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sexta-feira, 18 de março de 2011

Poietikós - A Poesia da Vida


Atenção, estive nos ensaios, não percam.... A sério, não percam mesmo!!!!


A convite da Câmara Muncipal de Gondomar, a edita-me vai levar a cabo o espectáculo

Poietikós - A Poesia da Vida

dia 18/Março, pelas 21h30, no auditório da Biblioteca Municipal de Gondomar.



A vida, as pessoas, os poetas enquanto seres humanos, que se cruzam, que se apaixonam, que escrevem o que vivem e que vivem escrevendo...



Um espectáculo construído exclusivamente a partir de textos já publicados de autores da edita-me, que estarão presentes para no final, interagirem com o público.



Com as participações:
- Leituras por Ana Afonso, Carlos Lopes e Celeste Pereira
- Dança (ballet) por Filipa Lopes e Inês Magalhães
- Musical 575 Band e Ângela Cintra

Entrada livre!

sábado, 12 de março de 2011

Mutismo


Tanta coisa, tanta, a dizer e, afinal, nada digo.

Fecho-me neste mutismo teimoso e ácido

que me consome o querer, que me queima os lábios,

que me prende a língua, que tolhe todo o meu ser.

E, afinal, há tanta coisa a dizer…

quinta-feira, 10 de março de 2011

“Sôbolos Rios Que Vão” de António Lobo Antunes

E pronto, lá voltei a ler o livro que me tinha deixado uma impressão pouco definida. E, na verdade, eu gosto pouco de indefinições.

Tal como previa a percepção que tive agora dele foi completamente diferente daquela que adveio da primeira leitura. Obviamente pelo facto de ser uma segunda leitura e, portanto, conhecedora já das linhas mestras da narrativa, pude-me debruçar com mais tempo e vontade sobre as imensas subtilezas que este livro contém.

Como já nos habituou apresenta-nos uma escrita fragmentada. Nada em nenhum momento desta narrativa é linear. Vai arquitectando planos diversos, competindo ao leitor organizá-los, encaixá-los e criar uma narrativa coesa.

Depois desta segunda leitura, a opinião com que fiquei foi que terá sido este o livro em que esta fragmentação, este entrecortar do discurso se encontra no seu ponto mais perfeito. Mais fácil? Não. Mas mais perfeito.

As diversas referências de espaços e tempos diferentes surgem aqui desde o início, desde que o Sr. Antunes entra no hospital, ao mesmo tempo que o Antoninho se encolhe de medo da D.Lucrécia na sua cadeira de rodas, na vila? na enfermaria do hospital?

E, enquanto ele, Sr. Antunes se encontra no hospital e é sujeito a uma complicada intervenção cirúrgica, as suas memórias vão fluindo como um rio recordando os seus avós (Antoninho), os seus pais, o Virgílio, a carroça, o burro, o ditado “o menino me deu vida…”a vida na vila, o ouriço que se dilatava e continuava consigo emboscado nas vísceras, o pássaro do seu medo que continuava em círculos, a sua nudez que o humilha, a sua impotência perante a doença, a veia que não tem (Sr. Antunes) e vão prosseguindo num entrelaçar contínuo de personagens, locais e tempos por todo o livro até ao final.

Este, simbólico, no meu ponto de vista, uma vez que uma das últimas alusões à sua infância é o seu próprio nascimento. O seu renascimento, quem sabe…

Contudo, voltando um pouquinho atrás, na minha opinião não é a coesão da narrativa o mais importante neste livro (assim como em outros de ALA) mas sim a beleza da sua escrita. É realmente uma escrita que revela uma qualidade, uma mestria no jogo das palavras que nos subjuga. Alia a isso um pendor incrivelmente poético. Há frases no livro que são, só por si, um poema: …”e ele sem descer com os rios, as folhinhas desciam, os ovos de gafanhoto desciam, um ramo de salgueiro descia girando, nós não descíamos pai,”…

É e julgo não haver dúvidas para ninguém, um livro inteiramente autobiográfico. Quer no que se refere ao episódio da doença quer aos outros da sua infância e não só. Aliás até os nomes o sugerem. Já outros o foram e nem por isso ficaram diminuídos na sua qualidade.

