Páginas

quinta-feira, 21 de março de 2013

Sons de echarpe




Arrumo cuidadosamente na gaveta
aquela echarpe de seda, 
lembras-te?
aquela em sons de azul e rosa e roxo  
que me trouxeste não me lembro bem de onde,
lamento…
mas de longe, de muito longe.
Com ela acomodo mansamente dias muito antigos,
esperanças sopradas, lençóis desarranjados,
pregas de acanhamento, parêntesis de saudade,
suspiros que repuxam a alma 
e a silhueta de todas as coisas.

sábado, 9 de março de 2013


Hoje, na baixa do Porto, comemora-se Manuel António Pina.

Também lá estarei.

Entretanto deixo aqui um humilde contributo para que nunca se apague a sua memória

http://dl.dropbox.com/u/62231909/A%20Poesia%20vai%20acabar%20de%20Manuel%20Ant%C3%B3nio%20Pina.m4a


A Poesia Vai Acabar 


A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não acabarem).
Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei:
"Que fez algum poeta por este senhor?"
E a pergunta afligiu-me tanto
por dentro e por fora da cabeça que
tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
– Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? –


Manuel António Pina

sábado, 2 de março de 2013

A Ana




A Ana É.
A Ana é exactamente aquilo que é preciso para se Ser.
É a rigorosa medida de tudo o que faz dela…
a Ana.

A Ana tem um aroma macio que sabe bem.

A Ana é um rio de águas revoltas,
de um azul manso porque
se aquieta na doçura das margens,
na brandura dos limos do leito.

Quando a Ana ri a minha alma enche
e abre-se numa sinfonia de cores.

A Ana dá beijos cor de amora
que deliciam e me fazem bem,
que me fazem querer ser pequenina
e neles arrumar todas as memórias boas;
todas as que cabem numa criança.

A Ana é …  apenas a Ana.

2013-03-02 

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Coisas de pensar


"...e ajusto os cantos do sentir"

Estou tão triste hoje!

E doí-me sobretudo porque não vislumbro nenhuma razão mais especial para esta pena que se instalou em mim.

Não. São estas coisas apenas de pensar que chegam de mansinho e se arrumam nas nossas cabeças…
São lembranças de cores sombrias que se arrastam até encontrarem o lugar certo na memória. E doem. 

É aquela ponta pequenina de saudade que, como um afiado aguilhão, se me encosta à ilharga da lembrança. 

É aquele fragmento tão minúsculo de um tempo que não vivi mas no qual não me encontrarei mais.

É a sugestão da desilusão, do fim de um ciclo, de uma era que o não foi. Um relógio que parou antes mesmo de ter tempo para o tempo.

Hoje, saio de mansinho com os olhos pela janela, penduro-me na laranjeira do jardim, aconchego-me nas folhas verdes e ajusto apenas cantos de sentir…

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Uma história de amor


"A Love Story" de Louis Wain

Eu acreditava na perenidade do amor.
Não da paixão.
A paixão consome-se no seu próprio ardor.
Mas no amor eu cria.
Eu julgava que ia amar e ser amada
com a mesma intensidade, a mesma força cega,
a mesma entrega despojada dos primeiros tempos.
Eu cuidava que o amor era assim.
Unicamente amar e ser amada.
Serenamente amada.
Seguramente amada.
Sempre.
Amar.
Unicamente.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013



Sentei-me aqui, em frente ao computador, com a ideia de que seria capaz de escrever alguma coisa interessante neste dia em que, nem sei bem porquê, me dou conta, de forma inequívoca, do quão rapidamente me aproximo do Outono da minha vida.

Não é hoje, eu sei.

É um pouquinho hoje, foi um pouquinho ontem mais um pouco anteontem e assim sempre. Todos os dias vamos sendo varridos pela inexorabilidade do tempo.

