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terça-feira, 14 de agosto de 2012

Tears


Imagem: "An ocean of tears" daqui


A deep sadness came to stay and made her bed in my most insightful feelings.

And now I don’t know what to do with all these tears …

Maybe an huge ocean of my own where I’ll slowly go drown.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

"The Sense of an Ending" Julian Barnes


Acabei ontem de ler este livro e, se bem que o considere um livro bom, ficou um pouco aquém das minhas expectativas motivadas, obviamente, por críticas que a ele se referiam de forma muito abonatória.

Li-o na sua versão original (em inglês) pelo que nem sequer poderei justificar essa pequena desilusão por perdas na tradução. Pelo contrário, poderá talvez, é dar-se o caso de não conseguir apreender algumas subtilezas da língua dado que a não utilizo comummente.

É um livro reflexivo e interessante, claro. Foi “Man Booker Prize 2011”…

Contudo não foi um daqueles livros que me agarrou de uma forma apaixonada. A verdade é que também não tive vontade de o largar…

Conta-nos uma história de vidas aparentemente normais, mornas e prosaicas. Até que, com a continuação da leitura se vai percebendo que, afinal, não são nem mornas, nem prosaicas e, seguramente, nada comuns.

Todo o livro está eivado de considerações filosóficas e de reflexões de vida mas que se inserem perfeitamente no contexto narrativo, sem que apareçam como conceitos filosóficos de pacotilha, inseridos a martelo, para eruditizar a coisa.

Aliás, creio ser exactamente a pertinência destes que faz com que o livro não seja uma história mais ou menos vulgar (em termos de enredo literário) contada de forma assaz ”soft”.

Temos Tony Webster, o narrador, que, agora em plena meia-idade, nos começa a contar a sua história e dos seus três amigos mais chegados, em plenos anos 60 quando eram um grupo de adolescentes.

Estamos na primeira de duas partes que constituem o livro. Dos outros dois amigos quase não reza a história, são quase totalmente irrelevantes, meros adereços, mas com Adrian Finn tudo é diferente.

Adrian é aquele amigo que se destaca por uma miríade de razões. Todos tivemos ou conhecemos alguém assim; alguém que todos disputávamos para “melhor amigo” e que nos custava ter de partilhar. Era mais, sério, mais inteligente, mais à vontade na exposição das suas ideias perante professores e colegas, aquele cujas reflexões e conclusões eram admiradas e, enfim, incontestadas. Era também o que parecia ter mais certezas e, além disso, um aluno exemplar.

Contudo era um grupo de adolescentes comuns, sedentos de vida, de sonhos, de sexo, de fantasia.

Chega a altura de irem para a faculdade e, enquanto Anthony a frequenta em Bristol, Adrian vai para Cambridge e vai-se, paulatinamente, perdendo o contacto que todos haviam jurado manter para o resto das suas vidas.

Tony mantém uma relação com Verónica até ao final do seu tempo de faculdade. Não dá certo e dá-se a ruptura. Acontecem alguns episódios insólitos nesta relação, mas sem grande interesse (pelo menos em aparência).

Entretanto é informado por Adrian que é agora ele quem mantém uma ligação com Verónica. Responde a Adrian sem dar muita importância ao assunto e, tempos mais tarde recebe a notícia do suicídio do seu amigo.

Estranha-o, reflecte muito em torno deste acontecimento, mas acaba a primeira parte contando, muito brevemente como se desenrolou depois a sua vida até chegar ao que é hoje; uma pessoa de meia-idade, divorciado, se bem que mantendo relações cordiais com a sua ex-mulher, com uma filha, afastado já das suas obrigações profissionais mas mantendo uma rotina de ocupações.

Como dá para perceber nada de especial, nenhuma novidade, nada que certamente não tenha acontecido a todos nós, os de meia idade (com suicídio ou sem suicídio à mistura) … Que é feito dos sonhos da adolescência? Da certeza de que íamos ser donos do Mundo?

E então entramos na segunda parte do livro em que Tony recebe uma comunicação de uma advogada que o informa que é o herdeiro da recém-falecida mãe de Verónica. Essa herança consiste numa importância em dinheiro e no diário de… Adrian.

