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segunda-feira, 30 de julho de 2012

"Explicação dos Pássaros" de António Lobo Antunes


E pronto. Lá terminei outro livro de António Lobo Antunes que, tal como todos os que já li, me provocou um prazer enorme.

Este, “Explicação dos Pássaros”, é já de 1981, um dos seus primeiros mas que, por qualquer razão, não havia ainda lido.

Adoro ler.
É enorme o prazer que tiro da leitura de um bom livro. E depois há o acto de ler ALA e o gozo incomensuravelmente maior que, numa grande parte das vezes, me dá lê-lo.

Será o desafio que a sua forma de escrita propicia? Será a poesia que lhe está intrínseca? Serão as personagens tão físicas, tão reais, tão consistentes que quase as podemos sentir?
Não sei. Apenas posso dizer que já lhe sinto a saudade.

Em “Explicação dos Pássaros”, somos levados a acompanhar Rui S. naqueles que irão ser os últimos quatro dias da sua vida. Quatro dias que nos levam a perceber uma existência pejada de rupturas, de perdas, de frustrações, de buscas do seu espaço social, da procura de si próprio.

Rui é alguém que sente não pertencer a lugar nenhum quer social quer familiar.
Não pertence à Lapa, casa de família onde o seu pai pontifica e o assombra (?). Não pertence ao mundo de Marília nem nunca pertenceu ao de Tucha ou mesmo ao dos filhos, distantes. Não pertence ao mundo da casa da D. Sara onde tem por vizinho, entre outros, o Sr. Esperança, “barítono de craveira internacional” que trabalhava num circo e havia sido casado com uma amestradora de rolas…
Enfim, alguém que não tem lugar, nem mesmo (sobretudo) em si próprio.

Rui tem uma grande obsessão pelos pássaros, pela sua explicação… Talvez seja o resultado do único momento em que se sentiu bem no seu espaço, que se sentiu parte integrante de algo; quando em miúdo, na quinta onde passavam as férias e onde ainda eram uma família feliz, sentado nos joelhos do pai, lhe havia pedido para lhe explicar os pássaros.
Verdade? Fantasia? Necessidade de em algum tempo em algum lugar ser ele mesmo? A verdade é que este momento é evocado recorrentemente ao longo da narrativa.

Rui era professor de História, não porque fosse esse o seu “lugar”, mas apenas porque não tinha (não queria ter) espaço no que eram os negócios do pai.


E assim, presos a um estilo a que ALA já nos habituou (e que noutros livros posteriores tem levado a limites aqui ainda insuspeitados), fragmentando e entrelaçando tempos, personagens, acções e reflexões que por sua vez se vão entrosando num universo de metáforas, num mundo por vezes até irreal, onírico, vamos repensando toda uma vida enquanto viajamos com Rui e Marília para Aveiro, em vez de para Tomar, e com eles contemplamos, em silêncio, as águas oleosas da ria e, sobretudo, as gaivotas que a sobrevoam.

Aí assistiremos às últimas rupturas.
A que advém do próprio facto de desistir do congresso a que deveria ir em Tomar, a que acontece com Marília, e a consciencialização da sua vida que o leva a não ter outra saída que não a ruptura com ela própria.


Há uma metáfora particularmente importante que atravessa toda a narrativa: o circo. O circo que, a meu ver, simboliza a crueza da vida, as concessões que nela fazemos, a crueldade, tudo o que é deprimente e não o circo maravilhoso das luzes. Efectivamente é tudo aquilo que se esconde por detrás delas, o que é amargo, deprimente.
O circo que vai ganhando importância à medida que nos vamos aproximando do final. O local em que o protagonista é personagem e espectador atento e, às vezes, até surpreendido. O circo onde se cruzam todas as vozes, de forma quase feérica no final, e nos são dados a conhecer os múltiplos pontos de vista acerca de tudo o que foi acontecendo em torno de Rui.

