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sexta-feira, 29 de junho de 2012

Não


Julguei que a tinha lá ao pé.
Ou então, presa nos lábios
em precária suspensão.
Cuidei que a tocava até,
sem pudor, sem incerteza,
instintiva ali à mão:
a palavra, the word, le mot…
Julguei que estava decidida.
Mas afinal… ainda não…

terça-feira, 26 de junho de 2012

"Uma Mentira Mil Vezes Repetida" de Manuel Jorge Marmelo



- “Já lhe falei da história do homem-zebra?
Quer ouvir? Conto-lha tal como Marcos Sacatepequez a escreveu.”

Assim começa, desta forma prontamente cativante, o último livro de Manuel Jorge Marmelo lançado no início do último mês de Outubro pela Quetzal.
E é assim que os companheiros de autocarro do nosso contador da história vão conhecendo e entrando, com os personagens, nas muitas histórias que por aqui se vão desdobrando.
O criador de algumas destas é Óscar Schidinski, escritor húngaro, judeu, autor do livro “A Cidade Conquistada” com que o nosso narrador se passeia ostensivamente pelos transportes públicos da cidade do Porto.
 Apenas um senão, o livro é falso e o autor uma invenção deste outro, do nosso narrador. Se é verdade que existe o objecto/livro, devidamente montado com um milhar e qualquer coisa de páginas, bem encadernado e vistoso, é também verdade que este não passa de um molho de páginas copiadas de trabalhos diversos de outros autores, organizadas aleatoriamente sem qualquer tipo de continuidade. E o autor, Schidinski, não passa de uma personagem que o nosso narrador vai compondo ao sabor da sua vontade bem como da necessidade de alguma coerência por respeito para com os seus companheiros/ouvintes de viagem.

É o primeiro livro que leio de Manuel Jorge Marmelo e confesso que fiquei absolutamente rendida.
Encontrei um romance que desafia a estrutura do romance tradicional o qual, como sabemos, reclama a existência de uma história como suporte, uma história pré-definida. Em “Uma Mentira Mil Vezes Repetida” o enredo é a construção do próprio romance. Este surge perante os nossos olhos sem qualquer pré-concepção (pelo menos aparente).
No meu ponto de vista deparei-me com um texto auto-reflexivo brilhante. Um texto que ironiza a sua própria condição de texto escrito numa linguagem literariamente muito cuidada, se bem que descomplicada .

Bom, voltemos ao que interessa, o livro. Temos um narrador que, com o intuito de escapar a uma vida de anonimato inventa um livro porque inventá-lo é, para ele, muito melhor do que escrevê-lo. Inventa um escritor e um universo de histórias passadas um pouco por todo o mundo que vai contando aos seus companheiros de jornada. Mais atentos uns, mais alheios outros, em todos julga o nosso narrador deixar a semente do inesquecimento.
Assim vamos partilhando o autocarro com ele e com Marcos Sacatepequez, escritor de Belize cujo corpo, após a sua morte, acaba por ficar insepulto e à deriva por esses mares; com o homem-zebra produto do imaginário literário do personagem anterior; com Albrecht marinheiro amaldiçoado para sempre por se ter cruzado com o cadáver de Marcos; com o carteiro de Granada que troca a correspondência toda; com Yvan Hache pintor expressionista com uma mania incomum; com Afonso Cão; com Cassiano Consciência; com Oscar Schidinski, escritor húngaro, judeu, autor do livro “A Cida…

Enfim, como podemos imaginar um nunca acabar de histórias que se entrelaçam umas nas outras ao sabor da vontade do nosso narrador até que a vontade se consome e a história se solta e se prende a uns olhos rasgados como os de uma mulher persa…
Não menos interessantes e, consequentemente, inultrapassáveis são as reflexões do nosso narrador que fazem a ponte entre a divagação literária e o real; entre o que pode ou não ser invenção e aquilo que nunca o é, as nossas vivências, os nossos anseios, os paradoxos do nosso quotidiano.

Mais um livro a não perder, mais um jovem valor que se confirma no panorama literário nacional.

Também publicada na Revista-Me # 5

domingo, 17 de junho de 2012



Willie G. "aguarela"
Quase

Eu estava quase triste.
o barulho que as palavras causavam
ao embaterem, mudas, em meus lábios
provocavam aquele quase incêndio de silêncio,
aquela quase agonia.

Eu estava quase triste.
Contudo forçava um sorriso quase gordo
que criava aquele quase fogo de solidão,
aquela quase ilusão desfeita em fumo.