É então a partir daqui que, no meu ponto de vista, o livro começa verdadeiramente a ter interesse. É a partir daqui que Anthony vai pôr em causa a “exactidão” das suas memórias. É aqui que elas são colocadas numa outra perspectiva, a do futuro. É aqui que já não sabe o que realmente se passou e o que a sua memória seleccionou para manter. É aqui que se surpreende…

Foi aqui que, também eu, fiquei com algum receio de reperspectivar as minhas memórias…

A ler.

domingo, 12 de agosto de 2012

O Meu Poema

Aguarela da série "Mascaras" de Miguel Ministro

Por vezes as palavras demoram a acordar.

Depois, surgem sem chama, inócuas, desnecessárias.

Negam-se a fazer sentido.

Não me lêem. Não me adivinho nelas.

Preciso de as iludir, de as rasgar, de lhes arrancar as máscaras,

de lhes soprar os fumos, as névoas, o que nelas é breve.

De as soltar dos silêncios aparentemente anódinos

e obrigá-las a estar aqui sem limite, audazes, maliciosas, incendiadas

e então, só assim, poderá nascer o meu poema.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

"O Rastro do Jaguar" de Murilo de Carvalho


Um livro que há já uns tempos tinha intenção de ler.

Foi prémio Leya 2008 o que, à partida, lhe confere algum interesse.

Acabei por lê-lo emprestado e, por isso, teve prioridade em relação a uma extensa pilha que se vai acumulando à minha volta.

Foi-me emprestado como sendo um livro extraordinário daí a sua leitura imediata.

Pois bem. Eu não o catalogaria no rol daqueles livros que considero verdadeiramente extraordinários mas é, sem dúvida, um bom livro.

Estamos em Congonhas do Campo algures em Minas Gerais no virar do século XIX. Aí, o nosso narrador, Pereira, contemplando as estátuas dos “profetas” esculpidas em pedra sabão, no adro da igreja pelo “Aleijadinho” (António Francisco Lisboa), e saudoso da sua amada Francisca, propõe-se narrar a vida de seu amigo Pierre, dele próprio e de algumas pessoas cujas vidas tocaram ou que vieram a fazer parte deste riquíssimo percurso que foram as existências de ambos.

E aí vamos sendo transportados desde Paris onde ambos eram elementos do exército até ao Brasil (depois Argentina, Paraguai…) onde aportamos exactamente num período histórico conturbado em que se desenrola uma guerra contra o Paraguai (guerra da “Tríplice Aliança” uma vez que se haviam aliado a Argentina, o Uruguai e o Brasil para combater o Paraguai que tinha invadido a província brasileira do “Mato Grosso”).

É um livro baseado em factos reais, muito bem documentado e que nos conta bastante pormenorizadamente o já referido conflito e nós dá, em imagens muito vívidas, conhecimento dos momentos duros de uma guerra que foi, em muitos momentos, sangrenta, desumana até ao limite do concebível. Menciono, por exemplo, no final, o massacre das crianças-soldados…

Mas, quanto a mim, esta não será a perspectiva mais importante do livro. Pelo menos não foi aquela que mais me impressionou, se bem que tenha apreciado saber mais acerca deste momento histórico. No meu ponto de vista o que aqui ressalta é a situação dos povos autóctones da região; a perda inexorável dos seus espaços, das suas raízes e, consequentemente, da sua identidade enquanto povos. Alguns deles preferindo o extermínio à aculturação.

É o caso dos Aimoré (Botocudos) que vamos seguindo, com Pierre tentando encontrar o povo de Firmiano que havia sido levado daquela zona, anos antes, por Saint’ Hilaire, mas também buscando as suas origens, a sua identidade.

Essas vão ser mais tarde encontradas junto do povo Guarani com quem Pierre se identifica e vem a ser por ele considerado um dos “adornados”, o mais importante profeta, aquele que o povo aguardava, tal como profetizara Ñamandu, o seu deus, para os conduzir em glória `à”Terra Sem Males”: o Jaguar

Pereira vai-nos narrando todo este passado recorrendo à sua memória, é certo, mas sobretudo a cartas e documentos escritos por Pierre, por Firmiano e por ele, dado que passou todo esse tempo como repórter de guerra a soldo do “Le Figaro”.