Enfim, uma narrativa extremamente rica que me deixou, uma vez mais, de água na boca.
A não perder.

domingo, 29 de julho de 2012

As palavras


Imagem daqui
Procuro no rumor das ondas palavras que me expliquem.
Encontro apenas o frio oleoso das algas
e o movimento translúcido das águas revoltas e salgadas,
desabitadas de sonhos, novos ou velhos,
ocas de ilusões, esvaziadas da fantasia.
Procuro no rumor das ondas palavras que me decifrem,
as extensas listas de palavras que devem existir para que me entenda…
E tudo o que ouço é um imenso fragor feito de silêncios.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Vazio


"Fotografia sem título" de César Augusto Romão


Hoje vou fechar os olhos
e esperar que o rosto das palavras
me preencha este vazio imenso.
Sobrarão apenas as memórias
suspiradas pelo silêncio. 


domingo, 15 de julho de 2012

Depois


"Shadows on sea" Claude Monet

Hoje apeteceu-me ir à praia e despentear as ondas.
Olhá-las, senti-las, e dançar longos silêncios.
Depois, incendiá-los em movimentos suados
e rasgá-los ali mesmo. Naquele exacto lá,
onde já nada sobra para o arrepio de imaginar que para nós,
o depois, pode não ser já o sempre.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

“O Prisioneiro do Céu” de Carlos Ruiz Zafón



Claro que estava curiosíssima acerca deste novo livro de Zafón que me permitiria revisitar o “cemitério dos livros esquecidos” bem como personagens maravilhosas que conheci pela primeira vez em “A Sombra do Vento”.
Estava tão curiosa e tão ansiosa que nem esperei pela edição portuguesa. Li-o mesmo em castelhano que, diga-se de passagem, me dá menos trabalho do que ler traduções que obedecem ao AO (pelo menos para já, será uma questão de hábito, espero).
Pois bem, considero que li mais um excelente livro escrito por um autor de eleição.
Contudo desviou-se um pouco daquilo que eu estava à espera.
Não pretendo com isto dizer que tenha gostado menos do livro pelo facto de estar escrito num registo visivelmente diferente dos dois anteriores que compõem, para já, esta trilogia.
Neste romance Zafón forçou muito menos a parte emotiva. Ao leitor é dada a possibilidade de esmorecer um pouco a tensão com que encara a leitura. Por outro lado é menos evidente o pendor gótico que tem caracterizado os outros livros do autor. É muito visível quer nas simbologias utilizadas quer até na verosimilhança do que escreve.
É um livro em que o presente se reveste de uma importância menor do que aquilo que nos é contado pelo fabuloso personagem Fermin Romero de Torres e que diz respeito à sua vivência na prisão no “castillo de Montjuic” antes de surgir como mendigo em Barcelona. É essa narrativa que nos prende e que nos leva a compreender melhor alguns aspectos um pouco mais obscuros quer de “A Sombra do Vento” quer (e sobretudo) de “O Jogo do Anjo”.
O presente, contudo, creio que será um importante factor para a continuação desta saga. Tudo está em aberto. As personagens ainda mexem…  Além disso, este presente ligeiro, até bem-humorado, é a “almofada” que atenua o exagero emotivo, o tal pormenor literário que dá algum descanso ao leitor.
Pode-se pensar que, pelo facto de os três livros que refiro estarem interligados pelos seus personagens, pelas suas vidas, pela enorme influência dos livros, por vezes estranha, pelo “cemitério dos livros esquecidos”, só farão sentido lidos na sequência certa.
 Ou que não se entendem lidos em separado.
Nada disso.
Se bem que haja esse entrosamento de vidas e essa continuidade (e até pormenores que só se vêm a descobrir mais tarde) e que para todos haja um leit motiv “o cemitério dos livros esquecidos”, cada um é um romance por si só. Contém uma unidade narrativa com todo o sentido. Podem ser lidos pela ordem que muito bem entendermos pois estamos sempre a ler muito boa literatura plasmada em interessantíssimos romances.
Não sei o que esperar do próximo… A verdade é que noto neste um ponto de viragem. Será para valer???
Mais um que recomendo.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Não


