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segunda-feira, 31 de janeiro de 2011


A Poetria continua a surpreender, iniciando o novo ano com um novo ciclo de sessões de poesia num novo espaço portuense que, só por si, é um poema: "No feminino com", na Pç. Carlos Alberto, nº 89 - Porto.

Natália Correia, que cantou "o amor, a liberdade, o riso, a luz, a exactidão das rosas e todas as coisas radiantes...". será convocada para "esconjurar a torpeza" que ensombra os dias e ameaça "fechar as portas da História" e do nosso futuro.

E porque "a poesia é para comer", será servido um jantar poético criado pelos talentosos chefes de cozinha do "No feminino...":
Um festim de sonho, seguido da leitura de poemas que são como "pérolas gotejando dos olhos dos amantes", é tudo o que se deseja para uma noite mágica, a roçar a perfeição.

Programa:
"No Feminino com Poesia"
Data e local: 3 de Fevereiro 2011. No feminino com, Pç. Carlos Alberto, 89 - Porto:

20h - Jantar poético. Menu:
Entradas de prazer;
Porco ibérico com suspiros de mel e pimentão à Luiz de Camões;
Sobremesa - Deleite de chocolate pessoano com gelado de baunilha contemporâneo.
Preço: 15,00 €

22h - "A poesia é para comer" - leitura de poemas de Natália Correia com apresentação da vida e obra da autora, por: Celeste Pereira, Ana Afonso e Ana Catarina Marques;
- audição do poema "A defesa do poeta" pela voz de Natália Correia e projecção de imagens.

Aconselha-se e aceitam-se desde já reservas de mesa ou de lugar. Contacto: 968707303


E agora já deu para perceber o post anterior? É para aguçar o apetite. Bom, não teremos a voz da diva, mas faremos o nosso melhor para colmatar essa falta.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Último Acto em Lisboa” de Robert Wilson

Há já alguns anos que li “O Cego de Sevilha”, do mesmo autor o qual me deixou uma excelente impressão. Sou apreciadora de romance policial mas não suporto o mesmo mal escrito e descuidado por muito interessante que possa ser o enredo.

Pois não é o caso deste.

Mais do que um policial com um enredo muito trabalhado e cuidado, é também uma lição de História contada de modo ligeiro mas preciso.

O livro está escrito a dois tempos que desenvolvem acções aparentemente isoladas uma da outra.

Uma inicia-se em 1940, ainda em Berlim, onde se prepara uma forma de explorar o volfrâmio português, das Beiras, uma vez que estando iminente um ataque à Rússia, até ali a principal fornecedora do precioso metal, era necessário encontrar alternativas.

A outra inicia-se com o aparecimento do corpo de uma adolescente, Catarina Oliveira, numa praia, nos anos de 199… É o início de uma investigação que é entregue a Zé Coelho inspector da Judiciária.

De início ambas as histórias se vão desenrolando sem se perceber de que modo se irão entrosar.

À medida que se vai evoluindo na leitura vamos, surpreendentemente, talvez, atendendo a que estamos a ler um livro policial, tendo uma noção de como os alemães se apoderaram de uma parte significativa da exploração do nosso volfrâmio, de como Salazar “geriu” as relações internacionais durante este período da 2ª Guerra, da vinda de ouro alemão para Portugal, proveniente do saque aos judeus, dos métodos da PIDE, de Caxias, enfim, um longo périplo por um período histórico rico em perversão.

Por outro lado vamos acompanhando as diligências do inspector Coelho tentando destrinçar uma trama que se vai adensando cada vez mais até que, inexplicavelmente, lhe são levantadas barreiras a ele próprio.

Bem, não vou contar o livro, claro. É interessante é lê-lo.

Apenas remato dizendo que está escrito com perícia e literariamente muito cuidado. É de mestre a forma como, apenas no fim, se encaixam todas as personagens (e são muitas) e todas as situações como se de um puzzle de muitas peças se tratasse.