Ao mesmo tempo vai-nos deixando momentos de um presente nostálgico, ora contemplando os seus profetas, ora abraçando o “fantasma” da sua adorada Francisca. Presente que o leva a reencontros com personagens como Mateus e Benedito.

Presente que o vai levar a protagonizar, a ele próprio, uma demanda improvável.

De realçar a importância que aqui toma a alusão à peça de Wagner “Tanhauser Ouverture” que Pierre adorava, que tocou na Ópera de Paris e que, para mim, funciona quase como uma metáfora em relação à sua vida.

Um livro muito bom, sem dúvida, muito preciso, precioso no que concerne a documento histórico, bem escrito, numa linguagem fluida e agradável.

A ler, sem dúvida.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

A Borboleta

Borboleta castanha

Era uma vez uma borboleta.

Era uma borboleta feia. Daquelas sem cor, de asas curtas e grossas e corpo pesado.

Ainda assim uma borboleta.

E porque quando dizemos “borboleta” nos lembra poesia,

tal como flor, estrela, luar, silêncio,

decidi pegar nela e enfeitar um poema.

Mas a borboleta era feia.

As asas eram feias. O corpo era grosso e pesado.

E girava desengonçadamente pela minha cozinha.

Mesmo assim custava-me desistir dela

e então

quis colocá-la aqui e compor um poema feio.

Estava prestes a fazê-lo quando o Envie, o meu gato vermelho, saltou e a comeu.

Compreende-se. Ele não gosta que eu faça poemas feios…

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Viver

"The Triunph of The Death" by Pieter Bruegel The Elder


Misteriosos pensamentos estes que me assolam em dias ocos.

Assustadores porque estranhos e inesperados,

estranhos de tão assustadores no vazio opaco desses dias.

Pensamentos que se me agarram, me prendem a vontade

para, lenta e inexoravelmente, se insinuarem no mais recôndito de mim.

Afinal, viver pouco mais é que um pequeno ruído distante…

Um pequeno barulho, ao longe, feito segredo.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

"Explicação dos Pássaros" de António Lobo Antunes


E pronto. Lá terminei outro livro de António Lobo Antunes que, tal como todos os que já li, me provocou um prazer enorme.

Este, “Explicação dos Pássaros”, é já de 1981, um dos seus primeiros mas que, por qualquer razão, não havia ainda lido.

Adoro ler.
É enorme o prazer que tiro da leitura de um bom livro. E depois há o acto de ler ALA e o gozo incomensuravelmente maior que, numa grande parte das vezes, me dá lê-lo.

Será o desafio que a sua forma de escrita propicia? Será a poesia que lhe está intrínseca? Serão as personagens tão físicas, tão reais, tão consistentes que quase as podemos sentir?
Não sei. Apenas posso dizer que já lhe sinto a saudade.

Em “Explicação dos Pássaros”, somos levados a acompanhar Rui S. naqueles que irão ser os últimos quatro dias da sua vida. Quatro dias que nos levam a perceber uma existência pejada de rupturas, de perdas, de frustrações, de buscas do seu espaço social, da procura de si próprio.

Rui é alguém que sente não pertencer a lugar nenhum quer social quer familiar.
Não pertence à Lapa, casa de família onde o seu pai pontifica e o assombra (?). Não pertence ao mundo de Marília nem nunca pertenceu ao de Tucha ou mesmo ao dos filhos, distantes. Não pertence ao mundo da casa da D. Sara onde tem por vizinho, entre outros, o Sr. Esperança, “barítono de craveira internacional” que trabalhava num circo e havia sido casado com uma amestradora de rolas…
Enfim, alguém que não tem lugar, nem mesmo (sobretudo) em si próprio.

Rui tem uma grande obsessão pelos pássaros, pela sua explicação… Talvez seja o resultado do único momento em que se sentiu bem no seu espaço, que se sentiu parte integrante de algo; quando em miúdo, na quinta onde passavam as férias e onde ainda eram uma família feliz, sentado nos joelhos do pai, lhe havia pedido para lhe explicar os pássaros.
Verdade? Fantasia? Necessidade de em algum tempo em algum lugar ser ele mesmo? A verdade é que este momento é evocado recorrentemente ao longo da narrativa.