Seria motivo, talvez, para entristecer… perceber a minha própria caducidade. Tomar dela uma maior consciência, acabrunha. E, se bem que o tempo se arraste sempre à mesma velocidade, é apenas em dias pontuais, como o de hoje, que tenho a consciência da sua passagem e do rasto de destroços que vai deixando pelo caminho. É também nestes dias que estou mais atenta às marcas que esses estragos imprimem na minha carne, na minha alma, no meu ser. Essas mesmas que, distraidamente, tenho desvalorizado, considerado pífias, ou nem considerado de todo.

E depois é aquela foto de há tão poucos anos que a amiga me mandou. E não acredito que seja eu, ali, assim, tão jovem ainda… Isto foi pouco antes de ontem!!!! E eu já não sou eu… Bolas! Como o raio do tempo nos finta; nos deixa ir vivendo nesta suave dormência para, de repente, nestes dias assim, nos acordar se supetão.

E é difícil acreditar nas rugas que começaram imperceptíveis e insidiosas e se instalaram para ficar. E são as comissuras dos lábios que já não são bem as que recordo e ensombram o meu sorriso. Os cantos dos olhos que, tombando, vão colocando uma pincelada de cinzento no olhar. As mãos que de repente pergaminham e se fecham crispadas por pudor.

E há ainda os cabelos brancos. Confesso que de início até lhe encontrava uma certa graça, um charme subtil, mas que agora já não tanto.

E é o desacomodar do corpo que cria novos volumes que não reconheço e que estranho porque não os vi chegar.
E são algumas, já notórias, partidas da memória que teimo em desvalorizar.
Mas, sobretudo, é este desacelerar involuntário, este desapego que, traiçoeiro, se vai instalando.

Começa pelas mais recentes mudanças as quais, se calhar, já não cabem na realidade que construo agora para mim. Depois, nem acho já tão agradável aquilo que ainda ontem mesmo me fazia correr. Estranho-o até… Depois… Depois ver-se-á…

Sei que já escrevi coisas. Sei que não gostaria de as ter escrito. Sei que assim não posso mais alhear-me delas. Ficam aqui registadas de forma quase tão vincada quanto esta ruga por onde desliza uma lágrima salgada e quente.

Continuo aqui sentada a tentar dizer alguma coisa.

É já noite. O sono não chega, e hoje… hoje não sou capaz.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

“Claraboia” de José Saramago



Estava na pilha de livros alinhados, por ordem, para eu ler mas há já muito que ia sendo sistematicamente preterido por outros que iam chegando. Vá-se lá entender os desígnios da vontade…
Bem, mas finalmente lá chegou a sua vez.
É sempre interessante, se bem que também possa ser traiçoeiro, ler um dos primeiros romances de um autor (o primeiro mesmo, sob pseudónimo, segundo parece) de quem se conhece a maior parte da obra. Talvez tenha sido essa a razão que me levou a postergá-lo tantas vezes.
As expectativas são grandes e daí haver algum receio de desapontamento. Parvoíce, eu sei. Cada livro vale o que vale de per si.

E este vale a pena ler.
Passado em meados do século passado (XX), numa rua esconsa de Lisboa, leva-nos, por um período de tempo, a viver as vidas de um grupo de pessoas que constituem as famílias que habitam um determinado prédio.
São pessoas diversas, com vidas diversas as quais, por vezes, ocultam sob de um véu de dignidade, pensamentos, anseios e atitudes menos dizíeis. É sempre assim.

E temos o sapateiro e a sua mulher, que decidem admitir um hóspede, para equilibrar o orçamento. Caetano e Justina, casal improvável que perdeu uma filha. Emílio Fonseca, casado com D. Carmen uma galega saudosa e inconformada, com o seu filho Henriquinho. D. Lídia, a que “está por conta”… Anselmo, Rosália e Maria Cláudia uma moça bonita, no viço dos seus dezanove anos. E as irmãs Adriana e Isaura, solteiras desesperançadas que vivem com a mãe, Cândida e a irmã desta, a Tia Amélia ambas viúvas.

