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terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Parabéns Miguel







Que pena tenho 
de hoje me fugirem as palavras.
E também não encontro 
o seu lugar nas linhas
para as pousar.
As metáforas entardecem,
e a sintaxe embaraça-me os dedos...

É que,
se eu hoje encontrasse as palavras,
se as conseguisse pousar
de forma a fazerem sentido,
se as metáforas se acendessem,
se a precária geometria das frases
não se pintasse de contornos tão vagos
então contaria
como o mar se arredondou
em ondas gordas, quentes e maduras,
como se perfumaram os sons,
como se coloriram as vozes,
como soletrei os teus dedos um a um
em toques de ternura
como me incendiaste os futuros
num simples bater de pestanas. 
Como tudo ficou no seu lugar...
No dia em que nasceste.
Celeste Pereira
2015-08-10

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Carta à mãe

mamã (3/4 anos)
Às vezes
apetece-me tocar o sol com a ponta dos dedos.
Sentir a respiração doce da luz
e colocá-la a distância nenhuma dos sonhos.
Às vezes, tantas vezes,
apetece-me abraçar com força
a inconstância das nuvens
e colocá-las docemente nas margens da vida.
Às vezes, muitas vezes,
apetece-me parar
à distância do voo das aves
e prender bem forte o arquejo da vontade.
Às vezes, quase sempre,
apetece-me soprar o pó das lembranças,
deitar ainda a cabeça no teu colo
e esquecer o restolho dos dias.

Celeste Pereira



2015-08-06

terça-feira, 4 de agosto de 2015

"The tree Of Life" de Gustav Klimt


Mergulho cada vez mais nas minhas memórias.
Deslizo o olhar para dentro e passeio
por entre as cornucópias das lembranças boas.

Espessam-se os ocres
que me olham num través sedutor.

Na lonjura dos sonhos vividos
enrolo-me em afagos mornos,
agasalho-me com sorrisos lentos
perdidos na topografia esquiva da alma


e escuto a respiração tépida das flores.

sexta-feira, 26 de junho de 2015

Devaneio

Rosa do meu jardim


Sentada no jardim,
rodeada de luz
e de uma largura imensa de tarde de verão,
descanso no devaneio.

Sob as saias brancas da audácia
finjo percursos
e ouso provar o interior da luz.
Abafo os uivos das palavras
que chocam nos dentes
e envolvo-as na ternura tépida da saliva.

Vou criando ecos
que calam o aperto cinzento e amargo
que se arredonda no peito
e emudece a alegria.

Mordem-me as ausências.
Mesmo as que se escondem sob a gentileza das pedras,
sob a ilusão do ainda estar,
do ainda ser…

Tento limpar o sal do dia
que se acumula no rosto claro da tarde e sobra
na lágrima que se desprende do olhar.

Na diáspora das palavras
busco afectos errantes,
noites passadas,
infâncias esquecidas.

E golpeiam-me as palavras
na cadência do sangue.

Crescem as infâncias,
seguro as noites passadas,
tento assear a alegria
e agarro os afectos pela esquina do sopro.

Embrulho-me no devaneio
e, obstinadamente,
quedo-me a ouvir o eco
de todas as palavras nunca ditas.



domingo, 7 de junho de 2015

Carta a um amigo

Imagem retirada da capa do livro "Nas Ruelas da Má Fama" de de Américo Dias 


Soube agora que partiste.
Estou incrédula e vencida pela notícia.
Afinal ainda há pouco, muito pouco mesmo,
éramos tão eternos!
Lembras-te?
Éramos eternos quando nos sentávamos
em redor de um café e conversávamos.
Conversas tão intermináveis! Tão loucas!
Tínhamos tanto a dizer.
Sabíamos tantas coisas.
E, contudo, sei-o agora,
faltava-nos saber tanto…

Éramos eternos quando
buscávamos felicidades.  
E combateste vontades duras.
E conseguiste.
E foste feliz.

Éramos tão eternos
nos longos dias de Verão
quando sob o sol do teu Algarve
buscámos o calor, a aventura, a cor, o brilho, o viço,
a vida…
Lembras-te?

Éramos ainda eternos
quando nasceram os nossos filhos,
quando os contemplávamos embevecidos
numa ânsia de água fresca,
quando os eternizavas em imagens que são abraços
 quando, ainda em longas conversas,
exorcizávamos os medos,
partilhávamos os sonhos,
os grandes pequenos nadas,
as nossas eternidades.

Fomos mesmo eternos
quando tivemos que puxar com força as pontas à vida.