Rui era professor de História, não porque fosse esse o seu “lugar”, mas apenas porque não tinha (não queria ter) espaço no que eram os negócios do pai.


E assim, presos a um estilo a que ALA já nos habituou (e que noutros livros posteriores tem levado a limites aqui ainda insuspeitados), fragmentando e entrelaçando tempos, personagens, acções e reflexões que por sua vez se vão entrosando num universo de metáforas, num mundo por vezes até irreal, onírico, vamos repensando toda uma vida enquanto viajamos com Rui e Marília para Aveiro, em vez de para Tomar, e com eles contemplamos, em silêncio, as águas oleosas da ria e, sobretudo, as gaivotas que a sobrevoam.

Aí assistiremos às últimas rupturas.
A que advém do próprio facto de desistir do congresso a que deveria ir em Tomar, a que acontece com Marília, e a consciencialização da sua vida que o leva a não ter outra saída que não a ruptura com ela própria.


Há uma metáfora particularmente importante que atravessa toda a narrativa: o circo. O circo que, a meu ver, simboliza a crueza da vida, as concessões que nela fazemos, a crueldade, tudo o que é deprimente e não o circo maravilhoso das luzes. Efectivamente é tudo aquilo que se esconde por detrás delas, o que é amargo, deprimente.
O circo que vai ganhando importância à medida que nos vamos aproximando do final. O local em que o protagonista é personagem e espectador atento e, às vezes, até surpreendido. O circo onde se cruzam todas as vozes, de forma quase feérica no final, e nos são dados a conhecer os múltiplos pontos de vista acerca de tudo o que foi acontecendo em torno de Rui.

Enfim, uma narrativa extremamente rica que me deixou, uma vez mais, de água na boca.
A não perder.

domingo, 29 de julho de 2012

As palavras


Imagem daqui
Procuro no rumor das ondas palavras que me expliquem.
Encontro apenas o frio oleoso das algas
e o movimento translúcido das águas revoltas e salgadas,
desabitadas de sonhos, novos ou velhos,
ocas de ilusões, esvaziadas da fantasia.
Procuro no rumor das ondas palavras que me decifrem,
as extensas listas de palavras que devem existir para que me entenda…
E tudo o que ouço é um imenso fragor feito de silêncios.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Vazio


"Fotografia sem título" de César Augusto Romão


Hoje vou fechar os olhos
e esperar que o rosto das palavras
me preencha este vazio imenso.
Sobrarão apenas as memórias
suspiradas pelo silêncio. 


domingo, 15 de julho de 2012

Depois


"Shadows on sea" Claude Monet

Hoje apeteceu-me ir à praia e despentear as ondas.
Olhá-las, senti-las, e dançar longos silêncios.
Depois, incendiá-los em movimentos suados
e rasgá-los ali mesmo. Naquele exacto lá,
onde já nada sobra para o arrepio de imaginar que para nós,
o depois, pode não ser já o sempre.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