Julguei que a tinha lá ao pé.
Ou então, presa nos lábios
em precária suspensão.
Cuidei que a tocava até,
sem pudor, sem incerteza,
instintiva ali à mão:
a palavra, the word, le mot…
Julguei que estava decidida.
Mas afinal… ainda não…

terça-feira, 26 de junho de 2012

"Uma Mentira Mil Vezes Repetida" de Manuel Jorge Marmelo



- “Já lhe falei da história do homem-zebra?
Quer ouvir? Conto-lha tal como Marcos Sacatepequez a escreveu.”

Assim começa, desta forma prontamente cativante, o último livro de Manuel Jorge Marmelo lançado no início do último mês de Outubro pela Quetzal.
E é assim que os companheiros de autocarro do nosso contador da história vão conhecendo e entrando, com os personagens, nas muitas histórias que por aqui se vão desdobrando.
O criador de algumas destas é Óscar Schidinski, escritor húngaro, judeu, autor do livro “A Cidade Conquistada” com que o nosso narrador se passeia ostensivamente pelos transportes públicos da cidade do Porto.
 Apenas um senão, o livro é falso e o autor uma invenção deste outro, do nosso narrador. Se é verdade que existe o objecto/livro, devidamente montado com um milhar e qualquer coisa de páginas, bem encadernado e vistoso, é também verdade que este não passa de um molho de páginas copiadas de trabalhos diversos de outros autores, organizadas aleatoriamente sem qualquer tipo de continuidade. E o autor, Schidinski, não passa de uma personagem que o nosso narrador vai compondo ao sabor da sua vontade bem como da necessidade de alguma coerência por respeito para com os seus companheiros/ouvintes de viagem.

É o primeiro livro que leio de Manuel Jorge Marmelo e confesso que fiquei absolutamente rendida.
Encontrei um romance que desafia a estrutura do romance tradicional o qual, como sabemos, reclama a existência de uma história como suporte, uma história pré-definida. Em “Uma Mentira Mil Vezes Repetida” o enredo é a construção do próprio romance. Este surge perante os nossos olhos sem qualquer pré-concepção (pelo menos aparente).
No meu ponto de vista deparei-me com um texto auto-reflexivo brilhante. Um texto que ironiza a sua própria condição de texto escrito numa linguagem literariamente muito cuidada, se bem que descomplicada .

Bom, voltemos ao que interessa, o livro. Temos um narrador que, com o intuito de escapar a uma vida de anonimato inventa um livro porque inventá-lo é, para ele, muito melhor do que escrevê-lo. Inventa um escritor e um universo de histórias passadas um pouco por todo o mundo que vai contando aos seus companheiros de jornada. Mais atentos uns, mais alheios outros, em todos julga o nosso narrador deixar a semente do inesquecimento.
Assim vamos partilhando o autocarro com ele e com Marcos Sacatepequez, escritor de Belize cujo corpo, após a sua morte, acaba por ficar insepulto e à deriva por esses mares; com o homem-zebra produto do imaginário literário do personagem anterior; com Albrecht marinheiro amaldiçoado para sempre por se ter cruzado com o cadáver de Marcos; com o carteiro de Granada que troca a correspondência toda; com Yvan Hache pintor expressionista com uma mania incomum; com Afonso Cão; com Cassiano Consciência; com Oscar Schidinski, escritor húngaro, judeu, autor do livro “A Cida…

Enfim, como podemos imaginar um nunca acabar de histórias que se entrelaçam umas nas outras ao sabor da vontade do nosso narrador até que a vontade se consome e a história se solta e se prende a uns olhos rasgados como os de uma mulher persa…
Não menos interessantes e, consequentemente, inultrapassáveis são as reflexões do nosso narrador que fazem a ponte entre a divagação literária e o real; entre o que pode ou não ser invenção e aquilo que nunca o é, as nossas vivências, os nossos anseios, os paradoxos do nosso quotidiano.

