Condicionavas o futuro.
Assim, à meia-luz, fechaste com toda a força os olhos até quase não os conseguires abrir. Contiveste o mar que há neles e tentaste engoli-lo afogando-te em águas turvas de pavores, de aflições, de miasmas de morte.
E sangraste.
E suportaste a dor, a sombra (que pedias), os eflúvios que de ti se despenduravam.
E sangraste.
E sentiste a vida desprender-se lenta e implacavelmente de ti.
E esperaste.
Esperaste…


Depois, há aqueles estorvos dos acasos aos quais nem a meia-luz, nem os olhos sustendo o mar com muita força escapam. Inexplicáveis mas mais que presentes.
Chegaram na vontade ilógica de te pegar, de te acariciar, de te ter junto a mim, de escutar o teu ronronar, de sentir a maciez do teu pelo.
E procurei-te.
Busquei, todos os sítios onde eu sabia que gostavas de te esconder e que gostava que julgasses secretos.
Devagarinho. Não queria perturbar-te. Apenas pegar-te, mimar-te, sentir-te.
E cheguei ao canto mais esconso do armário mais esconso de todos os armários esconsos onde gostavas de te esconder.
Toquei-te.
E nem a sombra de um som.
Apenas um roçagar de penumbras. Um frio inusitado em ti. Uma aspereza que não costumas ter. Uma inércia no teu corpo que eu não conheço. Um esboço de sopro. Apenas…
E doeu-me esse sopro. E arrepiou-me esse frio. E crisparam-se sulcos na minha pele. E soltaram-se ondas e ondas de um mar feito da tristeza mais triste que se pode sentir.
Enrolou-se-me a alma.
Desenrolei-te mansamente. Chamei por ti. Abri-te os olhos. Limpei-te o sangue.
Assombrou-se o tempo. Desmanchou-se o dia. Ganharam forma os vazios.

E tu não morreste.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Simplesmente são


Há dias em que as pessoas se sentem verdadeiramente alegres. São dias claros, com brilho. Têm o perfume do rosa, do laranja e do vermelho dos morangos muito maduros. São dias quentes independentemente da temperatura que possa fazer. 

Nesses dias as pessoas estão a distância nenhuma da serendipidade. E eis que surgem, do nada, pessoas encantadoras, coisas encantadoras, acontecimentos encantadores. Enfim, um verdadeiro concurso de encantos. E as pessoas sentem-se encantadas…

Nestes dias as pessoas são sobretudo infâncias e não sentem saudades de futuro nenhum. Por isso esses dias têm também aroma de verde-claro como os rebentos muito tenros das árvores.

Geralmente tende a não haver vazios, nesses dias. Sacode-se a alma, enrola-se a lucidez, desmede-se o tempo, matizam-se os sentidos e inalam-se todos os perfumes de todas as palavras que nunca foram e nunca serão ditas. Há silêncios, portanto, mas são silêncios bons como o silêncio das borboletas, das nuvens, dos sonhos e das palavras que se gritam.

Ah, e são dias em que a água é perdulariamente doce. Não desse doce do açúcar, mas do outro, do das coisas verdadeiramente doces e boas como o orvalho da manhã ou um raio de sol nos joelhos.


Há pessoas que têm dias em que se sentem verdadeiramente alegres e, nesses dias, essas pessoas simplesmente são. 

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Hoje Não


Não te aproximes hoje,
não te (re)conheço,
não quero mesmo saber o que vejo.
Deixa-me aqui só,
apenas eu e as minhas realidades esdrúxulas,
eu e os meus silêncios de tule,
eu e a minha lentidão de nuvem,
eu e esta sede de mais, de sempre mais,
eu e este desassossego que me ausenta.
Não te aproximes hoje
não saberia o que te dizer,
não saberia como te olhar.
Deixa-me ficar aqui,
só eu e esta escuridão insuportavelmente clara,
eu e a minha insanidade sóbria,
eu e esta imbecilidade gorda,
eu e as minhas confusões bastantes,
e os tules em silêncio…
e as nuvens vagarosas…
e a sede… e a inexistência…
Não te aproximes hoje.
Hoje não.
Não posso.

Hoje quero a lonjura do mar!

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Querer



O que eu queria, mas queria mesmo muito
com aquele querer que consome energias, acorda todas as vontades,
acende pressas e abre brechas na alma


aquele querer intenso que desassossega,
que empurra fúrias com um ruído murcho de flores de seda,
que conduz vidas ao comprido do tempo


com aquele querer em tons de rubro,
que incendeia o sangue, dilata veias, varre pudores
e provoca um bafo quase tangível, espesso, que quase dói


o que eu queria mesmo…


Era que parasse a chuva.

Estou farta!!!!

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Poema inacabado


Outra noite, outra praia, outro bar, eu, não outra,
e o abismo de um poema inacabado... 
a mesma respiração, o mesmo apelo forte do mar,
o mesmo fragor, mais sereno, talvez, mais prenhe de mistério.
As mesmas cores mais outras, menos outras…
Outras gaivotas, as mesmas, outros sopros,
a lua, o mesmo paradoxo, outros muitos paradoxos,
o suave embalo da noite e o perfume denso das coisas densas de Verão.
As sombras menos sombras, menos tristes, outras sombras, música nas sombras…
e o mesmo abismo do mesmo poema inacabado…

sábado, 3 de agosto de 2013

O Medo



O medo começa num ponto frio no centro da barriga
e cresce em ondas de fogo e gelo
criando côncavos profundos
e esquinas vivas  onde me sento e espero.
Insinua-se nas mais recônditas sinapses e veste-se de cinzas
e roxos e castanhos muito feios e muito baços.
Por vezes, o medo, torna o ar duro, denso e ácido
e fá-lo crescer demais na garganta e impede-me de gritar.
E mastigo-o, mastigo-o sem parar e sem me dar conta que o faço…
O medo faz-me pesar as pálpebras e fecho-as
com muita força porque não posso com elas.
E elas tombam quase até aos pés.
E as lágrimas não têm por onde sair e secam.
Sem lágrimas tenho os olhos baços e secos e redondos e em fogo.
O medo começa num ponto muito frio no centro da barriga
e não termina nunca.