Eu estava quase triste.
Quase eu…

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Em louvor das crianças



Pintura com cotonete (feita por crianças) 

Se há na terra um reino que nos seja familiar e ao mesmo tempo estranho, fechado nos seus limites e simultaneamente sem fronteiras, esse reino é o da infância. A esse país inocente, donde se é expulso sempre demasiado cedo, apenas se regressa em momentos privilegiados — a tais regressos se chama, às vezes, poesia. Essa espécie de terra mítica é habitada por seres de uma tão grande formosura que os anjos tiveram neles o seu modelo, e foi às crianças, como todos sabem pelos evangelhos, que foi prometido o Paraíso. 
A sedução das crianças provém, antes de mais, da sua proximidade com os animais — a sua relação com o mundo não é a da utilidade, mas a do prazer. Elas não conhecem ainda os dois grandes inimigos da alma, que são, como disse Saint-Exupéry, o dinheiro e a vaidade. Estas frágeis criaturas, as únicas desde a origem destinadas à imortalidade, são também as mais vulneráveis — elas têm o peito aberto às maravilhas do mundo, mas estão sem defesa para a bestialidade humana que, apesar de tanta tecnologia de ponta, não diminui nem se extingue. 
O sofrimento de uma criança é de uma ordem tão monstruosa que, frequentemente, é usado como argumento para a negação da bondade divina. Não, não há salvação para quem faça sofrer uma criança, que isto se grave indelevelmente nos vossos espíritos. O simples facto de consentirmos que milhões e milhões de crianças padeçam fome, e reguem com as suas lágrimas a terra onde terão ainda de lutar um dia pela justiça e pela liberdade, prova bem que não somos filhos de Deus. 

Eugénio de Andrade, in 'Rosto Precário'

domingo, 27 de maio de 2012

Irremediavelmente aqui


"Penumbras" de Karina Gallo

Cerro os olhos com tal força
que julgo não mais poder abri-los.
Não importa.
Importa apenas deslembrar que estou aqui.
Atordoar os cheiros que se insinuam,
os sons que não quero ouvir,
os toques que não quero sentir.
Apenas me quero aceitar só.
Só e longe…
As imagens, porém,
nascem vívidas, feias, cruas, na tela das pálpebras,
sem que uma sombra,
ou mesmo uma penumbra me engane delas.
E afinal estou aqui.
Irremediavelmente, inexoravelmente aqui.
E lavro diligentemente todos os segundos
de um tempo que não quero meu.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Adoro reticências


"Apolliny" Bosques da Noruega Gatil Moochieland

Adoro reticências…
Também gosto muito de gatos…
Na verdade gosto muito mais de gatos do que de reticências…
Julgo que apenas o chocolate me entusiasma mais do que as reticências e me sacia mais do que os gatos…
ou não…
os gatos preenchem-me de uma forma que o chocolate não consegue…
O chocolate sacia-me até ao enjoo…
É. Gosto de ambos.
Mas gosto muito mais dos gatos e da carícia dos seus pelos que não me enjoa…
Gosto mesmo muito de gatos…
E adoro reticências...

sábado, 19 de maio de 2012

Boicote


Deve ser por não publicar comentários de livros que vou lendo há já muito tempo que aqui o blogue me está a boicotar.
Por mais que tente não consigo tirar estas linhinhas brancas que sombreiam as frases do texto....
Também não me apetece tentar mais.
Pois que impere o sombreado a branco e não se fala mais nisso!

"Memórias de Adriano" de Marguerite Yourcenar


Nunca havia lido nada de Yourcenar o que considero, de certa forma, uma falha na minha cultura literária. Assim, a conselho de um primo decidi iniciar-me na autora com as “Memórias de Adriano”.

Pois, muito obrigada Zé Paulo pelo excelente conselho. É, na minha opinião, um daqueles livros que não devemos deixar de ler.

Já se percebeu, naturalmente, que adorei o livro.

Este romance pretende ser a biografia de Adriano, imperador dos territórios romanos entre 117 e 138 DC, contada na primeira pessoa.
Através de uma extensa carta que envia ao sucessor por ele escolhido, Marco Aurélio, Adriano vai fazendo desfilar toda a sua vida; as suas façanhas heróicas, a sua postura perante as lides da governação, as suas viagens, o seu gosto pelo mundo helénico, o carinho e o entendimento conseguido com Plotínia esposa de Trajano mas, sobretudo, os seus afectos.
Aliás mesmo os aspectos mais prosaicos da sua vida de imperador são aqui referidos de uma forma extraordinariamente apaixonada dando aquele vislumbre dos pressentimentos, das sensações, das impressões, das incertezas que se alojam por trás das grandes decisões que, geralmente, nos são apresentadas de forma fria, exageradamente pragmática.