Mais um livro a não perder, mais um jovem valor que se confirma no panorama literário nacional.

Também publicada na Revista-Me # 5

domingo, 17 de junho de 2012



Willie G. "aguarela"
Quase

Eu estava quase triste.
o barulho que as palavras causavam
ao embaterem, mudas, em meus lábios
provocavam aquele quase incêndio de silêncio,
aquela quase agonia.

Eu estava quase triste.
Contudo forçava um sorriso quase gordo
que criava aquele quase fogo de solidão,
aquela quase ilusão desfeita em fumo.

Eu estava quase triste.
Quase eu…

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Em louvor das crianças



Pintura com cotonete (feita por crianças) 

Se há na terra um reino que nos seja familiar e ao mesmo tempo estranho, fechado nos seus limites e simultaneamente sem fronteiras, esse reino é o da infância. A esse país inocente, donde se é expulso sempre demasiado cedo, apenas se regressa em momentos privilegiados — a tais regressos se chama, às vezes, poesia. Essa espécie de terra mítica é habitada por seres de uma tão grande formosura que os anjos tiveram neles o seu modelo, e foi às crianças, como todos sabem pelos evangelhos, que foi prometido o Paraíso. 
A sedução das crianças provém, antes de mais, da sua proximidade com os animais — a sua relação com o mundo não é a da utilidade, mas a do prazer. Elas não conhecem ainda os dois grandes inimigos da alma, que são, como disse Saint-Exupéry, o dinheiro e a vaidade. Estas frágeis criaturas, as únicas desde a origem destinadas à imortalidade, são também as mais vulneráveis — elas têm o peito aberto às maravilhas do mundo, mas estão sem defesa para a bestialidade humana que, apesar de tanta tecnologia de ponta, não diminui nem se extingue. 
O sofrimento de uma criança é de uma ordem tão monstruosa que, frequentemente, é usado como argumento para a negação da bondade divina. Não, não há salvação para quem faça sofrer uma criança, que isto se grave indelevelmente nos vossos espíritos. O simples facto de consentirmos que milhões e milhões de crianças padeçam fome, e reguem com as suas lágrimas a terra onde terão ainda de lutar um dia pela justiça e pela liberdade, prova bem que não somos filhos de Deus. 

Eugénio de Andrade, in 'Rosto Precário'

domingo, 27 de maio de 2012

Irremediavelmente aqui


"Penumbras" de Karina Gallo

Cerro os olhos com tal força
que julgo não mais poder abri-los.
Não importa.
Importa apenas deslembrar que estou aqui.
Atordoar os cheiros que se insinuam,
os sons que não quero ouvir,
os toques que não quero sentir.
Apenas me quero aceitar só.
Só e longe…
As imagens, porém,
nascem vívidas, feias, cruas, na tela das pálpebras,
sem que uma sombra,
ou mesmo uma penumbra me engane delas.
E afinal estou aqui.
Irremediavelmente, inexoravelmente aqui.
E lavro diligentemente todos os segundos
de um tempo que não quero meu.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Adoro reticências


"Apolliny" Bosques da Noruega Gatil Moochieland

Adoro reticências…
Também gosto muito de gatos…
Na verdade gosto muito mais de gatos do que de reticências…
Julgo que apenas o chocolate me entusiasma mais do que as reticências e me sacia mais do que os gatos…
ou não…
os gatos preenchem-me de uma forma que o chocolate não consegue…
O chocolate sacia-me até ao enjoo…
É. Gosto de ambos.
Mas gosto muito mais dos gatos e da carícia dos seus pelos que não me enjoa…
Gosto mesmo muito de gatos…
E adoro reticências...

sábado, 19 de maio de 2012

Boicote


Deve ser por não publicar comentários de livros que vou lendo há já muito tempo que aqui o blogue me está a boicotar.
Por mais que tente não consigo tirar estas linhinhas brancas que sombreiam as frases do texto....
Também não me apetece tentar mais.
Pois que impere o sombreado a branco e não se fala mais nisso!

