Páginas

terça-feira, 22 de março de 2016

E todavia

  Fotografia de Ana Borges (Margaretta Gomez) 

Tento escrever um poema.
Hoje é dia da poesia, dizem
e lá fora já é Primavera.
Mas as palavras
surgem cingidas e tristes
e criam novelos de um desespero nu e salgado
que se prende ao avesso das horas.
Ou surgem como pequenas limalhas finas
inconsistentes
sem enfeites
sem transgressão.

E, todavia, é Primavera, dizem

E a vadiagem dos olhos
diz-me que há flores que esbracejam
asas que sussurram
e uma luz nova talhada no assombro
que me entardece o olhar.

É Primavera, dizem

E mais uma vez
as palavras se quedam ao rés do soluço.
Flutuam no colo do tempo
acrescentando novas distâncias

e o poema é apenas penumbra.



2016-03-21

quarta-feira, 2 de março de 2016

Florir





É em dias como o de hoje
que o tempo se arredonda muito
e me sopra memórias.
O passado
caminha brando à minha frente.
Desarruma lembranças
e pinta-as de palavras leves e frescas.
Daquelas que enfeitiçam o poema
e aperfeiçoam as esquinas.

Dilui-se a lonjura dos sonhos
que se fazem realidade
com consistência de flor.

E sinto-te outra vez em mim.

E és novamente
a flor pequenina que seguro nos braços.

Estou incrédula, assustada e feliz.
E, tal como antes, cabes toda inteira em mim.

Menina e mulher.

Tu.

A flor mais doce que algum dia beijei.

Parabéns.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Lastro



Por vezes cresce-me um frio imenso
não sei bem onde nem sei bem como
que me entorpece a alma
e me acinzenta todas as cores.
Enche-me os dias de futuros viscosos
e de ruinas
que crescem num apagamento macio.
Morrem todas as certezas
e desorganizam-se as normas
num correr de dias sem razão.
Resta-me apenas esta imensa bola de frio,
esta harmonia desconexa,
esta sede desmedida,

este lastro do tempo.


2016-01-26

O Natal cá de casa


Tudo está igual no Natal cá de casa:
O pinheiro, grande, cuidado e enfeitado de gatos.
O presépio maior do que nunca: cascatas que jorram água,
moinhos que rodam velas,
fontes onde pastores bebem água, 
os três reis magos
seguindo caminho
pelos montes de musgo embranquecido de neve.
O Menino Jesus
à entrada,
de braços bem abertos, recebendo todos.
Os cheiros quentes e doces.
As panelas enormes.
O crepitar da lenha na lareira.
Os arranjos de pinheiro e azevinho.
As coroas nas portas. As luzes nas varandas.
As árvores do jardim que brilham muito.
Tudo está igual.
Mas é um igual tão diferente!
Em cada novo natal
parece instalar-se nas estrelas
um odor ocre aos natais passados que as apagam um pouco.
Talvez também elas tenham já gasto um tanto do seu fulgor.
Os lugares cá em casa vão ficando maiores,
as luzes mais opacas,
os fogos mais apagados, embora bem acesos,
e o frio cada vez mais azul e mais frio.
As paixões parecem mais acanhadas
e perderam as cores vibrantes de que vivem.
Talvez lhes sobrem memórias
e tenham dificuldade em adormecer os medos,
ou os risos não sejam os suficientes
nem brilhem como costumavam brilhar.
Talvez se tenham quebrado algumas hastes
das que seguram os sonhos.
São frágeis os sonhos, escapam-se com facilidade.
Escorrem pelas paredes
junto com os silêncios que nos segredam aos ouvidos
e nos desentendem com o mundo.
Tudo está igual no Natal cá de casa.
E eu continuo a ouvir o crepitar da lenha na lareira.
Celeste Pereira 26-12-2015