E de casa em casa, de sobrado em sobrado, vamos sendo levados a viver todas as tramas, as esperanças, os desgostos, os pensamentos mais profundos, as estratégias mais duvidosas. Vamos conhecendo os segredos que se querem esconder, os sonhos que não se ousam ter, as verdades que não se ousam enfrentar, enfim, a vida de todos e de cada um desta pequena comunidade bem como o entrosamento possível das várias vidas.

É um livro de leitura agradável, simples, denotando até, a meu ver, uma certa ingenuidade.
Não contém ainda a sofisticação literária de futuros romances do autor mas é genuíno e bem escrito.
Contudo, encontro já aqui, nos diálogos entre Silvestre e Abel Nogueira (o sapateiro e o seu hóspede que escolheu nada fazer da vida, sobreviver, apenas), o nascer do que serão as diatribes filosóficas, os embriões das elucubrações que pejarão, por exemplo, “O Ano da Morte de Ricardo Reis”.

A ler sim. Até pela curiosidade da percepção da evolução.

domingo, 27 de janeiro de 2013



Sempre só.
Dias e horas enormes
cercada apenas por uma solidão espessa,
cinza, deserta de emoções.

Apenas experimento ausências,
vacuidades que se adensam em torno de mim
e me impedem de respirar fundo,
de prolongar um grito no tempo.

Só.
Sempre.
Tão multiplicadamente só! 

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

“Se eu Fechar os Olhos Agora” de Edney Silvestre



Este foi dos que entrou directo, não passou pela fila de espera. É, uma das muitas aldrabices com que vou mimoseando os livros que, ordeiramente, aguardam perfilados na minha pilha de próximas leituras.
Este foi-me sugerido pela minha filha. É dela e tinha-o acabado de ler.

 É Abril de 1961 e tudo se passa numa velha cidade outrora importante devido ao cultivo do café.

Tudo começa com um menino comprido, magro e claro e um menino moreno, ambos de doze anos que escapam de um castigo da escola e aproveitam para ir nadar num lago que era o seu paraíso escondido.
Nesse dia farão uma descoberta macabra que terá como consequência o fim abrupto da sua infância.
Descobrem o cadáver de uma linda mulher, jovem, barbaramente assassinada e mutilada.

Insatisfeitos com as explicações ilógicas das autoridades quanto ao confesso assassino bem como com o desinteresse das mesmas em clarificar o assunto, lançam-se, eles próprios, em investigações furtivas com vista a darem soluções cabais ao imenso monte de questões a que não conseguiam responder.
A este duo vem a juntar-se um velho residente no asilo que tinha por hábito saltar o muro e deambular, de noite, pela cidade. É um ex-preso político da ditadura de Getúlio Vargas.

Reúnem esforços e valências e, de descoberta em descoberta, vão-se embrenhando num vórtice de mistérios em que nada nem ninguém é exactamente o que parece ser.
São confrontados com a força do poder e com a hipocrisia da sociedade local que encobre e branqueia os crimes mais hediondos envolvendo violência sexual, violação, corrupção e racismo, entre outros.

É o fim da sua infância. É o desenvolvimento emocional acelerado destas duas crianças que nunca mais o serão.  É uma forma difícil e abrupta de entrarem na vida adulta. Será inconsequente?

Gostei também muito da escrita do autor. Com o pretexto de um policial, desenvolve uma diegese coerente que vai muito além disso. É um retrato de época, uma época conturbada da história recente do Brasil em que a prepotência e o caciquismo locais eram uma constante. O velho poderio dos coronéis. A narrativa é agradável e surpreendente. Gostei particularmente dos diálogos vivíssimos com que o autor salpica o texto tornando-o ainda mais interessante.

Um primeiro romance que deixa muitas expectativas.

sábado, 12 de janeiro de 2013

Um vento demasiado gelado



Hoje um vento gelado passou à minha porta e não parou.
Entrou por outra bem igual, bem perto da minha.
Aí, colheu cerce as cores, os cheiros, os sons
os sonhos, os silêncios, as dores, as esperanças de toda uma vida
num último sopro de alguém que não eu.
Hoje, penso,
poderiam ter sido todas as flores que eu vi florir
em todas as Primaveras que já vivi
a serem-me sugadas cobiçosamente por esse mesmo vento…

Se se tivesse enganado na porta.  

quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

“Os teclados e Três histórias com anjos” de Teolinda Gersão



Um livro que reúne em si dois dos mais louvados livros da autora. Uma novela, “Os teclados” e “O mensageiro e outras histórias com anjos”.