Yourcenar consegue aliar de forma magistral (se calhar já o deveria saber…) o que o documento histórico e a ficção têm de melhor.
Se bem que não deixe de ser um romance com tudo o que lhe é permitido em termos de ficção de forma a torná-lo excelente sob o ponto de vista estritamente literário, não deixa de ser um testemunho histórico de rara fidelidade que nos põe a nu a vida deste príncipe que foi um dos imperadores de excelência do período do Império Romano.

Satisfaz inteiramente duas das minhas paixões:
a literatura, o prazer de ler um livro bem escrito que nos prende pelo simples prazer de o ler e
a história se tivermos em conta a forma mais humana, com já referi, de nos apresentar uma época sem, no entanto, se desviar do rigor histórico em relação ao qual Yourcenar foi extremamente exigente.

Atestam-no os cerca de trinta anos que a autora levou a decidir-se pela escrita do livro bem como a minuciosa investigação a que se dedicou durante todo esse tempo para o vir a concluir. A edição que li possui um anexo de cerca de quarenta páginas em que a autora nos explica os vários processos por que passou a escrita deste livro bem como cita todas as fontes utilizadas para o fazer. E são muitas, algumas raras e todas de grande fiabilidade.

Se o não tivesse lido, efectivamente, seria uma mulher intelectualmente mais pobre.

domingo, 13 de maio de 2012

Desabituei-me de estar aqui...



Sentada aqui no meu bar, na minha praia,
pouso o livro que não me apetece ler.
Desabituei-me de estar aqui.

Tinha quase esquecido esta beleza crua.

Pouco a pouco invadem-me os sons, os cheiros, as cores, o brilho…
de uma forma tão intensa,  tão imensa, tão viva!
Quase dolorosa.
Perturba-me o estrepitar do mar que amo.
Desassossega-me…

Escuto-o.

E, de repente, já não me importa a intensa vida de Adriano
que nunca pode ter tido a intensidade deste mar.
Desdenho a beleza das palavras de Yourcenar
que nunca serão tão belas como o voo das gaivotas,
a espuma das ondas, o cinza/verde das rochas húmidas,
os raios dourados bailando nas águas.

Desabituei-me de estar aqui.
Tinha quase esquecido de como sorver este ar salgado,
de como pisar esta areia graúda que pica nos pés,
de como sentir na pele a carícia ardente do sol.

E agora, que regressei,
sinto que esta realidade áspera que me envolve
me traz de volta à doçura dos sonhos
que há tanto tempo não sonhei…

domingo, 6 de maio de 2012

Sou Mãe



Sei o que é amar até doer.
Sei o que é sentir nas próprias vísceras a dor que não sabemos retirar a quem das nossas vísceras irrompeu.
Sei o que é sentir apenas um ligeiro sopro de perfume na alma quando a distância se interpõe.
Sei como é querer guardá-lo avaramente apesar de ele teimar em se escoar pelas lágrimas da chuva.
E sim, sei o que é amar até doer…
Sei como é não caber na própria pele quando olho um filho e, apenas por pudor, não gritar bem alto o meu orgulho.
Sei o que é não entender o enigma de gerar algo que me transcende inteiramente, infinitamente melhor, infinitamente maior, infinitamente…
Sim, sei o que é amar até doer.
Sou Mãe!


Fotografia: a minha mãe com 19 anos.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Há dias

"Mulher na areia" de Camille Claudel

Há dias em que me apetece somente ser eu.

E soltar-me de todos os abraços obnóxios, mesmo dos outros, das raízes, das gavinhas de tudo quanto me agarra,

Agarrar todas as flores, as aves, mesmo as amarelas, as borboletas, os sonhos, os poemas que quero para mim,

Chorar todas as gotas de todas as chuvas que me queimam por não terem sido ainda choradas,

Rir todos os soluços que se arrumam no peito por não terem para onde os leve o vento.

Há dias em que não sei como ser.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Apresentação do livro "Geografias Dispersas" - fnac MarShopping part 1


Uma noite bem passada, esta. À conversa com Alexandra Malheiro e lendo os seus belíssimos poemas.