Enfim, alguém me disse há uns tempos quando conversávamos acerca do livro que o considerava “o livro perfeito”. Eu cá não sei muito bem o que é um livro perfeito, nunca encontrei nenhum. Encontrei livros que me marcaram profundamente pelas mais diversas razões mas (exigentinha!), estou sempre à espera de outros que me marquem ainda mais.

Portanto, perfeito… não sei, acho que não.

Bom, a ler, sem a menor dúvida. E, já agora, esqueçam a expectativa, só estorva…

domingo, 6 de março de 2011

"Sôbolos Rios Que Vão" António Lobo Antunes


Li este livro há já uns meses largos. Mais precisamente, acabei de o ler no dia 21 de Outubro. A verdade é que tenho a data muito presente por tê-lo lido enquanto convalescia de uma inconsequente intervenção cirúrgica à qual fui submetida no dia 19. Claro que o li muito rapidamente. Na verdade não estava propriamente em condições de me ocupar com muitas outras coisas mas, ainda que não fosse esse o caso, teria sido um livro de leitura rápida pela sua envolvência.

E agora poder-se-á perguntar: se já o li há tanto tempo porque razão só agora aqui estou a deixar a minha opinião?

Pois isso deve-se à conjugação de dois factores.

Em primeiro lugar iniciei a leitura do livro no dia exacto em que apareceu nas bancas. Estava a passar um curto fim-de-semana em Cascais e vi-o na Bulhosa no dia 18 de Outubro. Calhou muito bem pois estava mesmo a acabar de reler o “Conhecimento do Inferno”. Era acabar um e começar logo o outro, boa!

Um grande erro. Nunca o havia feito e não aconselho ninguém a fazê-lo. É necessário algum tempo para digerir um livro de Lobo Antunes. Então depois, quando temos tudo bem claro na nossa cabeça, ou pelo menos o mais claro possível, aí sim poder-nos-emos abalançar para outro do mesmo autor. O melhor mesmo é ir lendo outros autores de premeio, ainda que não seja essa a vontade e depois, então, quando tudo estiver bem arrumado, pegar no próximo.

Como já disse, não o fiz. Acabei um e comecei de imediato o outro o que acabou por prejudicar bastante o partido que tirei da leitura do mais recente.

A expectativa que havia criado em torno dele era também enorme. Estava à espera de algo muito muito bom que francamente se distanciasse de tudo quanto até aqui havia lido de ALA, embora de ALA…

O que encontrei foi um livro abertamente autobiográfico (o que havia acabado de ler também o era embora focando outros momentos da vida do autor), em que tudo se passa num espaço temporal relativamente curto (no anterior também, mais curto, é certo) e o mesmo tipo de escrita fragmentada que havia encontrado, por exemplo no “Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar”, ou no “Arquipélago da Insónia”, ou em “O meu nome é legião” sem que, à partida, me parecesse trazer nada de novo a não ser o facto de ser mais fragmentada ainda.

Fiquei portanto um pouco desiludida. Não posso dizer que não tenha gostado, é certo. Mas também não posso dizer que me tenha impressionado da forma que esperava que o fizesse. Assim, fiquei sem vontade de deixar aqui, como é meu hábito, a minha impressão pois, para dizer a verdade, nem sabia muito bem que impressão me havia, de facto, deixado.

Deixei correr o tempo e bastantes livros pelo meio até que decidi repetir a leitura do citado livro.

Será então alvo do meu próximo “comentário”.

sexta-feira, 4 de março de 2011

“Conhecimento do Inferno” de António Lobo Antunes

É curiosa a forma como uns anos de permeio e muitas leituras me fizeram ter uma perspectiva tão diferente do mesmo livro!

É verdade. Acabei de reler este livro há já uns dias. E, se da primeira vez tinha ficado com uma ideia de diferença em relação ao único que havia lido (Memória de Elefante) do mesmo autor agora, pelo contrário, achei-o muito parecido com os dois anteriores. Quando me refiro a parecido quero dizer na forma. Bom, na forma e, no conteúdo também pois, na verdade, julgo até que este poderia ser a “continuação” do primeiro…

Em ambos aparece a personagem principal colada a ALA; psiquiatra, frustrado na sua profissão mas também na sua vida pessoal, marcado pelas memórias de uma guerra que, embora não sendo a sua guerra, lhe deixou marcas indeléveis, assolado por recordações mais ou menos intimistas, mais ou menos determinantes.