O primeiro, “Os teclados” conta-nos uma história em que estão patentes duas visões bem diferentes do mundo. A de uma escritora, de meia-idade, de certa maneira já desencantada com a vida e a de uma jovem pianista ainda cheia de esperanças. Têm em comum os teclados do computador ou da máquina de escrever e o do piano mas, acima de tudo a arte; a escrita e a música em que ambas, se bem que de formas diferentes, encontram justificação para serem.

Em “O mensageiro” encontrei uma versão bastante diferente da “anunciação”. Toda ela centrada na mulher. Uma perspectiva, no mínimo, interessante.
Quer neste quer nos outros dois outros contos o que podemos encontrar são situações que, julgo poder considerar, se situam no limite para a transcendência, para a descoberta de outros mundos, mas sem o ultrapassar.

Os anjos são belíssimas metáforas para a vida, o amor, a morte. Muitas vezes as pessoas não se dão conta desses “anjos”, não os interpretam na sua dimensão real, não os entendem, não os valorizam e não os encontram nas suas vidas. E porquê? Pela incapacidade que advém da pouca idade, pela ignorância, pela cegueira ou apenas porque não querem sair do conforto do real, do conhecido.

A ler, sem dúvida a ler.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Ensaio sobre as rabanadas.




Adoro rabanadas. São o meu doce de Natal por excelência. E gosto delas sobretudo depois das confusões das festas, ao pequeno-almoço, com um cimbalino bem tirado.

Como se impunha, achava eu, sabia tudo quanto havia para saber acerca de tão apreciado acepipe natalício. Já tinha visto (e mesmo experimentado) rabanadas de leite, de leite com água, de calda de açúcar, de calda de açúcar com canela, de vinho do Porto, de leite de coco, de sumo de laranja, com passas, com pinhões, com passas e pinhões, com molho, sem molho, polvilhadas com açúcar e canela, com açúcar mascavado, com tirinhas finíssimas de casca de laranja ou de limão (a gosto). Ah, isto para já não falar nas rabanadas douradas autêntico manjar dos deuses que, segundo se consta, sempre gostaram de se tratar muito bem.

Pois é. Considerava-me uma das pessoas mais conhecedoras, pelo menos dentro de um círculo relativamente alargado de ignorantes da culinária, acerca da rabanada. Era uma mulher feliz. Tinha a auto-estima bem lá para os décimos andares de um edifício relativamente baixo.
Mas eis que ontem, sexta-feira, ao final da tarde, me vejo confrontada com um novo tipo de rabanada que um amigo, sabendo desta minha particularidade no que concerne à gulodice, fez o favor de me enviar; a rabanada poveira. Melhor: a Rabanada Poveira!

Confesso que, quando abri a caixa em que se encontravam, as olhei com uma relativa desconfiança e tive ainda, mea culpa, aquele momento desdenhoso de quem quer comprar mas não muito. E pensei então para os meus botões (que não tinha mas a verdade é que tinha de pensar para alguma coisa e a único fecho que tinha assim mais à mão era… bom, não tinha nenhum!): tão grossas…. vão ser maçudas… ou então, estou mesmo a ver, estão impregnadas de colesterol  do mau até mais não… enfim, se eu não conhecia estas por alguma razão haveria de ser.

Pronto. E aqui estou eu a dar a mão (não confundir com estendê-la, isso poderia parecer pedir mais) à palmatória. São excelentes! São cá um pedaço de mau caminho que nem dá para acreditar.
Uma delas (tenho de ser parcimoniosa) constituiu hoje o meu café da manhã juntamente com o imprescindível cimbalino (Nespresso, de facto. Evolução dos tempos. Nem sei se ainda há máquinas da la Cimballi). E, acreditem, não sei se têm leite, se calda de açúcar, se vinho do Porto ou de qualquer outra proveniência, se banha de cobra ou baba de caracol.