A ler, sem dúvida estas 522 páginas empolgantes.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Pesadelo

"Metais" de Nadir Afonso

De pés bem assentes no lajedo de granito abraço o frio que galga em ondas que se fundem com o outro, o gelo que é meu, que uso escondido sob finas aparências de sorrisos quentes.

Fecho os olhos mas invadem-me mesmo assim imagens absurdas de uma concha granítica retocada de cores em tons pastel com pitadas de dourado, monstruosas velas de imitação, um esquife, flores… e eu.

Procuro alhear-me. Porém, as notas dissonantes de vozes femininas que chocam contra os granitos, os tons pastel, o ouro, as velas de imitação, o esquife, eu… e se elevam em cânticos estranhos que mais parecem vagidos de recém-nascidos, assombram-me. Assustam-me.

E os cheiros, velhos, rançosos, invadem-me o nariz e prendem-se à garganta estendendo gavinhas que me avassalam, me agoniam, me sufocam.

Agonizo lentamente na angústia, no assombro, no absurdo do que não vejo, não ouço, não sinto e não cheiro até ser surpreendida por uma ilusão de calor e humidade numa mão. Sonho, é certo.

Bem devagar abro os olhos e olho. Um pequeno cão, velho como tudo à sua volta, sem tons pastel nem dourados, nem velas falsas, pousado também no granito, lambe-me os dedos e fita-me com os seus olhos velhos.

Ficámos assim. Acordámos ambos do nosso pesadelo.

domingo, 16 de janeiro de 2011

“Quando tudo se desmorona” de Chinua Achebe

Mais um livro dos que pertenciam à lista dos recomendados por Valter Hugo Mãe e, mais uma vez, uma boa aposta de leitura.

Por isso presumo que, mesmo não tendo oportunidade de assistir às sessões do clube de leitores, irei fazer por ir lendo os livros recomendados para essas sessões.

Este, um livro escrito já em 1958, trata-se de um romance interessante mas é, sobretudo, um documento histórico e sociológico de indubitável valor.

Passado numa aldeia do povo Ibo, na Nigéria, nos finais do século XIX, inícios do XX, tem como protagonista Okonkwo um bravo guerreiro, próspero, aspirante a títulos de bravura, orgulhoso de si, da sua família, dos seus feitos, mas também do seu clã e do seu povo.

Este povo aguerrido, fiel aos seus costumes, respeitador dos seus deuses, dos seus antepassados, dos seus mitos, vivia uma vida apelidada de primitiva pelos colonos ingleses que surgiram para os evangelizar.

Contudo, este conjunto de clãs, organizados em aldeias hierarquizadas, evidenciava à época uma evoluidíssima organização social.

Com a chegada dos missionários deu-se início a uma mudança com a qual seria suposto acabar com os costumes “bárbaros”, alheios à vontade de Deus, mas deu-se início também (sobretudo) a uma época de torturas cujas razões estes povos não entendiam nem nunca haviam conhecido.

Com esta “pacificação”, tudo se desmoronou….

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

As palavras não matam


As palavras não matam!

As palavras…

não matam?…

Não!

As palavras matam!

Matam a saudade quando demoradas.

Aquietam o anseio quando sussurradas,

Aniquilam silêncios cúmplices quando vãs.

Destroem amizades quando levianas.

Apagam o amor quando inflamadas.

Sim!

Há palavras que matam!

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

“A Espuma dos Dias” de Boris Vian

Li ontem um dos livros que me provocou um maior leque de emoções num tão curto espaço de tempo de leitura.

Quando o comecei, estranhei-o.

Fui confrontada com uma escrita inteiramente metafórica, rica em non-sense, em ironia, em crítica cáustica, em sarcasmo mas também eivada de um humor ingénuo que, no meu ponto de vista, apesar do dramatismo da história, ajuda a dar corpo ao romance.