Se a linha narrativa de um e de outro se separam, a razão desta, julgo eu, mantém-se a mesma em ambos; a necessidade da catarse.

Embora seja de opinião que já se comecem a notar as marcas que determinarão o caminho que os livros mais recentes de ALA virão a tomar, existe ainda uma certa linearidade na forma de contar.

Ora bem, não é linear. Mas a forma como fracciona o discurso não é ainda tão elaborada como virá a ser.

Também pelo facto de me parecer bastante autobiográfico tendo a aproximá-lo quer do “Cus de Judas” quer do já citado “Memória de Elefante”.

Se nos outros eram essencialmente as memórias da guerra, que imprimiu marcas indeléveis no autor, que prevaleciam neste, porém, é a sua experiência enquanto psiquiatra hospitalar que sobressai.

E vai fundo no contar dessas experiências. E veste a pele do doente psiquiátrico, a sua solidão a desolação do hospital em si. Explora as dúvidas e as amarguras do clínico.

Evidentes também as constantes alusões à sua família, a locais que foram seus locais, a uma vida que estou em crer terá sido também um pouco a sua.

Com um registo belíssimo, pejado de metáforas incríveis de pendor eminentemente poético, vai desfiando essa sua experiência negra ao longo de uma escrita na qual se vai notando um esforço no burilar da forma. A narrativa fica mais complexa e passamos a ter necessidade de acompanhar a vontade das personagens e não apenas o fio do enredo.

Como sempre deixou-me com água na boca.

Maia, 2010-10-20

quinta-feira, 3 de março de 2011

Pesa-me a pena

(Imagem da autoria de Miguel Ministro. Pormenor da capa do livro "Retalhos Serenos" de Carla Madureira)


Pesa-me a pena de me sentir pequena.

Ínfima no saber, no querer, na determinação.

Pesa-me a pena de me sentir escorregar

dia a dia, hora a hora, num curso imparável,

que não travo, a que não sei dizer não.

Onde andas tu, vontade? E tu ousadia?

E a confiança que tão precisa era agora?

E algo que me atropele esta agonia

de sentir que, de mim, apenas encontro uma sugestão?

Pesa-me a pena das penas que hora a hora, dia a dia,

me abalam no meu querer, me quebram a ousadia,

me atrapalham a emoção.

Pesa-me a pena…

terça-feira, 1 de março de 2011

Crónica de terça “O sorriso da Alexandra Malheiro”

E afinal não é que o fotógrafo passou por lá!!!! E nada mais nada menos do que o prestigiado Carlos Romão. Obrigada, amigo, pelo momento.

Em primeiro lugar quero aqui deixar bem explícito que não sei escrever crónicas. Nem à terça, nem à quarta, nem à quinta… em dia nenhum. Na verdade, mesmo a minha capacidade de escrever no seu sentido mais estrito me deixa muitas dúvidas, à segunda, à terça, à quarta… todos os dias.

Mas hoje não pude deixar de reagir e responder, ou acrescentar algo à crónica que podemos ler aqui.

Foi tudo verdadinha e tal e qual como lá está.

Coube-me a mim, já que estava sentada na esplanada do tal “quartel-general da macro-editora a quem pertencem os títulos” de Lobo Antunes, controlar o movimento em torno deste a fim de proporcionar o autógrafo pretendido pela Alexandra desviando-a o menos tempo possível dos seus fãs.

Depois de eu própria ter visto os meus livros com uma grossa assinatura e ter até - pasme-se, ele fala normalmente - tido uma pequena conversa com o autor na qual se falou das mulheres do norte, da guerra, de Angola, de escrita, constatando que a longa fila já não estava tão longa pus-me a abanar freneticamente a écharpe que nesse dia me complementava a toilette. Era o sinal para que a Alexandra pudesse deixar o “quartel-general” da sua editora e trazer o tão raro livro para ser gatafunhado por ALA.