As Rabanadas Poveiras são do melhor que já comi.

Muito obrigada Paula e Luís. Baixaram a minha auto-estima mas nem imaginam como me amaciaram o palato.

Um beijo.

“Sangue Vermelho Em Campo De Neve” de Mons Kallentoft



Cada vez me agradam mais os policiais ou thrillers suecos.

Há já muitos anos que leio Henning Mankell e o seu incontornável inspector Kurt Wallander que, aliás, deu já origem a uma série televisiva aparentemente com muito boa qualidade.
Contudo, ultimamente, despertada talvez pelo estrondoso sucesso da trilogia Millennium de Stieg Larson, tenho experimentado outros autores que, uns mais outros menos, satisfazem o meu gosto por este género literário muitas vezes tão maltratado. E quando me refiro a maltratado tenho em conta dois aspectos. Por um lado acontece ser considerado por alguns um género literário menor quando, a meu ver, há policiais literariamente excelentes. Por outro há, de facto, muita coisa editada (como certamente de outros géneros) que dificilmente poderá merecer o nome de literatura. Alguns até têm história, outros têm personagens consistentes mas falta-lhes a qualidade da escrita. Outros ainda não têm absolutamente nada.

Mas vamos ao que aqui interessa. A verdade é que uma mão-cheia de autores nórdicos (conheço mais suecos) desenvolveu um estilo próprio de criar histórias. Muito do género do policial negro. Baseia-se em narrativas interessantes, complexas sem serem exageradamente complicadas ao ponto de se tornarem incompreensíveis ou ilógicas, bem estruturadas, com personagens comuns mas fortes, consistentes, possíveis. Além disso conseguem manter um interesse narrativo quase constante.

Foi isto que encontrei noutros autores e foi também isto que me agradou em “Sangue Vermelho Em Campo De Neve”
A inspectora Malin Fors vê-se a braços com a investigação de um crime hediondo, numa pequena comunidade de província que a vai abalar. A par das investigações e do frio intenso, e à medida que vão desfilando as personagens mais estranhas e se vão revelando os segredos mais sórdidos, vai tendo, naturalmente, que gerir a sua vida pessoal; a sua relação com a filha recém-chegada à adolescência, as recordações que mantém dos seus pais actualmente a viverem em Tenerife mas com os quais sempre teve um relacionamento pouco caloroso, o tipo de ligação que mantém com o seu ex-marido, etc, etc, etc. Enfim, uma pessoa normal.
O processo de escrita é curioso pois surgem de onde em onde pequenos trechos assim numa espécie de voz-off que ajudam não só a situar o leitor bem como conferem alguma originalidade à escrita.

Sem ser o meu autor favorito, devo dizer que gostei e estou pronta para dar oportunidade a um segundo livro.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Ano Velho/Ano Novo


Era um ano velho. Mesmo muito velho. Tão velho quanto um ano pode ser. De tão velho estava gasto, irritadiço, agressivo e à medida que ia percorrendo os seus dias, horas e minutos quase finais, já em esforço, notava-se que ia provocando nas pessoas uma relativa ambiguidade de sentires.

Por um lado era manifestamente grande a vontade de se livrarem das suas rabugices, dos esforços que exigiu, das dificuldades que impôs, das incompetências que deixou (ajudou até a) medrar, da vassalagem a que obrigou, do relativo estado de depressão generalizada que provocou nas gentes daquele tempo, daquele ano muito velho. Tão velho quanto um ano pode ser.

As pessoas estavam mesmo fartas. Amargas e fartas. Teria sido um ano de características burlescas não fora o facto de o sentido de humor de todos não ter já mais por onde esticar; era um elástico estafado.
Por outro lado era assustador o legado que esse velho, decrépito e de má memória iria deixar ao seu jovem sucessor. Estremeceriam aterrorizados os segundos iniciais do recém-nascido. E, convenhamos, que, dada a sua mocidade extrema, não tinha entendido da missa a metade.