Foi na Fnac no passado dia 21. Venham assim muitas.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Aconchego


E quando o teu dia se faz tão negro que empalidece a noite

Quando os finos raios de sol te gelam a alma

Quando rir te solta lágrimas

Quando as palavras se quedam adormecidas

no estrepitoso silêncio das inconsistências

Nessa apatia incólume, aí mesmo,

embrulha a dor na bruma das ausências

… e aconchega-te.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Ocaso

Da minha janela...

Ela está sentada em frente à janela.

Alonga o olhar para as árvores que parece não ver, de tão parado. Essas mesmo que tão bem conhece, a quem acompanhou o crescer, que viu vestir e despir ao longo das tantas primaveras e de outros tantos Outonos…

Acompanhou-lhes a vida, já não lhes conhecerá o crepúsculo. Hoje, quase nuas, resplandecem sob o fogo frio de um pôr-do-sol de inverno.

Um brilho fugaz e intenso cruza aquele olhar que se ilumina para logo se apagar. Atrás de si uma lágrima, solitária e grossa, rola lentamente por entre os sulcos vincados que lhe cruzam a face.

O pôr-do-sol! Ah, esse brilho esplendoroso dos muitos ocasos que presenciou com ele. Essa luz sob a qual amou e que, sem mesmo saber porquê, lhe acordou memórias, lhe lembrou esse calor há tanto esquecido.

O olhar ainda esquecido sobre aquelas árvores inundadas de um leve fogo perde o brilho. E a gota redonda, que foi aquela lágrima, pousa docemente na sua mão.

Ela, já não a sofre…

domingo, 27 de novembro de 2011

As palavras


As palavras escapam-se-me magras e vazias

numa tentativa frustrada de iludir o vazio de mim.

Palavras castanhas, cinzentas, algumas ainda roxas,

às quais subtraio o sentido, o som, o calor, a luz, o cheiro…

Palavras que tomo de empréstimo mas que não enlaço,

que não toco, que não me tocam, que não sinto minhas…

Palavras desabitadas apenas…

Apenas palavras.

domingo, 6 de novembro de 2011

E há o natal!


E há o natal!
E as luzes, as cores, o frio
e a música, as luzes, as fitas e o frio
e os embrulhos, a ansiedade, o frio, os cheiros, e as vozes,  
as luzes, os fritos, o pinheiro e os cheiros e o medo
e o frio, os anjos, as vozes, o azevinho, o nascimento
os irmãos, e os sobrinhos e os cheiros, a incerteza, a música,
o pinheiro e as bolinhas, o frio, os sininhos, a lareira,
as vozes, os pastorinhos, a saudade…  e a magia,
a ansiedade e a música e eu e tu e tantos …  
afinal,  não tantos… 
e o natal!

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

“Ilha Teresa” de Richard Zimler



Mais um livro deste autor que li quase de um fôlego só.
Completamente diferente dos seus livros de pendor histórico, como é o caso de todos os que descrevem a saga da família Zarco, dos quais, aliás, sou apreciadora indefectível, surpreende-nos exactamente por essa diferença e pela forma excelente como Zimler se movimenta num registo bastante distinto. Interessantíssimo!
Não lhe encontrei também semelhanças substantivas com “Trevas de Luz”, “À Procura de Sana” ou “Confundir a Cidade com o Mar”.

Neste livro o autor aborda temas actuais, difíceis, penosos e delicados, com leveza e sensibilidade, sem contudo deixar transparecer qualquer laivo de superficialidade no seu tratamento.
É, por exemplo, o caso da inadaptação social devida ao facto de se ser diferente numa escola, numa sociedade, num país. E todos nós sabemos quanto essa diferença é difícil de gerir e quão esmagadores podem ser o sofrimento e a exclusão que essa inadaptação acarreta, sobretudo se tivermos em conta que estamos a falar de jovens.

Teresa é uma adolescente de quinze anos, portuguesa, de Lisboa, que se vê de um momento para o outro a viver nos subúrbios de Nova Iorque com o seu pai, a sua mãe e um irmão. É uma rapariga inteligente, sensível e, certamente também muito devido a essas características, desajustada e presa num mundo só seu, na sua “ilha”.
E sofre. Sofre por ela, pelo irmão, pelo desmazelo da mãe, pela perda do pai e.. por amor.
Tem um único amigo, Angel, um brasileiro de dezasseis anos, também ele diferente, também ele vítima de preconceitos, também ele marginalizado e excluído.
Ambos gostam de John Lennon que é para Angel um ícone incontornável. Ambos decidem ir “em peregrinação” ao Memorial Strawberry Fields Forever, em Central Park, no dia em que se recorda o assassinato do ex- Beatle, 8 de Dezembro (de 2008). E será este o dia que determinará a grande mudança nas suas vidas.