“O Prisioneiro do Céu” de Carlos Ruiz Zafón



Claro que estava curiosíssima acerca deste novo livro de Zafón que me permitiria revisitar o “cemitério dos livros esquecidos” bem como personagens maravilhosas que conheci pela primeira vez em “A Sombra do Vento”.
Estava tão curiosa e tão ansiosa que nem esperei pela edição portuguesa. Li-o mesmo em castelhano que, diga-se de passagem, me dá menos trabalho do que ler traduções que obedecem ao AO (pelo menos para já, será uma questão de hábito, espero).
Pois bem, considero que li mais um excelente livro escrito por um autor de eleição.
Contudo desviou-se um pouco daquilo que eu estava à espera.
Não pretendo com isto dizer que tenha gostado menos do livro pelo facto de estar escrito num registo visivelmente diferente dos dois anteriores que compõem, para já, esta trilogia.
Neste romance Zafón forçou muito menos a parte emotiva. Ao leitor é dada a possibilidade de esmorecer um pouco a tensão com que encara a leitura. Por outro lado é menos evidente o pendor gótico que tem caracterizado os outros livros do autor. É muito visível quer nas simbologias utilizadas quer até na verosimilhança do que escreve.
É um livro em que o presente se reveste de uma importância menor do que aquilo que nos é contado pelo fabuloso personagem Fermin Romero de Torres e que diz respeito à sua vivência na prisão no “castillo de Montjuic” antes de surgir como mendigo em Barcelona. É essa narrativa que nos prende e que nos leva a compreender melhor alguns aspectos um pouco mais obscuros quer de “A Sombra do Vento” quer (e sobretudo) de “O Jogo do Anjo”.
O presente, contudo, creio que será um importante factor para a continuação desta saga. Tudo está em aberto. As personagens ainda mexem…  Além disso, este presente ligeiro, até bem-humorado, é a “almofada” que atenua o exagero emotivo, o tal pormenor literário que dá algum descanso ao leitor.
Pode-se pensar que, pelo facto de os três livros que refiro estarem interligados pelos seus personagens, pelas suas vidas, pela enorme influência dos livros, por vezes estranha, pelo “cemitério dos livros esquecidos”, só farão sentido lidos na sequência certa.
 Ou que não se entendem lidos em separado.
Nada disso.
Se bem que haja esse entrosamento de vidas e essa continuidade (e até pormenores que só se vêm a descobrir mais tarde) e que para todos haja um leit motiv “o cemitério dos livros esquecidos”, cada um é um romance por si só. Contém uma unidade narrativa com todo o sentido. Podem ser lidos pela ordem que muito bem entendermos pois estamos sempre a ler muito boa literatura plasmada em interessantíssimos romances.
Não sei o que esperar do próximo… A verdade é que noto neste um ponto de viragem. Será para valer???
Mais um que recomendo.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Não


Julguei que a tinha lá ao pé.
Ou então, presa nos lábios
em precária suspensão.
Cuidei que a tocava até,
sem pudor, sem incerteza,
instintiva ali à mão:
a palavra, the word, le mot…
Julguei que estava decidida.
Mas afinal… ainda não…

terça-feira, 26 de junho de 2012

"Uma Mentira Mil Vezes Repetida" de Manuel Jorge Marmelo



- “Já lhe falei da história do homem-zebra?
Quer ouvir? Conto-lha tal como Marcos Sacatepequez a escreveu.”

Assim começa, desta forma prontamente cativante, o último livro de Manuel Jorge Marmelo lançado no início do último mês de Outubro pela Quetzal.
E é assim que os companheiros de autocarro do nosso contador da história vão conhecendo e entrando, com os personagens, nas muitas histórias que por aqui se vão desdobrando.
O criador de algumas destas é Óscar Schidinski, escritor húngaro, judeu, autor do livro “A Cidade Conquistada” com que o nosso narrador se passeia ostensivamente pelos transportes públicos da cidade do Porto.
 Apenas um senão, o livro é falso e o autor uma invenção deste outro, do nosso narrador. Se é verdade que existe o objecto/livro, devidamente montado com um milhar e qualquer coisa de páginas, bem encadernado e vistoso, é também verdade que este não passa de um molho de páginas copiadas de trabalhos diversos de outros autores, organizadas aleatoriamente sem qualquer tipo de continuidade. E o autor, Schidinski, não passa de uma personagem que o nosso narrador vai compondo ao sabor da sua vontade bem como da necessidade de alguma coerência por respeito para com os seus companheiros/ouvintes de viagem.

É o primeiro livro que leio de Manuel Jorge Marmelo e confesso que fiquei absolutamente rendida.
Encontrei um romance que desafia a estrutura do romance tradicional o qual, como sabemos, reclama a existência de uma história como suporte, uma história pré-definida. Em “Uma Mentira Mil Vezes Repetida” o enredo é a construção do próprio romance. Este surge perante os nossos olhos sem qualquer pré-concepção (pelo menos aparente).
No meu ponto de vista deparei-me com um texto auto-reflexivo brilhante. Um texto que ironiza a sua própria condição de texto escrito numa linguagem literariamente muito cuidada, se bem que descomplicada .