Aqui, a ordem do universo era inteiramente diferente. Imperavam as leis da causalidade. Seres vivos e seres inanimados interagiam. Os objectos reagiam aos estados de ânimo dos personagens. Para mim, leitora, eram o melhor barómetro do drama que se ia desenrolando… Um mundo encantado e de encantos.

Como disse, estranhei-o. Depois, como profere essa velha frase mais do que batida, entranhou-se. E fê-lo de tal forma que não o consegui largar antes de lhe ler o fim.

Um livro belíssimo.De leitura ligeira, leve como uma melodia simples. Uma das mais belas histórias de amor que li.

Será que existe amor em excesso?

Será que nos converte em espuma de nós?

Tive a sorte, julgo eu, de o ler numa tradução muito cuidada, cheia de notas de rodapé, que nos permite não perder a riqueza dos trocadilhos de linguagem a que o autor faz constante recurso.

Foi um presente de Natal e, seguramente, um daqueles que nunca esquecerei.

A ler.

domingo, 9 de janeiro de 2011

“A Tia Júlia e o Escrevedor” de Mário Vargas LLosa

Penso que o livro é autobiográfico na sua linha principal de enredo. Varguitas umas vezes, Marito, outras, será Mário Vargas Llosa, estudante e já escrevedor. A tia Júlia será (?) a sua primeira mulher Júlia Llanes.

Mas, quer seja quer não, trata-se de uma belíssima história de amor entre um jovem estudante, sem uma vida ainda definida e uma mulher madura, divorciada e sua tia, se bem que apenas por afinidade. Desta espera-se o bom senso de arranjar um novo marido conveniente…

Contudo as coisas não correm bem assim e vai-se desenrolando um difícil romance entre os dois. Porém, à medida que vamos acompanhando o alvor desses amores, vamos sendo confrontados com capítulos de histórias que vão cruzando esta e que não parecem ter a ver com nada.

Vem-se a entender que, esses capítulos, com esses personagens aparentemente outsiders, são capítulos das várias rádio novelas que um dos personagens tão bem escreve.

À medida que se vão adensando os amores de Varguitas e Julita, vão-se também enredando as outras histórias tornando-se a dada altura tão misturadas e tão complexas que é já muito difícil saber quem é quem, mesmo para o autor…

O romance segue o seu curso e as novelas têm todas desfechos fenomenais de tão rocambolescos.

Esta forma de organizar a prosa associada a uma linguagem colorida se bem que simples torna o livro extremamente apelativo.

A ler.

domingo, 19 de dezembro de 2010

Concerto para violino e orquestra

Piotr Iliych Tchaikovsky

Levada pelos doces gemidos do violino,

solto a alma,

perco-me de mim.

Derivo, solta e delicada, por entre trilhos esquecidos

até que sou arrebatada pelas marés vivas da orquestra.

Abraça-me um arroubo de sons inebriantes.

E reinvento caminhos.

Toco a imponderabilidade.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Delírio


(Imagem daqui)

Estou em delírio!
Agito os braços quietos num frenesi
-metafórico-
e sacudo as pernas suspensas na cadeira
enquanto esfrego os apensos pés um no outro
- não tão metaforicamente - confesso.
Que inquietude!
Caí sem pára-quedas numa sala familiar que mal reconheço,
semeada de gente que não quero conhecer
mas que insiste em derramar, sem qualquer temperança,
cargas de sabedoria que não procuro,
embrulhadas em discursos palavrosos que não entendo.
Esses, os eruditos,
soçobram sob o peso de livros, cadernos, folhas amarrotadas e sujas
que alardeiam a cultura maior, a sapiência no seu expoente máximo.
E eu, DISTANTE. distante. distante.
Fujo, em delírio.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Sob o salgueiro


(Fotografia de Mestre Eduardo Teixeira Pinto - "Outono")

Sob o salgueiro de ramos despidos
pingando em desalentos sobre as lajes,
estende-se uma velha corda.
Tão triste…
E a roupa que dela pende,
tão triste…
tão lavada de esperança,
tão à mercê do vento e da sorte.
Nem o brilho da ardósia molhada pelas lágrimas do tempo,
nem a erva vadia, sem raça, que se intromete
numa promessa de verdes pálidos,
nem o cinza azulado das águas do rio
que correm para a foz numa urgência de vida,
lhes aliviam a desesperança.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Imagine



Para recordar!