Zimler adopta um tipo de linguagem peculiar mas inteiramente adequado à sua personagem narradora. Fluente, claro, ligeiro, jovem e muito, muito irónico. Teresa é possuidora de um sentido de humor inteligente e cáustico. Dá a ideia, às vezes, de ironizar para tapar as lágrimas. Quem sabe?
Quem, como eu, está familiarizado com a escrita de Zimler encontrará aqui uma outra forma de expressão literária que não desmerece em nada a habitual, É sim um exemplo da sua capacidade de ajustar o discurso escrito às necessidades mantendo a sua individualidade e as características específicas da sua escrita. Em suma, o seu estilo.

O enredo é desenvolvido de forma descomplicada e agradável. Não é exageradamente directo, o que poderia retirar ao leitor a sua participação na construção da história, sem contudo ser exaustivo e redundante nas explicações que dá não correndo assim o risco de ser enfadonho. Está, na minha opinião, na medida certa.
Prende irremediavelmente o leitor desde o início. Aliás, este é levado, pela mão de Teresa, a percorrer anseios, inquietações, a sofrer, a amar, a perder, a caminhar nas dúvidas, a afundar-se e a regressar à superfície tal como sucede com a personagem (as personagens). 
Teresa uma adolescente isolada, em ruptura com o mundo mas que é, no fundo, uma mulher forte, de garra, como tantas outras personagens mulheres que Richard Zimler tem construído.

Mais um livro a não perder. Se ainda não o leram, não tardem. Vale a pena. 

A ler também aqui, no número 3 da Revista-Me, com uma breve entrevista ao autor.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

De António Nobre



Dizendo um pequeno excerto de "Viagens na minha Terra" de António Nobre da obra "Só" muito bem acompanhada pelo Pedro Lopes ao piano e pelo Miguel Motta na voz.


Nota importante:

Porque percebi que algumas dúvidas se colocaram nos espíritos dos mais atentos, cumpre-me informar que não, não me encontrava ajoelhada... O Miguel é que é mesmo assim, daquele tamanho.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

A gata branca

Era uma gata belíssima aquela que me apareceu no caminho logo no primeiro dia em que, da área da piscina, me dirigia ao meu quarto.

Estranhei a sua magreza. Contudo mantinha um porte altivo, uns olhos brilhantes que pediam algo. Dirigi-me a ela com palavras doces mas a gata branca, imaculadamente branca, embora não fugisse, não confiava. Ia-se aproximando mantendo bem alerta todas as suas defesas. E o seu olhar pedia algo. Fui ficando por ali conversando com ela, sentada no chão, numa tentativa de me aproximar. Gostaria de a acariciar. Não consegui.

Quando estávamos apenas as duas, entendi o desespero daqueles olhos. De sob o passadiço de madeira onde ambas nos encontrávamos, começaram a surgir, se bem que muito desconfiados e sempre prontos a esconderem-se, seis lindos gatinhos pequeninos. Os seus filhos! Eram ainda mais pequenos do que a provável idade lhes imporia pois estavam, também eles, magríssimos.

Fui buscar uma tosta mista que tinha pedido para o almoço e, partindo-a aos bocadinhos pequenos, deixei-lha para que comessem. Devoraram-na sofregamente sob os olhares atentos daquela gata branca que apenas comia aqueles que lhe colocava na sua frente e não os que lançava para junto dos filhos, um pouco mais longe.

Era uma cena de ternura aquela que eu presenciava se bem que embrulhada numa enorme nuvem de tristeza.

Sempre que pressentiam alguém os pequeninos escondiam-se assustados e a mãe, embora não fugisse, sempre elegante e altiva, deslumbrante na sua brancura, mantinha uma distância segura de quem passava.

Tive que ir. Não queria passar o meu primeiro dia de férias sentada num passadiço de madeira a olhar para algo que me arrefecia o ânimo.

Não sabia qual a política do hotel em relação à permanência de animais nos seus vastíssimos espaços exteriores, mas a magreza e o temor revelado por aqueles sete animais não prenunciava nada de bom.

O melhor seria mesmo manter silêncio acerca deles.

sábado, 3 de setembro de 2011

Crónica de uma saudade anunciada


Primeiro foram aqueles tempos sem tempo em que os dias passavam por mim (ou seria eu que passava por eles?) sem que, verdadeiramente, as horas se distinguissem. Tempos em que as horas me prendiam e se enredavam e me enredavam, e me atrapalhavam, e se confundiam e já nem eram horas de tão enredadas…

Além disso havia aquela névoa familiarmente estranha que me turvava o pensamento, o sentir, impelindo-os para dentro, sempre para mais adentro, ali bem para aquele local onde se arquitectam todas as mágoas.