"Memórias de Adriano" de Marguerite Yourcenar


Nunca havia lido nada de Yourcenar o que considero, de certa forma, uma falha na minha cultura literária. Assim, a conselho de um primo decidi iniciar-me na autora com as “Memórias de Adriano”.

Pois, muito obrigada Zé Paulo pelo excelente conselho. É, na minha opinião, um daqueles livros que não devemos deixar de ler.

Já se percebeu, naturalmente, que adorei o livro.

Este romance pretende ser a biografia de Adriano, imperador dos territórios romanos entre 117 e 138 DC, contada na primeira pessoa.
Através de uma extensa carta que envia ao sucessor por ele escolhido, Marco Aurélio, Adriano vai fazendo desfilar toda a sua vida; as suas façanhas heróicas, a sua postura perante as lides da governação, as suas viagens, o seu gosto pelo mundo helénico, o carinho e o entendimento conseguido com Plotínia esposa de Trajano mas, sobretudo, os seus afectos.
Aliás mesmo os aspectos mais prosaicos da sua vida de imperador são aqui referidos de uma forma extraordinariamente apaixonada dando aquele vislumbre dos pressentimentos, das sensações, das impressões, das incertezas que se alojam por trás das grandes decisões que, geralmente, nos são apresentadas de forma fria, exageradamente pragmática.

Yourcenar consegue aliar de forma magistral (se calhar já o deveria saber…) o que o documento histórico e a ficção têm de melhor.
Se bem que não deixe de ser um romance com tudo o que lhe é permitido em termos de ficção de forma a torná-lo excelente sob o ponto de vista estritamente literário, não deixa de ser um testemunho histórico de rara fidelidade que nos põe a nu a vida deste príncipe que foi um dos imperadores de excelência do período do Império Romano.

Satisfaz inteiramente duas das minhas paixões:
a literatura, o prazer de ler um livro bem escrito que nos prende pelo simples prazer de o ler e
a história se tivermos em conta a forma mais humana, com já referi, de nos apresentar uma época sem, no entanto, se desviar do rigor histórico em relação ao qual Yourcenar foi extremamente exigente.

Atestam-no os cerca de trinta anos que a autora levou a decidir-se pela escrita do livro bem como a minuciosa investigação a que se dedicou durante todo esse tempo para o vir a concluir. A edição que li possui um anexo de cerca de quarenta páginas em que a autora nos explica os vários processos por que passou a escrita deste livro bem como cita todas as fontes utilizadas para o fazer. E são muitas, algumas raras e todas de grande fiabilidade.

Se o não tivesse lido, efectivamente, seria uma mulher intelectualmente mais pobre.

domingo, 13 de maio de 2012

Desabituei-me de estar aqui...



Sentada aqui no meu bar, na minha praia,
pouso o livro que não me apetece ler.
Desabituei-me de estar aqui.

Tinha quase esquecido esta beleza crua.

Pouco a pouco invadem-me os sons, os cheiros, as cores, o brilho…
de uma forma tão intensa,  tão imensa, tão viva!
Quase dolorosa.
Perturba-me o estrepitar do mar que amo.
Desassossega-me…

Escuto-o.

E, de repente, já não me importa a intensa vida de Adriano
que nunca pode ter tido a intensidade deste mar.
Desdenho a beleza das palavras de Yourcenar
que nunca serão tão belas como o voo das gaivotas,
a espuma das ondas, o cinza/verde das rochas húmidas,
os raios dourados bailando nas águas.

Desabituei-me de estar aqui.
Tinha quase esquecido de como sorver este ar salgado,
de como pisar esta areia graúda que pica nos pés,
de como sentir na pele a carícia ardente do sol.