Completam-se hoje trinta anos do assassinato de Lennon à porta dos seu apartamento de Nova York às mãos de Mark David Chapman.

Imagine!!!!

domingo, 5 de dezembro de 2010

Ausência

(Imagem daqui)

A ausência que deveras me dói

é a que se instala no vazio de ti.

Abre brechas na pele, na carne, nas entranhas,

deixando um sulco de sal que arde em mim.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Não chegava


Só hoje arranjei coragem para aqui deixar este registo. A coragem que vem com a saudade...


Não chegava.

Não, não era ainda suficiente a inquietação dos dois últimos dias.

Os picos de medo, de ansiedade, o desassossego permanente.

Não chegava a agonia que sentia colada à pele ao regressar.

Não.

Afinal não chegava.


Aguardava-me algo que nem sonhara.

Aguardava-me a urgência teu olhar, Carlota.

Estranho olhar esse como se estivesses feliz mas angustiada.

Como se sentisses alívio mas te mantivesses assustada.

Como se esperasses tudo mas sem contar ter nada.

Estranho olhar esse, Carlota!


Estranho olhar esse, Carlota, que me deu logo a perceber

aquilo que, em verdade, me recusei saber.

Despedias-te de mim. Eu sabia.

Pedias-me ajuda. E eu queria.

Querias conforto. E eu não conseguia.

Consegui apenas fixar os teus olhos, Carlota,

afagar-te mimar-te, beijar-te enquanto te via rastejar,

enquanto te ouvia ronronar,

enquanto te levava, a chorar.


Estranho olhar esse, Carlota, que te vi quando te deixei.

Estou certa, Carlota, que me dizias que nunca mais te olharei…


2010-08-12

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Delicada textura de seda


(Imagem da autoria de Miguel Ministro que faz parte da ilustração do livro "Bordar a Vida")

Acordo inquieta.
Ajoujada sob o peso de culpas ignotas,
transida por medos que me calcam o peito
e transformam num acto crítico
o mero exercício de respirar.
E, à medida que abro os olhos, devagar,
e acordo para a lisa transparência da manhã,
tomo consciência de uma delicada textura de seda
que me afaga os dedos, o rosto…

E acordo,
agora já sem medos,
com as culpas banhadas pela claridade,
ainda que envergonhada,
que lhes confere indulto imediato,
feliz pelo afago doce dos meus gatos
a quem acaricio suave e lentamente enquanto sonho.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010




É já esta sexta-feira!!!!!

Se puderem, não percam. O livro é uma pequena jóia. E a apresentação será como só pode ser, excelente.

Eu terei a meu cargo as leituras.

“O Tigre Branco” de Aravind Adiga


Pois bem, mais um livro que comprei por indicação de Valter Hugo Mãe e que faz parte de uma lista de obras a debater nos encontros da Comunidade de Leitores da Biblioteca Almeida Garrett.
Se, de uma forma geral, como já disse, não sou grande apreciadora de orientações em relação ao que devo ler – gosto de escolher e decidir o que leio – a verdade é que me vou afeiçoando à ideia de não ter que pensar no assunto e ir a reboque de outros. Estou a ficar uma preguiçosa!!!!
Bem, pelo menos posso sempre responsabilizar outros se achar que foi tempo perdido.

A verdade, porém, é que isso ainda não aconteceu.
Desta vez li “O Tigre Branco” de Aravind Adiga que foi Man Booker Prize 2008. E gostei muito.