Seguiram-se tempos de incertezas: Aquilo que hoje era, amanhã era-o também apenas com um subtil aroma de dúvida. Tudo que hoje mais queria, amanhã já não desejava, tinha-lhe até medo. Todas as emoções que hoje me ardiam se quedavam extintas no mais logo do amanhã.

E assim se foram desenrolando uns tantos hojes e ontens ainda recentes, nos quais se sonhavam os já saudosos amanhãs.

Finalmente as certezas. Irias partir! Irias perseguir o teu futuro bem presa na força da tua vontade. Irias voar nas asas da tua coragem. E viverias outros ontens, outros hojes e sonharias outros amanhãs que não aqueles que eu costumava partilhar contigo.

Mesmo assim, mesmo presa nas escamas da saudade, estarei orgulhosamente, hoje, a torcer para que todos os teus amanhãs sejam tudo aquilo que de mais belo imaginaste.

Por vezes amar dói tanto!

Nova Iorque, 18 de Julho de 2011

domingo, 21 de agosto de 2011

“A Morte de Carlos Gardel” de António Lobo Antunes


Decidi ler agora (Fevereiro deste ano) este livro de Lobo Antunes, um dos muitos que ainda não li, pelo facto de ter sabido, há já uns tempos atrás, estava o argumento ainda em fase de preparação, que a realizadora sueca Solveig Nordlund iria realizar um filme não só homónimo do livro como tendo por base a sua história.

Ora, sem dúvida, tal conhecimento espicaçou-me a curiosidade em relação ao livro. E agora, confesso, tenho a curiosidade ainda mais encarniçada para ver o resultado final. Neste caso, do filme.

E então o livro:

É mais um livro com a marca inconfundível de António Lobo Antunes. Um livro em que a narrativa se encontra fraccionada, surgindo sem sequência temporal ou espacial, intercalando tempos, espaços, acontecimentos (reais ou do mundo imaginário), e personagens.

Encontra-se dividido em cinco partes sendo que cada uma delas tem por título um tango de Carlos Gardel. Começa com “por una cabeza”, vai seguindo com a “milonga sentimental”, passa para a “lejana terra mia”, até “el dia que me quieras” para terminar com a belíssima “melodia de arrabal”.

Devo dizer que fui ouvir estes tangos (um prazer, gosto de tango, confesso) procurando ver se havia alguma ligação entre as suas letras e o que ocorria naquelas, também cinco, falas. E, realmente, penso que posso com facilidade estabelecer algumas ligações entre os sentidos dos textos. Ou então será mera vontade minha de o fazer. Deixo ao critério, ou à imaginação de cada leitor encontrar, ou não, essa intertextualidade, essa coincidência de sentidos.

Cada uma dessas partes está dividida em, chamemos-lhe capítulos, em que é dada voz a uma personagem. Uma estrutura também já habitual em alguns dos livros de ALA.

E é ao seguirmos essas vozes de cada um que se vai desenrolando perante nós uma história que é, no fundo, o somatório de muitas e, todas elas, gestas tristes onde a desesperança, o isolamento, a insegurança, o desamor, um passado de desilusões são denominadores comuns a todas as personagens.

Nuno, o filho toxicodependente de Álvaro e de Cláudia, encontra-se internado em estado terminal (acabando por morrer). À sua volta vamos encontrando os familiares e relativos que vão soltando as suas existências, os seus pensamentos, as suas fantasias traçando-nos, com elas, um quadro tremendamente deprimente em que a iminente morte do Nuno acaba por se ir diluindo no dramatismo acabrunhante de todas aquelas vidas.

Temos a Cláudia, mãe do Nuno, abandonada por Álvaro que lhe diz que não gosta dela, que nunca gostou, e que, depois de outras, acaba por manter uma relação com um indivíduo da idade do filho.

Graça, tia de Nuno, irmã de Álvaro, com uma relação homossexual assumida com Cristiana, que apenas suporta, pois, na verdade, por quem sempre esteve apaixonada foi pelo irmão.

Cristiana, insegura e exigente. Tremendamente infeliz.

Raquel, a actual esposa de Álvaro, socialmente muito diferente deste, a qual ele não aguenta e não se coíbe de o demonstrar…

E Nuno que, de facto, nunca esteve verdadeiramente ligado a ninguém.