E agora, que regressei,
sinto que esta realidade áspera que me envolve
me traz de volta à doçura dos sonhos
que há tanto tempo não sonhei…

domingo, 6 de maio de 2012

Sou Mãe



Sei o que é amar até doer.
Sei o que é sentir nas próprias vísceras a dor que não sabemos retirar a quem das nossas vísceras irrompeu.
Sei o que é sentir apenas um ligeiro sopro de perfume na alma quando a distância se interpõe.
Sei como é querer guardá-lo avaramente apesar de ele teimar em se escoar pelas lágrimas da chuva.
E sim, sei o que é amar até doer…
Sei como é não caber na própria pele quando olho um filho e, apenas por pudor, não gritar bem alto o meu orgulho.
Sei o que é não entender o enigma de gerar algo que me transcende inteiramente, infinitamente melhor, infinitamente maior, infinitamente…
Sim, sei o que é amar até doer.
Sou Mãe!


Fotografia: a minha mãe com 19 anos.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Há dias

"Mulher na areia" de Camille Claudel

Há dias em que me apetece somente ser eu.

E soltar-me de todos os abraços obnóxios, mesmo dos outros, das raízes, das gavinhas de tudo quanto me agarra,

Agarrar todas as flores, as aves, mesmo as amarelas, as borboletas, os sonhos, os poemas que quero para mim,

Chorar todas as gotas de todas as chuvas que me queimam por não terem sido ainda choradas,

Rir todos os soluços que se arrumam no peito por não terem para onde os leve o vento.

Há dias em que não sei como ser.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Apresentação do livro "Geografias Dispersas" - fnac MarShopping part 1


Uma noite bem passada, esta. À conversa com Alexandra Malheiro e lendo os seus belíssimos poemas.

Foi na Fnac no passado dia 21. Venham assim muitas.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Aconchego


E quando o teu dia se faz tão negro que empalidece a noite

Quando os finos raios de sol te gelam a alma

Quando rir te solta lágrimas

Quando as palavras se quedam adormecidas

no estrepitoso silêncio das inconsistências

Nessa apatia incólume, aí mesmo,

embrulha a dor na bruma das ausências

… e aconchega-te.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Ocaso

Da minha janela...

Ela está sentada em frente à janela.

Alonga o olhar para as árvores que parece não ver, de tão parado. Essas mesmo que tão bem conhece, a quem acompanhou o crescer, que viu vestir e despir ao longo das tantas primaveras e de outros tantos Outonos…

Acompanhou-lhes a vida, já não lhes conhecerá o crepúsculo. Hoje, quase nuas, resplandecem sob o fogo frio de um pôr-do-sol de inverno.

Um brilho fugaz e intenso cruza aquele olhar que se ilumina para logo se apagar. Atrás de si uma lágrima, solitária e grossa, rola lentamente por entre os sulcos vincados que lhe cruzam a face.

O pôr-do-sol! Ah, esse brilho esplendoroso dos muitos ocasos que presenciou com ele. Essa luz sob a qual amou e que, sem mesmo saber porquê, lhe acordou memórias, lhe lembrou esse calor há tanto esquecido.

O olhar ainda esquecido sobre aquelas árvores inundadas de um leve fogo perde o brilho. E a gota redonda, que foi aquela lágrima, pousa docemente na sua mão.

Ela, já não a sofre…

domingo, 27 de novembro de 2011

As palavras


As palavras escapam-se-me magras e vazias

numa tentativa frustrada de iludir o vazio de mim.

Palavras castanhas, cinzentas, algumas ainda roxas,

às quais subtraio o sentido, o som, o calor, a luz, o cheiro…

Palavras que tomo de empréstimo mas que não enlaço,

que não toco, que não me tocam, que não sinto minhas…

Palavras desabitadas apenas…

Apenas palavras.

domingo, 6 de novembro de 2011

E há o natal!


E há o natal!
E as luzes, as cores, o frio
e a música, as luzes, as fitas e o frio
e os embrulhos, a ansiedade, o frio, os cheiros, e as vozes,  
as luzes, os fritos, o pinheiro e os cheiros e o medo
e o frio, os anjos, as vozes, o azevinho, o nascimento
os irmãos, e os sobrinhos e os cheiros, a incerteza, a música,
o pinheiro e as bolinhas, o frio, os sininhos, a lareira,
as vozes, os pastorinhos, a saudade…  e a magia,
a ansiedade e a música e eu e tu e tantos …  
afinal,  não tantos… 
e o natal!