Sob a forma de carta endereçada ao primeiro ministro chinês (está tão na moda, a China…), um “empresário” indiano vivendo em Bangalor faz um relato impressionante da sua vida que mais não é que a vida de um lado da Índia que nada tem a ver com o brilho do desenvolvimento de tecnologias de ponta que é bandeira dessa cidade. Aquilo que o autor chama de “escuridão”. A Índia rural, miserável, paupérrima, das castas, da sordidez mas também a de Deli, não menos miserável, não menos sórdida, de uma classe dominante rica e profundamente corrupta e do abismo profundo que separa estas duas “Índias”.

Sob uma forma irónica por vezes aparentando ingenuidade assistimos a uma análise profundamente mordaz da sociedade indiana.
Sem grandes subterfúgios literários, escrito com aparente simplicidade, não deixa, contudo, de impressionar o leitor e de o obrigar a um exercício de reflexão acerca do que são, ainda hoje, sobretudo hoje, as profundas assimetrias sociais que grassam por todo o mundo. Provavelmente mais evidentes nuns poucos países em grande desenvolvimento(?) que correm o risco de ser as grandes potências mundiais (económica e financeiramente falando) dentro de muito pouco tempo.
Dá que pensar.

domingo, 7 de novembro de 2010

À mesa éramos tantos!


("La conspiration des chats" de Louis Wain)

À mesa éramos três.
Três e um silêncio que cobria tudo
e nos ensurdecia com a sua estridência.

À mesa éramos só três
e os pratos e os talheres e os copos e…
Éramos três mas em cada cadeira se sentia ausência.

À mesa éramos ainda três
e o cansaço, o esquecimento, a fadiga,
o tédio, o desamor, a descomunal impaciência.

À mesa éramos tantos...

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Lindo!!!


(Imagem daqui)

Epitáfio

Ya somos el olvido que seremos.
El polvo elemental que nos ignora
y que fue el rojo Adán y que es ahora
todos los hombres y los que seremos.

Ya somos en la tumba las dos fechas
del principio y el término. La caja,
la obscena corrupción y la mortaja,
los triunfos de la muerte y las endechas.

No soy el insensato que se aferra
al mágico sonido de su nombre;
pienso con esperanza en aquel hombre
que no sabrá quien fui sobre la tierra.

Bajo el indiferente azul del cielo,
esta meditación es un consuelo.

(Jorge Luís Borges)

“Livro” de José Luís Peixoto


Acabei agora mesmo de o ler (ontem).
Absolutamente delicioso. E quando digo delicioso refiro-me ao gozo que dá saborear um fruto maduro. Foi mesmo essa a sensação com que fiquei, a de me ter deliciado com algo suculento e rico.

Tenho acompanhado a obra de José Luís Peixoto, os romances e a poesia, e, honestamente, tenho gostado muito. É já, na minha opinião, um grande valor da nossa literatura.

Neste “Livro” consegui encontrar a mestria que já conhecia associada a uma subtil maturidade evidenciada na forma como José Luís Peixoto esgrime a palavra. Esta mestria está patente em todo o livro mas é mais evidente ainda na sua segunda parte. Aqui, José Luís Peixoto, num registo um pouco diferente do resto, autenticamente brinca com a forma e o tempo proporcionando-nos um trecho de uma criatividade incrível em que revela um domínio completo da prosa.