E o tempo seria atrasado ou abreviado tal era a perplexidade inicial do novo ano. E os segundos requerem tanta precisão!!! Tudo seria imperceptível para os homens que apenas sentem o tempo das horas. Quando muito dos minutos… Os segundos são vagos. Os segundos podem ser eternos ou, então, podem apenas não ser.

E as pessoas saudaram o ano que nascia com festejos de desesperança regados pelo orvalho do espumante barato que, por segundos (aqueles que surgiram baralhados e hesitantes, como quem não quer vir), os fariam esquecer as inaptidões de um tempo novo que, afinal, não é mais do que o perpetuar ritmado, insidioso e inexorável das aflições do passado.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Relembro



Relembro todos os Natais.

Os da infância, mais ingénuos e mais frios mas também cheios de tios que vinham de longe, e avós e rabanadas e filhós, e chocolate quente, e grandes mesas cheias de sons alegres e de cheiros coloridos e doces, e de chaminés com sapatinhos, e de bonecas e loucinhas de barro ou alumínio, e de gatos no borralho da lareira, e de pinheiro cortado a cheirar a resina e de brilhos e de sonhos, muitos sonhos! Um nunca acabar de sonhos.

Os que se seguiram, menos cândidos, mais desenganados. Tempos de verdades sem tempo para sonhos, de sermos poucos, de não haver chaminé, sapatinho sim mas sem chaminé. Sem os tios, avós poucos, mais silêncios e já não bonecas nem loucinhas. Ainda os cheiros, ainda alguma cor, ainda o gato sem borralho. Os brilhos mais embaciados como que com vergonha ofuscados pelos da rua.

Mais tarde, mais velha, outros sonhos, outras esperanças, mais casas, mais pessoas, menos avós, menos tios, outros tios, menos pai… mais distância, mais cheiros, mais luzes, mais brilhos, os primos, muitos primos, mais embrulhos, mais presentes e eu talvez mais ausente, sem me querer perder, a sentir a falta das loucinhas, do cheiro a resina, do frio bom, dos gatos no borralho.

Os de hoje, sem qualquer candura, muitos brilhos, e cores, e bolas, e sinos, e presépios e musgo e eu ainda não avó. Tia-avó apenas. A mãe (ainda), eu tia, eu mãe de três, os sobrinhos, não tios… os risos, o barulho, o tinir das louças já não loucinhas, as vozes, os filmes 3D, os cheiros, os sabores, os papéis, os sacos, os gatos no sofá, a lareira. Poucos sonhos, alguns, apenas, e sem fantasia, algumas ausências sentadas a meu lado, as brisas, as sombras, a chuva arrumada nas pálpebras. O desfazer da festa, o desfazer da ilusão, as cinzas que sobram na lareira…os olhos doces de um cão…

Relembro todos os Natais...

domingo, 16 de dezembro de 2012

Lua cheia


"Starry Night" by Vincent Van Gogh

A prata da lua toma de empréstimo a noite
 e acende-me um sorriso manso
que desliza 
e se funde no veludo do teu olhar.
Sentados na areia salgada
onde o murmúrio do mar se faz orquestra,
onde o vento nos segreda odores antigos ,
perdemo-nos um no outro.
Reinventamos a transcendência do amor 

sábado, 15 de dezembro de 2012

Não É Meia Noite Quem Quer” de António Lobo Antunes



Há já tanto tempo que não escrevo uma opinião acerca de um livro que, francamente, nem sei bem por onde começar. Ainda por cima um livro de ALA… Convenhamos que não é a coisa mais simples de fazer.

Confesso que, genericamente, gosto dos livros de ALA. Mais de uns, menos de outros, mas sempre me dão um prazer imenso ler. Pela qualidade da escrita e pelo desafio que, normalmente, comportam.