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

“Ilha Teresa” de Richard Zimler



Mais um livro deste autor que li quase de um fôlego só.
Completamente diferente dos seus livros de pendor histórico, como é o caso de todos os que descrevem a saga da família Zarco, dos quais, aliás, sou apreciadora indefectível, surpreende-nos exactamente por essa diferença e pela forma excelente como Zimler se movimenta num registo bastante distinto. Interessantíssimo!
Não lhe encontrei também semelhanças substantivas com “Trevas de Luz”, “À Procura de Sana” ou “Confundir a Cidade com o Mar”.

Neste livro o autor aborda temas actuais, difíceis, penosos e delicados, com leveza e sensibilidade, sem contudo deixar transparecer qualquer laivo de superficialidade no seu tratamento.
É, por exemplo, o caso da inadaptação social devida ao facto de se ser diferente numa escola, numa sociedade, num país. E todos nós sabemos quanto essa diferença é difícil de gerir e quão esmagadores podem ser o sofrimento e a exclusão que essa inadaptação acarreta, sobretudo se tivermos em conta que estamos a falar de jovens.

Teresa é uma adolescente de quinze anos, portuguesa, de Lisboa, que se vê de um momento para o outro a viver nos subúrbios de Nova Iorque com o seu pai, a sua mãe e um irmão. É uma rapariga inteligente, sensível e, certamente também muito devido a essas características, desajustada e presa num mundo só seu, na sua “ilha”.
E sofre. Sofre por ela, pelo irmão, pelo desmazelo da mãe, pela perda do pai e.. por amor.
Tem um único amigo, Angel, um brasileiro de dezasseis anos, também ele diferente, também ele vítima de preconceitos, também ele marginalizado e excluído.
Ambos gostam de John Lennon que é para Angel um ícone incontornável. Ambos decidem ir “em peregrinação” ao Memorial Strawberry Fields Forever, em Central Park, no dia em que se recorda o assassinato do ex- Beatle, 8 de Dezembro (de 2008). E será este o dia que determinará a grande mudança nas suas vidas.

Zimler adopta um tipo de linguagem peculiar mas inteiramente adequado à sua personagem narradora. Fluente, claro, ligeiro, jovem e muito, muito irónico. Teresa é possuidora de um sentido de humor inteligente e cáustico. Dá a ideia, às vezes, de ironizar para tapar as lágrimas. Quem sabe?
Quem, como eu, está familiarizado com a escrita de Zimler encontrará aqui uma outra forma de expressão literária que não desmerece em nada a habitual, É sim um exemplo da sua capacidade de ajustar o discurso escrito às necessidades mantendo a sua individualidade e as características específicas da sua escrita. Em suma, o seu estilo.

O enredo é desenvolvido de forma descomplicada e agradável. Não é exageradamente directo, o que poderia retirar ao leitor a sua participação na construção da história, sem contudo ser exaustivo e redundante nas explicações que dá não correndo assim o risco de ser enfadonho. Está, na minha opinião, na medida certa.
Prende irremediavelmente o leitor desde o início. Aliás, este é levado, pela mão de Teresa, a percorrer anseios, inquietações, a sofrer, a amar, a perder, a caminhar nas dúvidas, a afundar-se e a regressar à superfície tal como sucede com a personagem (as personagens). 
Teresa uma adolescente isolada, em ruptura com o mundo mas que é, no fundo, uma mulher forte, de garra, como tantas outras personagens mulheres que Richard Zimler tem construído.

Mais um livro a não perder. Se ainda não o leram, não tardem. Vale a pena. 

A ler também aqui, no número 3 da Revista-Me, com uma breve entrevista ao autor.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

De António Nobre



Dizendo um pequeno excerto de "Viagens na minha Terra" de António Nobre da obra "Só" muito bem acompanhada pelo Pedro Lopes ao piano e pelo Miguel Motta na voz.