Bom, voltemos ao que interessa, o livro. Temos um narrador que, com o intuito de escapar a uma vida de anonimato inventa um livro porque inventá-lo é, para ele, muito melhor do que escrevê-lo. Inventa um escritor e um universo de histórias passadas um pouco por todo o mundo que vai contando aos seus companheiros de jornada. Mais atentos uns, mais alheios outros, em todos julga o nosso narrador deixar a semente do inesquecimento.
Assim vamos partilhando o autocarro com ele e com Marcos Sacatepequez, escritor de Belize cujo corpo, após a sua morte, acaba por ficar insepulto e à deriva por esses mares; com o homem-zebra produto do imaginário literário do personagem anterior; com Albrecht marinheiro amaldiçoado para sempre por se ter cruzado com o cadáver de Marcos; com o carteiro de Granada que troca a correspondência toda; com Yvan Hache pintor expressionista com uma mania incomum; com Afonso Cão; com Cassiano Consciência; com Oscar Schidinski, escritor húngaro, judeu, autor do livro “A Cida…

Enfim, como podemos imaginar um nunca acabar de histórias que se entrelaçam umas nas outras ao sabor da vontade do nosso narrador até que a vontade se consome e a história se solta e se prende a uns olhos rasgados como os de uma mulher persa…
Não menos interessantes e, consequentemente, inultrapassáveis são as reflexões do nosso narrador que fazem a ponte entre a divagação literária e o real; entre o que pode ou não ser invenção e aquilo que nunca o é, as nossas vivências, os nossos anseios, os paradoxos do nosso quotidiano.

Mais um livro a não perder, mais um jovem valor que se confirma no panorama literário nacional.

Também publicada na Revista-Me # 5

domingo, 17 de junho de 2012



Willie G. "aguarela"
Quase

Eu estava quase triste.
o barulho que as palavras causavam
ao embaterem, mudas, em meus lábios
provocavam aquele quase incêndio de silêncio,
aquela quase agonia.

Eu estava quase triste.
Contudo forçava um sorriso quase gordo
que criava aquele quase fogo de solidão,
aquela quase ilusão desfeita em fumo.

Eu estava quase triste.
Quase eu…

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Em louvor das crianças



Pintura com cotonete (feita por crianças) 

Se há na terra um reino que nos seja familiar e ao mesmo tempo estranho, fechado nos seus limites e simultaneamente sem fronteiras, esse reino é o da infância. A esse país inocente, donde se é expulso sempre demasiado cedo, apenas se regressa em momentos privilegiados — a tais regressos se chama, às vezes, poesia. Essa espécie de terra mítica é habitada por seres de uma tão grande formosura que os anjos tiveram neles o seu modelo, e foi às crianças, como todos sabem pelos evangelhos, que foi prometido o Paraíso. 
A sedução das crianças provém, antes de mais, da sua proximidade com os animais — a sua relação com o mundo não é a da utilidade, mas a do prazer. Elas não conhecem ainda os dois grandes inimigos da alma, que são, como disse Saint-Exupéry, o dinheiro e a vaidade. Estas frágeis criaturas, as únicas desde a origem destinadas à imortalidade, são também as mais vulneráveis — elas têm o peito aberto às maravilhas do mundo, mas estão sem defesa para a bestialidade humana que, apesar de tanta tecnologia de ponta, não diminui nem se extingue. 
O sofrimento de uma criança é de uma ordem tão monstruosa que, frequentemente, é usado como argumento para a negação da bondade divina. Não, não há salvação para quem faça sofrer uma criança, que isto se grave indelevelmente nos vossos espíritos. O simples facto de consentirmos que milhões e milhões de crianças padeçam fome, e reguem com as suas lágrimas a terra onde terão ainda de lutar um dia pela justiça e pela liberdade, prova bem que não somos filhos de Deus. 