E, mais uma vez, assim aconteceu. Li-o há já uns tempos e foi daqueles livros que não me apetecia pousar. Não me importava até de o ler de novo, mesmo imediatamente a seguir (o que, regra geral, considero uma parvoíce tendo em conta a imensa multidão de livros bons que nunca terei tempo de ler). Além disso, desde logo cresceu em mim uma grande vontade de falar sobre ele, dizer o quanto me tinha agradado, o quão refrescante é ler um livro que nos preenche.

Pois bem, foi um caso de identificação desde o início. Em primeiro lugar talvez porque, em determinados aspectos, me seja fácil identificar-me com a personagem principal e compreendê-la. Temos idades parecidas e, também eu, em criança, ia passar férias numa casa, junto ao mar, à qual já não tenho acesso. Também eu teria gostado de me ter despedido dela, de relembrar tempos, de ressuscitar memórias…Mas, na verdade, termina aí mesmo o paralelismo das nossas vidas.

O livro, como outros de ALA, decorre num período de tempo muito curto; três dias. A narrativa inicia-se na sexta-feira e termina no domingo.
São apenas três dias na vida de uma mulher mas neles convergem cinquenta e dois anos de lembranças nas quais cabem alegrias, entusiasmos, sonhos, expectativas e desapontamentos.

Naquele rendilhado sublime de tempos e espaços que são, seguramente, marca incontestável do autor e que aqui atinge uma mestria desconcertante, vão desfilando as tardes de Verão passadas na praia com a mãe. As imagens do relacionamento patético dos seus pais. A sua amiga que vive na casa do lado e que, mais tarde, nem a reconhece nem lhe aceita a relembrança. Mas também a perda do seu filho que nunca foi. A sua vida de desesperança. A sua procura de conforto nos braços de duas colegas, que não deseja. A doença. A mutilação. O medo… 
Revive as viagens sentada no quadro da bicicleta do irmão mais velho, o mesmo que salta da falésia como o burro escanzelado que também dela resvalou. O balbuciar desajeitado do seu irmão surdo-mudo. A embriaguez do pai. O remorso da mãe. A loucura do outro irmão resultante das suas experiências em África, na guerra… 
A saudade de ser amada pelo marido. A frustração de ser professora numa escola, por aí. Os segredos que escrevia e que escondia no muro do jardim. A despedida. O fascínio pela falésia com os burros e as cabras de patas finas. Os melros, os muitos melros da casa, E, quem sabe, o fim.

Um livro fabuloso. Um livro a não perder sob pretexto algum.

Mais uma vez um momento alto do escritor António Lobo Antunes. 

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Chamas




Há algo de encantatório nas chamas
que irrompem lascivas envoltas em fumos.
São incêndios de uma quase solidão,
de um quase delírio, de uma quase embriaguez.
Há algo de arrebatador nas suas danças feitas de silêncios,
de respirares lentos, de beijos sem sonhos.
Há algo nas chamas que me arrebata os sonhos
e os transforma preguiçosamente
em silêncios opacos despidos de beijos.
Há algo de encantadoramente perverso nas chamas.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Sonhei




Sonhei

Sonhei que voava

E comigo voavam as borboletas, os meninos, 
as bailarinas, os sonhos, todas as palavras improváveis 
de que são feitos os poemas

e tu…


Sonhei

Sonhei que sonhava

E sonhava como só as crianças sonham
E voava. E as borboletas, os meninos, 
as bailarinas, os sonhos e todas as palavras improváveis 
com que construímos os poemas e arrumamos vidas…

e tu voavas comigo.


Sonhei

Sonhei que acordava

E ao acordar voavam ainda as borboletas, os meninos, 
as bailarinas, os sonhos, as palavras 
e um dos mais belos poemas de todos os poemas belos com que eu podia sonhar:

Tu!

2012-02-08
Poema dedicado à minha amiga e ex-aluna Joana Moura Ferreira no dia em que completou 18 anos de imensa coragem.

sábado, 17 de novembro de 2012

Um poema



Nem imaginas como hoje
gostaria de escrever um poema.