Nota importante:

Porque percebi que algumas dúvidas se colocaram nos espíritos dos mais atentos, cumpre-me informar que não, não me encontrava ajoelhada... O Miguel é que é mesmo assim, daquele tamanho.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

A gata branca

Era uma gata belíssima aquela que me apareceu no caminho logo no primeiro dia em que, da área da piscina, me dirigia ao meu quarto.

Estranhei a sua magreza. Contudo mantinha um porte altivo, uns olhos brilhantes que pediam algo. Dirigi-me a ela com palavras doces mas a gata branca, imaculadamente branca, embora não fugisse, não confiava. Ia-se aproximando mantendo bem alerta todas as suas defesas. E o seu olhar pedia algo. Fui ficando por ali conversando com ela, sentada no chão, numa tentativa de me aproximar. Gostaria de a acariciar. Não consegui.

Quando estávamos apenas as duas, entendi o desespero daqueles olhos. De sob o passadiço de madeira onde ambas nos encontrávamos, começaram a surgir, se bem que muito desconfiados e sempre prontos a esconderem-se, seis lindos gatinhos pequeninos. Os seus filhos! Eram ainda mais pequenos do que a provável idade lhes imporia pois estavam, também eles, magríssimos.

Fui buscar uma tosta mista que tinha pedido para o almoço e, partindo-a aos bocadinhos pequenos, deixei-lha para que comessem. Devoraram-na sofregamente sob os olhares atentos daquela gata branca que apenas comia aqueles que lhe colocava na sua frente e não os que lançava para junto dos filhos, um pouco mais longe.

Era uma cena de ternura aquela que eu presenciava se bem que embrulhada numa enorme nuvem de tristeza.

Sempre que pressentiam alguém os pequeninos escondiam-se assustados e a mãe, embora não fugisse, sempre elegante e altiva, deslumbrante na sua brancura, mantinha uma distância segura de quem passava.

Tive que ir. Não queria passar o meu primeiro dia de férias sentada num passadiço de madeira a olhar para algo que me arrefecia o ânimo.

Não sabia qual a política do hotel em relação à permanência de animais nos seus vastíssimos espaços exteriores, mas a magreza e o temor revelado por aqueles sete animais não prenunciava nada de bom.

O melhor seria mesmo manter silêncio acerca deles.

sábado, 3 de setembro de 2011

Crónica de uma saudade anunciada


Primeiro foram aqueles tempos sem tempo em que os dias passavam por mim (ou seria eu que passava por eles?) sem que, verdadeiramente, as horas se distinguissem. Tempos em que as horas me prendiam e se enredavam e me enredavam, e me atrapalhavam, e se confundiam e já nem eram horas de tão enredadas…

Além disso havia aquela névoa familiarmente estranha que me turvava o pensamento, o sentir, impelindo-os para dentro, sempre para mais adentro, ali bem para aquele local onde se arquitectam todas as mágoas.

Seguiram-se tempos de incertezas: Aquilo que hoje era, amanhã era-o também apenas com um subtil aroma de dúvida. Tudo que hoje mais queria, amanhã já não desejava, tinha-lhe até medo. Todas as emoções que hoje me ardiam se quedavam extintas no mais logo do amanhã.

E assim se foram desenrolando uns tantos hojes e ontens ainda recentes, nos quais se sonhavam os já saudosos amanhãs.

Finalmente as certezas. Irias partir! Irias perseguir o teu futuro bem presa na força da tua vontade. Irias voar nas asas da tua coragem. E viverias outros ontens, outros hojes e sonharias outros amanhãs que não aqueles que eu costumava partilhar contigo.

Mesmo assim, mesmo presa nas escamas da saudade, estarei orgulhosamente, hoje, a torcer para que todos os teus amanhãs sejam tudo aquilo que de mais belo imaginaste.

Por vezes amar dói tanto!

Nova Iorque, 18 de Julho de 2011