Giro de observar foi o espanto do autor quando viu na frente um livro que não contava ver. Não fazia parte do conjunto dos seus best-sellers, era um livro de poesia, belíssimo, digo eu, editado nem sei por quem.

Primeiro disse que já nem se lembrava dele, depois que nem sabia se o tinha e, finalmente, virou-se para a Alexandra que o fitava com o seu ar absolutamente impávido e, como quem pergunta, disse-lhe: - É uma merda, não é!?

Ao que a Alexandra, acto contínuo respondeu: - Para mim, é o seu melhor livro!

Ele sorriu com um sorriso garoto de cumplicidade e a Alexandra devolveu-lhe uma sugestão de sorriso, muito sua. O dele, como podem ler na crónica, a Alexandra, com a sensibilidade de poeta que lhe sobeja, agarrou e guardou junto àquele livro e, quiçá, bem junto a si.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

“Olhos de cão azul” de Gabriel Garcia Márquez

Li este livro que há já algum tempo aguardava a sua oportunidade aqui, junto de mim. Tardei em pegar nele pois, como tenho já dito diversas vezes, não me seduzem particularmente os livros de contos. Fico sempre com aquela sensação de que algo ficou no ar, sinto-me defraudada, lesada… Então, e o resto? Isto, claro está, se o que leio me agrada. Caso contrário nenhum deixa saudades e ali estou eu a dar o benefício da dúvida umas poucas de vezes até terminar o livro…

Bom, mas não foi o caso deste.

É, na realidade, um livro de contos um tanto diferente dos outros até pela sua estrutura e organização.

Os catorze contos que compõem esta edição (todos escritos entre 1947 e 1955 e publicados em 1974), encontram-se organizados por ordem cronológica de escrita. Este facto nada teria assim de particularmente importante. Contudo, ao lê-los vamo-nos dando conta que, alguns, são na realidade uma espécie de sequência de outros anteriores ou, pelo menos, uma visão diferente de um mesmo tema ou acontecimento.

Ora este facto, esta organização, enfim, esta real inter-relação entre eles, torna o todo, a meu ver, muito mais interessante.

Este livro colocou-me perante um Gabriel Garcia Márquez (Gabo, como é carinhosamente tratado pelos amigos) diferente do outro que eu já conhecia de leituras anteriores.

A prevalência de temas como a morte (tema quase constante), a difícil distinção desse ténue fio que a separa da vida, a transmigração da alma, a melancolia, a saudade de um tempo eventualmente mais feliz, a inexorável passagem do tempo… associados a um tipo de escrita quiçá um pouco gótico (?), mas também um tanto lírico sobretudo no que concerne a algumas das suas personagens femininas (?).

Enfim, algo diferente dos seus ulteriores romances se bem que, na realidade, sobretudo nos dois últimos contos me pareceu sentir, ainda com alguma subtileza, aquele romantismo presente em tantos dos seus romances. Particularmente no último lá estão bem nítidas as marcas de escrita do autor (não pretendo, de modo nenhum, reduzir a escrita do autor a estas “marcas”, apenas acho que, de algum modo, são importantes para a caracterizar); o recurso a um certo realismo mágico. O inexplicável, o estranho, o absurdo mesmo, ligados e interligados à mais prosaica das realidades.

A ler sem dúvida.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Oculto amor


Se tiveres a paciência de lenta e cuidadosamente

ires despindo, uma a uma,

as camadas de anos que envergo inevitavelmente.

Se quiseres arrancar, com cuidado,

aquilo que outrora foi seda

e hoje um pano grosso, deslavado.

Se quiseres olhar bem mais fundo,

esquecendo este corpo de mulher madura…

Vais ver, acredita, sob esse invólucro estragado,

Um amor fremente, gritante, presente que ainda dura.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Desabafo

Pois então vejam só se não é criminoso estragar este espaço!!!! Estou em prantos.