Álvaro é apaixonado pela música de Carlos Gardel que ouve repetidamente. Esta obsessão vai piorar e entrar num caminho sem retorno no dia em que encontra o Sr. Seixas, um velho que, com a sua mulher (agora imobilizada por uma trombose), se apresentava em bares de categoria cada vez mais duvidosa, imitando a imagem e o cantar de Carlos Gardel e dançando os seus tangos. E seguindo-o, lidando com ele como se do verdadeiro Gardel se tratasse, negando a morte deste, Álvaro procura prolongar o mito. Quiçá o único ao qual se sente ainda ligado, o único fio de ilusão que ainda lhe resta.

Mas, na verdade, nem isso ele consegue…

Como sempre a escrita de ALA encanta-me pela perfeição que nela se acha. Todas as palavras estão ali mesmo, onde deviam estar.

E a poesia que dela emana!!!!


Nota:

Não sei por que raios é que não consigo colocar este post sem retirar a cor de fundo da página. Mas desisto. Depois de 1900 tentativas vai mesmo assim. Pronto.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

“Quantas Madrugadas tem a Noite” de Ondjaki

Este foi outro dos livros que ainda li em Nova Iorque. Este não foi propriamente um lenitivo. Foi, sem dúvida, um desafio.

Livro muito interessante mas apenas depois de lhe conseguir encontrar o ritmo. E este é um caso que constitui um verdadeiro desafio.

Escrito numa linguagem muito oral, completamente coloquial utiliza, além de palavras mal pronunciadas, léxico muito específico, com uma enorme profusão de termos próprios de uma linguagem africana, o que, para quem não está familiarizado com esse tipo de linguagem (como é o meu caso), torna algumas partes da narrativa quase ininteligíveis ou, pelo menos, muito maçadoras de ler dada a quantidade de consultas ao glossário que é necessário fazer.

Ultrapassado este primeiro obstáculo (para quem tiver vontade de o fazer), um pouco mais familiarizados com alguns termos que se repetem e adivinhando o sentido de outros, acabamos por encontrar uma história magnífica recheada de personagens que têm tanto de ricas e genuínas como de pitorescas e até caricatas.

Aqui podemos encontrar o anão BurkinaFaçam, um homem bom, que vive de expedientes vários e que tem a permanente companhia de duas prostitutas. O Jaí, albino de condição, professor e honesto até à medula de vocação. O AdolFodido, o defunto, herói de uma guerra que nunca poderia ter protagonizado. As suas duas viúvas. A KotadasAbelhas que se substituiu à abelha-mestra de uma colmeia depois de a matar. E o cão, o enigmático cão…

À medida que o narrador, em troca de umas cervejas (birras) vai desenrolando as fascinantes peripécias em que estas (e outras) personagens se vêem envolvidas, temos que admitir que estamos perante, não só uma capacidade imaginativa invulgar como também de uma, não menos invulgar, capacidade de escrita. É muito difícil escrever num registo coloquial sem que o resultado se ressinta no que diz respeito à qualidade literária. Tal não acontece neste caso.

Confesso que tiro muito mais prazer da leitura do, chamemos-lhe, português padrão quando bem escrito. Dado que não exige de mim nenhum esforço adicional permite-me, sem ruídos de qualquer espécie, concentrar-me no enredo e degustá-lo desde o início.

Contudo, e para ser completamente honesta, apesar das dificuldades iniciais, acabei por gostar muito do que li.

Recomendo. A leitura bem como a paciência para ultrapassar os primeiros desânimos.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

“A Varanda do Frangipani” de Mia Couto

Um dos poucos livros que levei na minha curta viagem a Nova Iorque e um verdadeiro lenitivo para os momentos menos agradáveis que lá passei.

Pois bem. É um livro lindíssimo. E quando digo lindíssimo não exagero nem um pouco. A sua escrita é um verdadeiro poema pela sua beleza, pela sua singeleza, pela sua candura.

Com um toque de policial, com muito de despojo físico e moral de uma guerra terminada há tão pouco tempo, é uma história repleta de histórias magníficas extraordinariamente bem contadas.

Ermelindo Mucanga, falecido mas sem ter tido um enterro condigno, de acordo com os costumes do seu povo, para fugir à “maldição” de ser considerado herói, dispõe-se a reencarnar para voltar a morrer. A sua alma volta à vida no corpo de Izidine Naíta o inspector que vai à Fortaleza de S. Nicolau (actualmente um asilo) com o objectivo de desvendar o mistério da morte de Vasco Excelência director do referido asilo.