Eugénio de Andrade, in 'Rosto Precário'

domingo, 27 de maio de 2012

Irremediavelmente aqui


"Penumbras" de Karina Gallo

Cerro os olhos com tal força
que julgo não mais poder abri-los.
Não importa.
Importa apenas deslembrar que estou aqui.
Atordoar os cheiros que se insinuam,
os sons que não quero ouvir,
os toques que não quero sentir.
Apenas me quero aceitar só.
Só e longe…
As imagens, porém,
nascem vívidas, feias, cruas, na tela das pálpebras,
sem que uma sombra,
ou mesmo uma penumbra me engane delas.
E afinal estou aqui.
Irremediavelmente, inexoravelmente aqui.
E lavro diligentemente todos os segundos
de um tempo que não quero meu.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Adoro reticências


"Apolliny" Bosques da Noruega Gatil Moochieland

Adoro reticências…
Também gosto muito de gatos…
Na verdade gosto muito mais de gatos do que de reticências…
Julgo que apenas o chocolate me entusiasma mais do que as reticências e me sacia mais do que os gatos…
ou não…
os gatos preenchem-me de uma forma que o chocolate não consegue…
O chocolate sacia-me até ao enjoo…
É. Gosto de ambos.
Mas gosto muito mais dos gatos e da carícia dos seus pelos que não me enjoa…
Gosto mesmo muito de gatos…
E adoro reticências...

sábado, 19 de maio de 2012

Boicote


Deve ser por não publicar comentários de livros que vou lendo há já muito tempo que aqui o blogue me está a boicotar.
Por mais que tente não consigo tirar estas linhinhas brancas que sombreiam as frases do texto....
Também não me apetece tentar mais.
Pois que impere o sombreado a branco e não se fala mais nisso!

"Memórias de Adriano" de Marguerite Yourcenar


Nunca havia lido nada de Yourcenar o que considero, de certa forma, uma falha na minha cultura literária. Assim, a conselho de um primo decidi iniciar-me na autora com as “Memórias de Adriano”.

Pois, muito obrigada Zé Paulo pelo excelente conselho. É, na minha opinião, um daqueles livros que não devemos deixar de ler.

Já se percebeu, naturalmente, que adorei o livro.

Este romance pretende ser a biografia de Adriano, imperador dos territórios romanos entre 117 e 138 DC, contada na primeira pessoa.
Através de uma extensa carta que envia ao sucessor por ele escolhido, Marco Aurélio, Adriano vai fazendo desfilar toda a sua vida; as suas façanhas heróicas, a sua postura perante as lides da governação, as suas viagens, o seu gosto pelo mundo helénico, o carinho e o entendimento conseguido com Plotínia esposa de Trajano mas, sobretudo, os seus afectos.
Aliás mesmo os aspectos mais prosaicos da sua vida de imperador são aqui referidos de uma forma extraordinariamente apaixonada dando aquele vislumbre dos pressentimentos, das sensações, das impressões, das incertezas que se alojam por trás das grandes decisões que, geralmente, nos são apresentadas de forma fria, exageradamente pragmática.

Yourcenar consegue aliar de forma magistral (se calhar já o deveria saber…) o que o documento histórico e a ficção têm de melhor.
Se bem que não deixe de ser um romance com tudo o que lhe é permitido em termos de ficção de forma a torná-lo excelente sob o ponto de vista estritamente literário, não deixa de ser um testemunho histórico de rara fidelidade que nos põe a nu a vida deste príncipe que foi um dos imperadores de excelência do período do Império Romano.

Satisfaz inteiramente duas das minhas paixões:
a literatura, o prazer de ler um livro bem escrito que nos prende pelo simples prazer de o ler e
a história se tivermos em conta a forma mais humana, com já referi, de nos apresentar uma época sem, no entanto, se desviar do rigor histórico em relação ao qual Yourcenar foi extremamente exigente.

Atestam-no os cerca de trinta anos que a autora levou a decidir-se pela escrita do livro bem como a minuciosa investigação a que se dedicou durante todo esse tempo para o vir a concluir. A edição que li possui um anexo de cerca de quarenta páginas em que a autora nos explica os vários processos por que passou a escrita deste livro bem como cita todas as fontes utilizadas para o fazer. E são muitas, algumas raras e todas de grande fiabilidade.

Se o não tivesse lido, efectivamente, seria uma mulher intelectualmente mais pobre.

domingo, 13 de maio de 2012

Desabituei-me de estar aqui...



Sentada aqui no meu bar, na minha praia,
pouso o livro que não me apetece ler.
Desabituei-me de estar aqui.