Todos os que por aqui costumavam dar uma espreitadela, há já um bom par de anos, se devem ter apercebido de como gosto do meu Health Club. É verdade. Gosto mesmo muito do meu Health Club e… bem, da minha médica de família também.
Havia já algum tempo que eu apenas passeava o meu cartão para cá e para lá (é verdade Susana, sou das que preferia que apenas a posse de um cartão já trouxesse benefícios físicos…) sem que, na verdade, me decidisse a exibir o corpinho e pô-lo a trabalhar.
Verdadeiramente este meu desertar deveu-se a uma série de constrangimentos familiares, de saúde e outros. O que é certo também é que lá se foram dissipando os tais constrangimentos de saúde, os familiares foram-se organizando e encaixando no dia-a-dia restando apenas os outros, a omnipresente e imensa preguiça que me tem acompanhado fielmente em todos os momentos da minha vida.
Até que, vejam só, na semana que passou decidi (sou uma mulher de decisões desde que não seja para ter muito trabalho) reverter a situação. Arrumei o cartão (perdi-o) e toca a fazer hidro e natação como se não houvesse amanhã.
Dá para perceber que tal como do Health Club e da minha médica de família gosto também muito de água. E quem diz de água diz também de descansar entre natações e aulas num belíssimo jardinzinho de inverno onde cultivava a mente lendo o meu eterno livro (que são vários, obviamente, era uma pequena metáfora apenas para dar um ar mais rico à prosa).
Hoje, para não destoar, lá fui eu à minha aulita de hidro que é, por acaso, a mais mortífera da semana mas também aquela de que gosto mais. Vai na volta sou discípula de Leopold Ritter von Sacher-Masoch e nem sabia. A senhora que dá a aula, por outro lado, é sem dúvida seguidora do Marquês de Sade saiba-o ela ou não.
Terminada a aula e lamentando-me da falta de tempo para o cultivo da mente já que o corpo estava por demais amanhado vim a saber que o meu espaço favorito no clube, aquele onde posso estar, ora estendida ora deitada, a absorver mesmo os raios de sol mais envergonhados que o Inverno traz, iria ser transformado numa sala de cycling!!!!!
Confesso que não estava preparada para tal! Fiquei arreliada e preocupada. Mas será que aquela gente não arranja outro sítio para plantar as biclas sem estragar parte daquilo que distingue o Meu Heath Club de um ginásio qualquer?
Ó senhores! Digam lá para onde vai o conceito de bem-estar integrado?!
Mas isto é só “malhar”?
Fiquei preocupada, vim preocupada e ainda estou preocupada.
É que eu sou uma mulher fiel e não estou disposta, com esta idade, a ter de trocar de Health Club (nem de médica de família e também, já agora, nem de cabeleireira). Mas frequentar um ginásio que seja apenas para ir “malhar” e vir embora sem qualquer outro benefício foi peditório para o qual já dei, não resultou e não estou disposta a repetir.

domingo, 6 de fevereiro de 2011

“As Núpcias” de Natália Correia

Foi este o primeiro romance que li de uma autora de quem já conhecia e gostava da poesia e de algum teatro. Para além disso admirava-a enquanto mulher que traçava objectivos, definia metas e com coragem, desassombro, determinação, irreverência e uma boa dose de provocação, tudo fazia para as atingir.


Curiosamente ou casualmente ou sei lá porquê, comecei pelo último que escreveu já bem próximo do fim da sua vida.


Gostei muito. Não digo que tenha sido uma agradável surpresa pois de surpresa não teve muito. Não contava desiludir-me com uma autora de quem já apreciava outras facetas. Mas, às vezes, acontece…


É um livro apaixonante. De paixão e sobre a paixão mais avassaladora, a que nos pode conduzir à própria morte.


Apresenta-nos uma narrativa intrincada, algo perturbadora, exibindo vigorosamente uma faceta mística e espiritual. Aborda o sagrado e o profano a par do incesto e do andrógino.


André e Catarina, irmãos, vão protagonizando nos tempos actuais o velho mito de Isis, irmã e esposa de Osiris.

O avô de ambos, já morto, tê-los-á feito herdeiros de uma velha Sabedoria, guardada no templo. Essas Ensinanças, organizadas em livros ordenados do I ao XVI vão surgindo por entre a narrativa, transportando-nos através de uma vida que é de outro reino de um mundo com outra ordem, com outros sentires…


A narrativa é uma verdadeira prova de forças que as personagens têm de travar na luta por uma paixão proibida.