Mas está a chover e
as pedras estão molhadas e tristes.
Desbotadas pelas levadas de pés anónimos
que as percorrem apressados.

Está a chover, sabes?
E assim, o poema não quer sair.
Faltam-lhe os melros, as rolas, as libelinhas
e as poucas flores choram grossas gotas de hálito azul.

Há gaivotas.
Estão em terra todas juntinhas  e arrumadas para o mesmo lado.
Mas gaivotas não são a mesma coisa…

Nem imaginas como hoje gostaria de escrever um poema…

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Às malvas



Hoje apetecia-me mandar tudo às malvas.

Que é como quem diz que o que eu queria mesmo era o privilégio de fazer apenas aquilo que me apetece. 
Borrifar-me para as obrigações, para as conveniências, para os compromissos. Enfim, livrar -me de todas essas grilhetas que me azedam e me amarram os dias.

E, em vez disso, ocupar-me com alguma coisa lúcida…
Ou, ainda melhor, não me ocupar com absolutamente nada e deixar – me vadiar, completamente absorta, pelos caminhos mais recônditos da imaginação.

Mas não será a realidade um conveniente produto da imaginação?

Como está pragmática a minha imaginação!
De tão praxista não lhe consigo encontrar uma pontinha que seja de fantasia; dessa irrealidade bonita que a devia compor.

Resta-me o desânimo!

Mas será mesmo que já não divisarei o devaneio? Já não conseguirei ascender a esse querido patamar que me permite o delírio?
Que imbecilismos são estes que surgem de todos os lados e me amarram a uma realidade boçal que não me deixa voar? Ou a uma imaginação amarrada, também ela, e que não se permite criar-me outra realidade, superior, mais tolerável ?!

Hoje vou recusar esse marasmo!

Hoje vou mandar tudo às malvas!!!!

domingo, 11 de novembro de 2012

Grito


"O Grito" de Edvard Munch

É este sentimento de impotência
que me incendeia de soslaio.
É esta incapacidade de soltar as amarras do alento
que me segreda raivas que me subjugam.
É este medo, esta angústia que me assola
me paralisa, me aniquila, me morde as entranhas
que me faz gritar de medo. 
Espreito o amanhã
apenas com o canto mais secreto do olhar. 

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Hoje o mar


Fotografia tirada em Matosinhos

Hoje estava lindo o meu mar.

Roubou-me o olhar que vagueava indeciso
por flores que já não há,
por pessoas cinzentas que passavam cinzentas
em poses cinzentas,
por aves esquivas que voavam distantes e cinzentas...

Estava lindo o meu mar hoje!

Roubou um ou dois raios ao sol
que, inflamados, fenderam as nuvens
e se espreguiçaram na prata das águas.

Tão lindo que estava o meu mar hoje!

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Tanto tempo



Tanto tempo, amor!

E todos os risos, os carinhos, as descobertas,
os segredos, os medos, as juras…

Tanto tempo, amor.
E as tuas mãos, os teus beijos, o teu calor
e a saudade na ausência de ti…

Tanto tempo de sonhos, de luares,
de sussurros de mel …
Tantas conquistas.

Tanto tempo nós…
Tanto tempo meu amor.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Sonho




Há muito que o livro jazia esquecido, pousado no colo.
Afagava-o distraída, talvez por hábito.
Sentia-lhe a textura espessa e inalava
quase com volúpia
aquele odor que me aconchegava e ao mesmo tempo
me arrastava para voos que nunca havia voado.
Há muito que o cigarro não passava de uma fina cinza soprada pela brisa quente.
Há muito que o sonho soltara amarras
e vogava muito para além da letargia que me consumia;
muito para além das areias quentes que respirava;
muito para além do mar que se confundia em horizontes de azul;
muito para além dos círculos erráticos das aves…
muito para além dos devaneios gravados no papel.

Há muito que o sonho era eu, apenas eu,
enrolada na saudade de te amar.