Ficou tanto por dizer.
Ficou tanto por viver.
E, afinal, tu és mesmo eterno…


06-06-2014

sábado, 25 de abril de 2015

Afinal


As minhas glicínias em Abril

E, mais uma vez, chegou Abril e
o cheiro das cores frescas
acabadas de nascer e
o viço de asas macias que
esvoaçam e me desarrumam
as memórias e os silêncios.
Cresce a estridência das flores que
espreitam mansinho das árvores com
brilhos de água fresca e que
eu quase não vejo de serem tantas.
Ah!
E as gaivotas.
Tantas as gaivotas.
De mais as gaivotas.
Já não trazem tanto mar no coração e
o vento nas asas endureceu e
agora comem as pombas nos Aliados…
Mas é Abril
inevitavelmente Abril
e também inevitavelmente
a saudade escorrega devagar
pela lembrança de outros dias, de
outras gaivotas de esperança, de
cravos com muita gente
a dizer vontades, de
olhos rasos de brilho de
nós a sermos nós
livres
felizes para sempre.

Afinal é só Abril que
mais uma vez

chega.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Envelheço com as horas


Em dias assim
em que não sei o que te dizer,
estendo as mãos.
E no vento que delas se desprende
procuro palavras em estado translúcido.
Mergulho em rios que não são rios
e busco intensamente metáforas
que também não são metáforas…
procuro nas raízes das pedras uma silhueta,
uma penumbra,
o brilho de uma cor com que esboce a palavra
que não será palavra…
De olhos fechados mudo a direcção do silêncio.
Procuro ouvir para lá das vozes
que acordam o fundo das páginas.
Agito as mãos.
Acordo o gato

e envelheço com as horas.

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Natais passados (Chaves)

Presépio da Tia Elsa

Rendo-me à reverberação dos dias felizes
e reúno devagarinho lembranças quentes e muitas, e muito boas,
das que deixam um rasto doce de uma saudade morna:

Os natais da minha infância.

E lembro os pais que brilhavam muito
e riam muito e se vestiam de sons vibrantes e doces.
Os irmãos pequeninos, tão pequeninos,
tão precisados de mim!
Os avós, branquinhos, enrugados e felizes
e eu tão precisada deles.
Os tios muito novos e grandes e vivos,
de gargalhadas vermelhas, fortes, excitantes,
quase assustadoras.
E o frio, o cheiro a resina, o pinheiro,
as bolinhas, os anjinhos, as fitas douradas,
a casa enorme,
tudo enorme, tudo mágico.
Os fogões grandes e muito quentes,
o sapatinho, a chaminé, o borralho,
os gatos no borralho, a candura…
E as rabanadas! Tão boas as rabanadas!
A mesa grande e cheia de cores muito doces e muito quentes.
A fava, o brinde, o chocolate quente na manhã de Natal
e as loucinhas de barro, as bonecas de papelão,
as meiinhas, os casaquinhos de tricô, os sapatos novos…
E os sonhos, tantos sonhos, um nunca acabar de sonhos.
Uma história por contar.
E um céu muito negro por onde escorregava o olhar.
E as estrelas, tantas, tantas estrelas.
Tão brilhantes! Tão lá longe!
O sabor bom do espanto…
E a pena que eu tinha, e tenho,
de um pai natal perdido naquele céu,
naquele frio, naquele tempo, naquele sonho…

no meu sortilégio.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Já aqui estive em dias mais claros

Praia do Marreco

Já aqui estive em dias mais claros.

Aqui, no meu bar, da minha praia. Olho o mar que hoje se perde num manto de nevoeiro espesso e viscoso. Lascivo, a coberto da bruma, lambe os rochedos e deixa-os cobertos de uma baba negra onde as gaivotas pousam numa geometria precisa que apenas elas sabem. Pontos brancos na névoa cinzenta. Silenciosas. Sem olhar devido à distância. Melhor. De olhar invisível.

A praia estende-se à minha frente sem brilho, sem o ouro habitual. Mais fria. Menos cúmplice. Hoje vestida de branco e vermelho de barraquinhas lembrando o verão. Mesmo assim mais bonita quando despida. Quando dourada, quando apenas areia e mar e céu e silhuetas de barcos ao fundo.   

Hoje o silêncio é mais pesado. É feito de ruídos surdos e húmidos e de gaivotas de olhar invisível que me assustam. E, apesar do vermelho das barraquinhas, as poucas palavras soam líquidas e escuras, submersas na espessura da névoa, no olhar invisível das gaivotas e perdem-se, esvaziam-se, não são mais palavras.

E eu, que já aqui estive em dias mais claros, imersa no assombro, procuro entalhar o tempo entre os finos grãos de areia e continuar imortal.


Marreco 2014-08-24