Como pano de fundo, escolhe uma família burguesa no rescaldo do pós 25 de Abril que, obviamente, ridiculariza como ela tão bem sabe fazer nos pormenores mais triviais.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011


A Poetria continua a surpreender, iniciando o novo ano com um novo ciclo de sessões de poesia num novo espaço portuense que, só por si, é um poema: "No feminino com", na Pç. Carlos Alberto, nº 89 - Porto.

Natália Correia, que cantou "o amor, a liberdade, o riso, a luz, a exactidão das rosas e todas as coisas radiantes...". será convocada para "esconjurar a torpeza" que ensombra os dias e ameaça "fechar as portas da História" e do nosso futuro.

E porque "a poesia é para comer", será servido um jantar poético criado pelos talentosos chefes de cozinha do "No feminino...":
Um festim de sonho, seguido da leitura de poemas que são como "pérolas gotejando dos olhos dos amantes", é tudo o que se deseja para uma noite mágica, a roçar a perfeição.

Programa:
"No Feminino com Poesia"
Data e local: 3 de Fevereiro 2011. No feminino com, Pç. Carlos Alberto, 89 - Porto:

20h - Jantar poético. Menu:
Entradas de prazer;
Porco ibérico com suspiros de mel e pimentão à Luiz de Camões;
Sobremesa - Deleite de chocolate pessoano com gelado de baunilha contemporâneo.
Preço: 15,00 €

22h - "A poesia é para comer" - leitura de poemas de Natália Correia com apresentação da vida e obra da autora, por: Celeste Pereira, Ana Afonso e Ana Catarina Marques;
- audição do poema "A defesa do poeta" pela voz de Natália Correia e projecção de imagens.

Aconselha-se e aceitam-se desde já reservas de mesa ou de lugar. Contacto: 968707303


E agora já deu para perceber o post anterior? É para aguçar o apetite. Bom, não teremos a voz da diva, mas faremos o nosso melhor para colmatar essa falta.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Último Acto em Lisboa” de Robert Wilson

Há já alguns anos que li “O Cego de Sevilha”, do mesmo autor o qual me deixou uma excelente impressão. Sou apreciadora de romance policial mas não suporto o mesmo mal escrito e descuidado por muito interessante que possa ser o enredo.

Pois não é o caso deste.

Mais do que um policial com um enredo muito trabalhado e cuidado, é também uma lição de História contada de modo ligeiro mas preciso.

O livro está escrito a dois tempos que desenvolvem acções aparentemente isoladas uma da outra.

Uma inicia-se em 1940, ainda em Berlim, onde se prepara uma forma de explorar o volfrâmio português, das Beiras, uma vez que estando iminente um ataque à Rússia, até ali a principal fornecedora do precioso metal, era necessário encontrar alternativas.

A outra inicia-se com o aparecimento do corpo de uma adolescente, Catarina Oliveira, numa praia, nos anos de 199… É o início de uma investigação que é entregue a Zé Coelho inspector da Judiciária.

De início ambas as histórias se vão desenrolando sem se perceber de que modo se irão entrosar.

À medida que se vai evoluindo na leitura vamos, surpreendentemente, talvez, atendendo a que estamos a ler um livro policial, tendo uma noção de como os alemães se apoderaram de uma parte significativa da exploração do nosso volfrâmio, de como Salazar “geriu” as relações internacionais durante este período da 2ª Guerra, da vinda de ouro alemão para Portugal, proveniente do saque aos judeus, dos métodos da PIDE, de Caxias, enfim, um longo périplo por um período histórico rico em perversão.

Por outro lado vamos acompanhando as diligências do inspector Coelho tentando destrinçar uma trama que se vai adensando cada vez mais até que, inexplicavelmente, lhe são levantadas barreiras a ele próprio.

Bem, não vou contar o livro, claro. É interessante é lê-lo.

Apenas remato dizendo que está escrito com perícia e literariamente muito cuidado. É de mestre a forma como, apenas no fim, se encaixam todas as personagens (e são muitas) e todas as situações como se de um puzzle de muitas peças se tratasse.

A ler, sem dúvida estas 522 páginas empolgantes.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Pesadelo

"Metais" de Nadir Afonso

De pés bem assentes no lajedo de granito abraço o frio que galga em ondas que se fundem com o outro, o gelo que é meu, que uso escondido sob finas aparências de sorrisos quentes.