Aí, Izidine Naíta é confrontado com as narrativas mais incríveis dos velhos residentes. Narrativas fantásticas em que o folclore moçambicano, as diversas crenças, os mitos, revivem e adquirem corpo em cada página de uma forma muito vívida se bem que também muito natural.

Por norma gosto da escrita de Mia Couto. Mas este livro, confesso, arrebatou-me pela sua beleza e pela ternura com que se lê.

Aconselho vivamente

sábado, 13 de agosto de 2011

Vazio


Mais um sopro desatado de dolência.

Mais uma mancha que se estende

e me agasalha de cinza

o desarrumo que é a minha alma.

Mais um vazio que me preenche,

que me esvazia,

que me afoga as pestanas na tristeza,

da ausência de ti.

2011-07-27

quinta-feira, 14 de julho de 2011

“A Biblioteca das Sombras” de Mikkel Birkegaard

Como já disse diversas vezes sou uma leitora bastante compulsiva de todos os géneros literários. Contudo, como é natural, há géneros que me suscitam mais curiosidade do que outros. Pois bem, gosto de ler um bom policial.

Quando li a sinopse deste”Biblioteca das Sombras” fiquei logo entusiasmadíssima.

Senão vejamos; Um livro inteiro sobre livros, livrarias, bibliotecas e bibliófilos (já promete!). Tudo isto embrulhando uma morte que se verifica ter sido um assassinato peculiar e que leva o filho do assassinado a encetar uma investigação que o arrastará por caminhos misteriosos…

Pois, não podia deixar de ler.

O livro começou a interessar-me logo às primeiras páginas. Luca Campelli o dono da prestigiada livraria “Libri di Luca” em pleno centro de Copenhaga, chega de uma viagem que o manteve ausente da sua adorada livraria por mais de uma semana.

Ao chegar, inala o odor dos seus adorados livros, serve-se de um cognac e dirige-se ao mezanino, local onde se encontram os exemplares mais ricos e mais invulgares da sua livraria a que muito poucos têm acesso dado o seu valor. Aí repara num exemplar que estranha e começa a lê-lo. À medida que se embrenha na leitura vamos acompanhando estranhos fenómenos ligados ao comportamento de Luca que culminam com o derrube da balaustrada do mezanino e consequente queda que lhe provoca a morte. Este processo de leitura e seus efeitos, embora não totalmente compreensível, ainda, para o leitor, está muito bem descrito e é deveras envolvente.

É que Luca, sabê-lo-emos entretanto, fazia parte de uma sociedade secreta, os Lectores, possuidores de dons excepcionais de leitura que lhes permitiam arrebatar o leitor levando-o a ler o que quisessem que lesse. Mais propriamente a enfatizar os aspectos da leitura que quisessem. Ora esse poder, como facilmente inferiremos, tem tanto de admirável como de perigoso.

Jon, filho de Luca e proeminente advogado, é, no rescaldo da morte do pai, apanhado no meio de todos estes mistérios e perigos que desconhecia completamente mas que tem de enfrentar para salvar a própria vida.

Claro que há espaço para o romance o qual acontece entre Katherina e Jon.

Com todos estes ingredientes e um começo interessante é certo que criei as minhas próprias expectativas que, infelizmente, acabaram por não corresponder à realidade.

O que acabei por ler foi um romance ao estilo Dan Brown, com muito ritmo mas pouca história. E, sobretudo, pouca consistência. Tudo, na minha opinião, é aflorado um tanto superficialmente. As personagens são pouco sólidas à excepção de Katherina que achei bem trabalhada e credível.

Também os sucessivos desfechos do enredo foram, para mim, demasiado previsíveis. Quase desde o início que foi evidente quem eram os “maus” e os “bons” da fita; quase desde início que soube quem eram os traidores e as consequentes vítimas. Enfim, quase desde o início que pude construir a história sem grandes desvios em relação ao que realmente aconteceu.

E para terminar… o fim. Pois, o fim , boring…. Um verdadeiro desconsolo.

Com tudo o que acabei de vos dizer e vale o que vale, é apenas a minha opinião, estamos em presença de um best seller…

Dizer que perdi tempo com a leitura do livro? Não posso, nunca considero uma leitura uma verdadeira perda de tempo. Além disso estamos em presença de uma escrita fluida, agradável, sem grandes pretensões literárias mas agradável mesmo assim.

Um livro a ler para quem gosta do género mas, continuo a achar, com muito pouca substância…