Ao caminhar de mão dada com um punhado de personagens que me são tão familiares, conheço-as todas, vou vivendo os seus amores, os seus medos, as suas frustrações, os seus êxitos, as suas necessidades… Vou crescendo e envelhecendo dentro delas e, ao mesmo tempo, sem que as sinta truncadas nas suas características próprias, ou sem que se pressinta qualquer pretensão de romance histórico, vou revivendo um período que foi também o meu, o do êxodo de tantos portugueses para outros países. Para a França, sobretudo, como tão bem aqui é retratado.
Com um denominador comum que é “O Livro” (o qual acompanha fisicamente algumas personagens ao longo dos anos e que é por si só, ao mesmo tempo personagem, objecto, autor e enredo), lá nos vemos a braços com a vontade de viver melhor, a fuga a uma guerra que não era a de ninguém, os amores contrariados, a negação do obscurantismo, a prepotência do poder, a luta, o desencaixe social sobretudo de uma segunda geração…

Enfim, revisitei a vida de tantos que eu conheci nos anos setenta, de tantos que todos conhecemos, revelada aqui de uma forma, como já disse, belíssima.

A não perder.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

“Somos o esquecimento que seremos” de Hector Abad Faciolince

Li este livro não por escolha minha mas porque era o primeiro de uma lista proposta por Valter Hugo Mãe para uma comunidade de leitores que se reúne quinzenalmente na biblioteca Almeida Garrett. Embora não seja muito apologista deste tipo de “leituras orientadas”, gosto de escolher o que leio, achei que seria interessante assistir ao debate até para entender se a minha percepção do que leio anda muito distante da da restante comunidade de leitores.
Este ciclo de leituras tem por tema “vozes universais” e, obviamente, sugere uma série de autores estrangeiros (o ciclo anterior tinha sido apenas de autores nacionais) que me pareceu interessante.

Bom, mas vamos ao que interessa. Li o livro e, sobre ele, gostaria de dizer alguma coisa.
Gostei do tipo de escrita. Descomplicado, coloquial, talvez até a pender um pouco para o jornalístico (datas muito precisas, nomes, factos muito concretos…). Extremamente simples na forma de comunicar a rondar até uma certa ingenuidade, talvez.
É certo que o tema facilita essa simplicidade e essa forma naíf de colocar as questões. É um livro autobiográfico que expõe de uma forma muito pungente e muito aprofundada a relação “exageradamente” estreita que o autor manteve com o pai e este com o filho.
É comovente (quase a tombar para o piegas) apreciar a estreiteza dessa ligação pai/filho mas, sobretudo, apreciar a imagem que o filho faz perpassar do pai: o homem de boa figura, médico, professor, com uma postura perante a vida, perante os outros, que o distingue. É afectuoso e não receia mostrar os seus afectos, honesto, íntegro, lutador. Mas também sem um pingo de sentido prático e um pouco machista na sua forma peculiar de o ser.

Esta, julgo eu, é a mensagem que o autor mais se empenhou em transmitir. A homenagem póstuma, merecidíssima, que quis prestar ao seu pai. Mas, para mim, o livro teve um valor muito maior (sem querer diminuir o efeito anterior). Introduziu-me na história próxima da Colômbia da qual pouco conhecia.
Uma história recheada de momentos negros, de lutas, de prisões políticas, de torturas, de assassinatos a soldo que eu nem sequer suspeitava.
Curiosamente, passei férias na Colômbia há cerca de quinze anos e lembro-me de ser um destino barato em relação a outros das Caraíbas. Na ocasião entendi que seria pela violência que grassava por todo o país, sobretudo em Medelin que (ingénua se bem que não completamente distraída, convenhamos)eu atribuía às lutas intestinas provocadas pelos cartéis da droga. Ora como eu não tinha nada a ver com o assunto… Percebo agora que era bem mais do que isso como se apenas isso fosse pouco.

Enfim, voltando ao livro. Gostei, sem dúvida, mas não me impressionou da mesma forma que a outros leitores segundo verifiquei no dia do encontro/debate. Não fui tocada pelo mesmo grau de emoção.
Porém considero um livro a ler e não uma perda de tempo. Será que não os considero assim a todos???

Apenas mais uma curiosidade. O título é retirado de um poema de Jorge Luís Borges (de quem gosto muito) do verso que diz “já somos o esquecimento que seremos” e se chama “Epitáfio”. Lindo!