Fecho os olhos mas invadem-me mesmo assim imagens absurdas de uma concha granítica retocada de cores em tons pastel com pitadas de dourado, monstruosas velas de imitação, um esquife, flores… e eu.

Procuro alhear-me. Porém, as notas dissonantes de vozes femininas que chocam contra os granitos, os tons pastel, o ouro, as velas de imitação, o esquife, eu… e se elevam em cânticos estranhos que mais parecem vagidos de recém-nascidos, assombram-me. Assustam-me.

E os cheiros, velhos, rançosos, invadem-me o nariz e prendem-se à garganta estendendo gavinhas que me avassalam, me agoniam, me sufocam.

Agonizo lentamente na angústia, no assombro, no absurdo do que não vejo, não ouço, não sinto e não cheiro até ser surpreendida por uma ilusão de calor e humidade numa mão. Sonho, é certo.

Bem devagar abro os olhos e olho. Um pequeno cão, velho como tudo à sua volta, sem tons pastel nem dourados, nem velas falsas, pousado também no granito, lambe-me os dedos e fita-me com os seus olhos velhos.

Ficámos assim. Acordámos ambos do nosso pesadelo.

domingo, 16 de janeiro de 2011

“Quando tudo se desmorona” de Chinua Achebe

Mais um livro dos que pertenciam à lista dos recomendados por Valter Hugo Mãe e, mais uma vez, uma boa aposta de leitura.

Por isso presumo que, mesmo não tendo oportunidade de assistir às sessões do clube de leitores, irei fazer por ir lendo os livros recomendados para essas sessões.

Este, um livro escrito já em 1958, trata-se de um romance interessante mas é, sobretudo, um documento histórico e sociológico de indubitável valor.

Passado numa aldeia do povo Ibo, na Nigéria, nos finais do século XIX, inícios do XX, tem como protagonista Okonkwo um bravo guerreiro, próspero, aspirante a títulos de bravura, orgulhoso de si, da sua família, dos seus feitos, mas também do seu clã e do seu povo.

Este povo aguerrido, fiel aos seus costumes, respeitador dos seus deuses, dos seus antepassados, dos seus mitos, vivia uma vida apelidada de primitiva pelos colonos ingleses que surgiram para os evangelizar.

Contudo, este conjunto de clãs, organizados em aldeias hierarquizadas, evidenciava à época uma evoluidíssima organização social.

Com a chegada dos missionários deu-se início a uma mudança com a qual seria suposto acabar com os costumes “bárbaros”, alheios à vontade de Deus, mas deu-se início também (sobretudo) a uma época de torturas cujas razões estes povos não entendiam nem nunca haviam conhecido.

Com esta “pacificação”, tudo se desmoronou….

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

As palavras não matam


As palavras não matam!

As palavras…

não matam?…

Não!

As palavras matam!

Matam a saudade quando demoradas.

Aquietam o anseio quando sussurradas,

Aniquilam silêncios cúmplices quando vãs.

Destroem amizades quando levianas.

Apagam o amor quando inflamadas.

Sim!

Há palavras que matam!

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

“A Espuma dos Dias” de Boris Vian

Li ontem um dos livros que me provocou um maior leque de emoções num tão curto espaço de tempo de leitura.

Quando o comecei, estranhei-o.

Fui confrontada com uma escrita inteiramente metafórica, rica em non-sense, em ironia, em crítica cáustica, em sarcasmo mas também eivada de um humor ingénuo que, no meu ponto de vista, apesar do dramatismo da história, ajuda a dar corpo ao romance.

Aqui, a ordem do universo era inteiramente diferente. Imperavam as leis da causalidade. Seres vivos e seres inanimados interagiam. Os objectos reagiam aos estados de ânimo dos personagens. Para mim, leitora, eram o melhor barómetro do drama que se ia desenrolando… Um mundo encantado e de encantos.

Como disse, estranhei-o. Depois, como profere essa velha frase mais do que batida, entranhou-se. E fê-lo de tal forma que não o consegui largar antes de lhe ler o fim.

Um livro belíssimo.De leitura ligeira, leve como uma melodia simples. Uma das mais belas histórias de amor que li.