Tinha quase esquecido esta beleza crua.

Pouco a pouco invadem-me os sons, os cheiros, as cores, o brilho…
de uma forma tão intensa,  tão imensa, tão viva!
Quase dolorosa.
Perturba-me o estrepitar do mar que amo.
Desassossega-me…

Escuto-o.

E, de repente, já não me importa a intensa vida de Adriano
que nunca pode ter tido a intensidade deste mar.
Desdenho a beleza das palavras de Yourcenar
que nunca serão tão belas como o voo das gaivotas,
a espuma das ondas, o cinza/verde das rochas húmidas,
os raios dourados bailando nas águas.

Desabituei-me de estar aqui.
Tinha quase esquecido de como sorver este ar salgado,
de como pisar esta areia graúda que pica nos pés,
de como sentir na pele a carícia ardente do sol.

E agora, que regressei,
sinto que esta realidade áspera que me envolve
me traz de volta à doçura dos sonhos
que há tanto tempo não sonhei…

domingo, 6 de maio de 2012

Sou Mãe



Sei o que é amar até doer.
Sei o que é sentir nas próprias vísceras a dor que não sabemos retirar a quem das nossas vísceras irrompeu.
Sei o que é sentir apenas um ligeiro sopro de perfume na alma quando a distância se interpõe.
Sei como é querer guardá-lo avaramente apesar de ele teimar em se escoar pelas lágrimas da chuva.
E sim, sei o que é amar até doer…
Sei como é não caber na própria pele quando olho um filho e, apenas por pudor, não gritar bem alto o meu orgulho.
Sei o que é não entender o enigma de gerar algo que me transcende inteiramente, infinitamente melhor, infinitamente maior, infinitamente…
Sim, sei o que é amar até doer.
Sou Mãe!


Fotografia: a minha mãe com 19 anos.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Há dias

"Mulher na areia" de Camille Claudel

Há dias em que me apetece somente ser eu.

E soltar-me de todos os abraços obnóxios, mesmo dos outros, das raízes, das gavinhas de tudo quanto me agarra,

Agarrar todas as flores, as aves, mesmo as amarelas, as borboletas, os sonhos, os poemas que quero para mim,

Chorar todas as gotas de todas as chuvas que me queimam por não terem sido ainda choradas,

Rir todos os soluços que se arrumam no peito por não terem para onde os leve o vento.

Há dias em que não sei como ser.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Apresentação do livro "Geografias Dispersas" - fnac MarShopping part 1


Uma noite bem passada, esta. À conversa com Alexandra Malheiro e lendo os seus belíssimos poemas.

Foi na Fnac no passado dia 21. Venham assim muitas.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Aconchego


E quando o teu dia se faz tão negro que empalidece a noite

Quando os finos raios de sol te gelam a alma

Quando rir te solta lágrimas

Quando as palavras se quedam adormecidas

no estrepitoso silêncio das inconsistências

Nessa apatia incólume, aí mesmo,

embrulha a dor na bruma das ausências

… e aconchega-te.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

Ocaso

Da minha janela...

Ela está sentada em frente à janela.

Alonga o olhar para as árvores que parece não ver, de tão parado. Essas mesmo que tão bem conhece, a quem acompanhou o crescer, que viu vestir e despir ao longo das tantas primaveras e de outros tantos Outonos…

Acompanhou-lhes a vida, já não lhes conhecerá o crepúsculo. Hoje, quase nuas, resplandecem sob o fogo frio de um pôr-do-sol de inverno.

Um brilho fugaz e intenso cruza aquele olhar que se ilumina para logo se apagar. Atrás de si uma lágrima, solitária e grossa, rola lentamente por entre os sulcos vincados que lhe cruzam a face.

O pôr-do-sol! Ah, esse brilho esplendoroso dos muitos ocasos que presenciou com ele. Essa luz sob a qual amou e que, sem mesmo saber porquê, lhe acordou memórias, lhe lembrou esse calor há tanto esquecido.

O olhar ainda esquecido sobre aquelas árvores inundadas de um leve fogo perde o brilho. E a gota redonda, que foi aquela lágrima, pousa docemente na sua mão.

Ela, já não a sofre…