Nem quando se incendeiam os olhos…

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Verões da minha infância

Chaves. Verão de 1958

Recordo os verões da minha infância.

Eram verões em que o tempo era enorme e as brisas nos penteavam sorrisos grandes.

Verões que carregavam muitos perfumes bons e muito maduros. Traziam também as libelinhas, as andorinhas, muitas andorinhas nos beirais com ovinhos e filhos pequenos de bico muito aberto. E eu podia brincar ao ar livre até ao pousar da noite que era muito à noite mesmo. Traziam as papoilas, as talhadas de melancia, os figos e os pêssegos, as abelhas, as cobras, os sardões… O medo que a minha mãe tinha das cobras!!!! E dos sardões. Não tanto mas também tinha. Quando precisava de sair, nas tardes desses verões, chamava-se o caseiro que vinha com uma enxada afugentar as que se estendiam sobre o muro, ao sol. Só depois a minha mãe ia até ao portão.

Havia pintainhos pequeninos, amarelos e às cores, que eu gostava de ver correr com passinhos miudinhos atrás da mãe gorda e de penas tufadas.

Havia muito feno que eu adorava cheirar e palheiros onde ia escorregar e buscar comichões incómodas e persistentes. E ralhos de mãe e banhos e roupa fresquinha. E havia ervas muito verdes que eu colhia para brincar às casinhas, E eram o arroz, os bifes, as saladas… havia ervas e vontades para tudo.

Havia passeios à azenha, ou ao açude, mais raramente, onde tomávamos banho no rio de águas muito frias e muito limpas com maillots que a minha mãe tinha tricotado e que ficavam muito duros e muito tesos. E lanches que comia sentada no liteiro com a pele muito arrepiada e muito fresca depois desses banhos que tentava fazer durar por todos os tempos do mundo.

Havia ainda as longas tardes com o avô. Sentados numa fraga aprendi que o granito era bordado com grandes pontos de quartzo, de feldspato e fios brilhantes de mica. Aprendi a reconhecer o xisto, o calcário, o basalto e a desenhar nas pedras. Aprendi a gostar muito dos malmequeres e de papoilas. A separar as pétalas das sépalas e a passar os dedos nos estames para ficar com eles pintados de pólen.  Aprendi a assobiar em palheiras, a apanhar grilos a reconhecer poupas e cucos e melros e pardais, são lindos os pardais, e ouriços-cacheiros e toupeiras.

À noite adorava esticar muito o pescoço e alargar o olhar para um céu muito grande que costumava haver nesses verões e, ainda com o meu avô, tratar pelo nome a Ursa Maior, a Menor, a Cassiopeia, a Orion… E depois, pendurada nas estrelas, adormecer ao seu colo.


Tenho saudades dos verões da minha infância. É que as noites, agora, não são tão demoradas, o céu é bem mais pequeno e já não encontro estrelas onde
me pendurar.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Por do sol na Foz


Deslizo lentamente para esta varanda emprestada.
Estendo a pele e busco uma sombra de arrepio.
Encontro um ar parado, denso e quieto, enfermo de calor.
E, ao longe uma nesga de mar sem rumores.
Por sobre esse mar estende-se o sol
que resvala langoroso e gordo por sobre as águas
bêbado de sono e de abundâncias de laranja, vermelho, azul…
E, serenamente, quase sem dar conta,
instalam-se as cores da noite, os seus enigmas, os seus cicios,
os seus silêncios que apenas os poetas e as gaivotas
e as andorinhas sabem respirar.
E cobrem então essa nesga de mar
e esta varanda que alguém hoje me emprestou.


"Obviamente ...Gata"




Pois é, há já muito tempo que deveria aqui ter deixado este registo mas as solicitações são muitas e o tempo vai passando...

A verdade é que publiquei o meu novo livro de poesia "Obviamente... Gata"!

O seu lançamento foi no dia 22 do mês de Junho numa festa muito bonita no auditório da Casa do Infante.
Os amigos, os conhecidos, pessoas que de uma forma ou de outra se cruzaram comigo algum dia compunham uma belíssima (e grande) moldura humana.

O João Gesta e o General Loureiro dos Santos juntaram à sua generosidade as suas imensas competências e fizeram intervenções carinhosas e brilhantes na sua acutilância, na sua clareza.

Fiquei comovida facto que ainda hoje me paralisa um pouco as palavras quando falo destes momentos bonitos.

A Ana Celeste Ferreira e a Ana Afonso vestiram os meus poemas de intenções lindas, de subtilezas que eu própria lhes desconhecia.

O Ensemble Minnessang encantou todos com a sua música.

E o resto da noite, bom, o resto da noite foi de festa e de afectos.

Muito obrigada a todos

quinta-feira, 20 de junho de 2013