Será que existe amor em excesso?

Será que nos converte em espuma de nós?

Tive a sorte, julgo eu, de o ler numa tradução muito cuidada, cheia de notas de rodapé, que nos permite não perder a riqueza dos trocadilhos de linguagem a que o autor faz constante recurso.

Foi um presente de Natal e, seguramente, um daqueles que nunca esquecerei.

A ler.

domingo, 9 de janeiro de 2011

“A Tia Júlia e o Escrevedor” de Mário Vargas LLosa

Penso que o livro é autobiográfico na sua linha principal de enredo. Varguitas umas vezes, Marito, outras, será Mário Vargas Llosa, estudante e já escrevedor. A tia Júlia será (?) a sua primeira mulher Júlia Llanes.

Mas, quer seja quer não, trata-se de uma belíssima história de amor entre um jovem estudante, sem uma vida ainda definida e uma mulher madura, divorciada e sua tia, se bem que apenas por afinidade. Desta espera-se o bom senso de arranjar um novo marido conveniente…

Contudo as coisas não correm bem assim e vai-se desenrolando um difícil romance entre os dois. Porém, à medida que vamos acompanhando o alvor desses amores, vamos sendo confrontados com capítulos de histórias que vão cruzando esta e que não parecem ter a ver com nada.

Vem-se a entender que, esses capítulos, com esses personagens aparentemente outsiders, são capítulos das várias rádio novelas que um dos personagens tão bem escreve.

À medida que se vão adensando os amores de Varguitas e Julita, vão-se também enredando as outras histórias tornando-se a dada altura tão misturadas e tão complexas que é já muito difícil saber quem é quem, mesmo para o autor…

O romance segue o seu curso e as novelas têm todas desfechos fenomenais de tão rocambolescos.

Esta forma de organizar a prosa associada a uma linguagem colorida se bem que simples torna o livro extremamente apelativo.

A ler.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Concerto para violino e orquestra

Piotr Iliych Tchaikovsky

Levada pelos doces gemidos do violino,

solto a alma,

perco-me de mim.

Derivo, solta e delicada, por entre trilhos esquecidos

até que sou arrebatada pelas marés vivas da orquestra.

Abraça-me um arroubo de sons inebriantes.

E reinvento caminhos.

Toco a imponderabilidade.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Delírio


(Imagem daqui)

Estou em delírio!
Agito os braços quietos num frenesi
-metafórico-
e sacudo as pernas suspensas na cadeira
enquanto esfrego os apensos pés um no outro
- não tão metaforicamente - confesso.
Que inquietude!
Caí sem pára-quedas numa sala familiar que mal reconheço,
semeada de gente que não quero conhecer
mas que insiste em derramar, sem qualquer temperança,
cargas de sabedoria que não procuro,
embrulhadas em discursos palavrosos que não entendo.
Esses, os eruditos,
soçobram sob o peso de livros, cadernos, folhas amarrotadas e sujas
que alardeiam a cultura maior, a sapiência no seu expoente máximo.
E eu, DISTANTE. distante. distante.
Fujo, em delírio.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Sob o salgueiro


(Fotografia de Mestre Eduardo Teixeira Pinto - "Outono")

Sob o salgueiro de ramos despidos
pingando em desalentos sobre as lajes,
estende-se uma velha corda.
Tão triste…
E a roupa que dela pende,
tão triste…
tão lavada de esperança,
tão à mercê do vento e da sorte.
Nem o brilho da ardósia molhada pelas lágrimas do tempo,
nem a erva vadia, sem raça, que se intromete
numa promessa de verdes pálidos,
nem o cinza azulado das águas do rio
que correm para a foz numa urgência de vida,
lhes aliviam a desesperança.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Imagine



Para recordar!

Completam-se hoje trinta anos do assassinato de Lennon à porta dos seu apartamento de Nova York às mãos de Mark David Chapman.

Imagine!!!!

domingo, 5 de dezembro de 2010

Ausência

(Imagem daqui)

A ausência que deveras me dói

é a que se instala no vazio de ti.

Abre brechas na pele, na carne, nas entranhas,

deixando um sulco de sal que arde em mim.