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segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

“Sangue Vermelho Em Campo De Neve” de Mons Kallentoft



Cada vez me agradam mais os policiais ou thrillers suecos.

Há já muitos anos que leio Henning Mankell e o seu incontornável inspector Kurt Wallander que, aliás, deu já origem a uma série televisiva aparentemente com muito boa qualidade.
Contudo, ultimamente, despertada talvez pelo estrondoso sucesso da trilogia Millennium de Stieg Larson, tenho experimentado outros autores que, uns mais outros menos, satisfazem o meu gosto por este género literário muitas vezes tão maltratado. E quando me refiro a maltratado tenho em conta dois aspectos. Por um lado acontece ser considerado por alguns um género literário menor quando, a meu ver, há policiais literariamente excelentes. Por outro há, de facto, muita coisa editada (como certamente de outros géneros) que dificilmente poderá merecer o nome de literatura. Alguns até têm história, outros têm personagens consistentes mas falta-lhes a qualidade da escrita. Outros ainda não têm absolutamente nada.

Mas vamos ao que aqui interessa. A verdade é que uma mão-cheia de autores nórdicos (conheço mais suecos) desenvolveu um estilo próprio de criar histórias. Muito do género do policial negro. Baseia-se em narrativas interessantes, complexas sem serem exageradamente complicadas ao ponto de se tornarem incompreensíveis ou ilógicas, bem estruturadas, com personagens comuns mas fortes, consistentes, possíveis. Além disso conseguem manter um interesse narrativo quase constante.

Foi isto que encontrei noutros autores e foi também isto que me agradou em “Sangue Vermelho Em Campo De Neve”
A inspectora Malin Fors vê-se a braços com a investigação de um crime hediondo, numa pequena comunidade de província que a vai abalar. A par das investigações e do frio intenso, e à medida que vão desfilando as personagens mais estranhas e se vão revelando os segredos mais sórdidos, vai tendo, naturalmente, que gerir a sua vida pessoal; a sua relação com a filha recém-chegada à adolescência, as recordações que mantém dos seus pais actualmente a viverem em Tenerife mas com os quais sempre teve um relacionamento pouco caloroso, o tipo de ligação que mantém com o seu ex-marido, etc, etc, etc. Enfim, uma pessoa normal.
O processo de escrita é curioso pois surgem de onde em onde pequenos trechos assim numa espécie de voz-off que ajudam não só a situar o leitor bem como conferem alguma originalidade à escrita.

Sem ser o meu autor favorito, devo dizer que gostei e estou pronta para dar oportunidade a um segundo livro.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Ano Velho/Ano Novo


Era um ano velho. Mesmo muito velho. Tão velho quanto um ano pode ser. De tão velho estava gasto, irritadiço, agressivo e à medida que ia percorrendo os seus dias, horas e minutos quase finais, já em esforço, notava-se que ia provocando nas pessoas uma relativa ambiguidade de sentires.

Por um lado era manifestamente grande a vontade de se livrarem das suas rabugices, dos esforços que exigiu, das dificuldades que impôs, das incompetências que deixou (ajudou até a) medrar, da vassalagem a que obrigou, do relativo estado de depressão generalizada que provocou nas gentes daquele tempo, daquele ano muito velho. Tão velho quanto um ano pode ser.

As pessoas estavam mesmo fartas. Amargas e fartas. Teria sido um ano de características burlescas não fora o facto de o sentido de humor de todos não ter já mais por onde esticar; era um elástico estafado.
Por outro lado era assustador o legado que esse velho, decrépito e de má memória iria deixar ao seu jovem sucessor. Estremeceriam aterrorizados os segundos iniciais do recém-nascido. E, convenhamos, que, dada a sua mocidade extrema, não tinha entendido da missa a metade.

E o tempo seria atrasado ou abreviado tal era a perplexidade inicial do novo ano. E os segundos requerem tanta precisão!!! Tudo seria imperceptível para os homens que apenas sentem o tempo das horas. Quando muito dos minutos… Os segundos são vagos. Os segundos podem ser eternos ou, então, podem apenas não ser.

E as pessoas saudaram o ano que nascia com festejos de desesperança regados pelo orvalho do espumante barato que, por segundos (aqueles que surgiram baralhados e hesitantes, como quem não quer vir), os fariam esquecer as inaptidões de um tempo novo que, afinal, não é mais do que o perpetuar ritmado, insidioso e inexorável das aflições do passado.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Relembro



Relembro todos os Natais.

Os da infância, mais ingénuos e mais frios mas também cheios de tios que vinham de longe, e avós e rabanadas e filhós, e chocolate quente, e grandes mesas cheias de sons alegres e de cheiros coloridos e doces, e de chaminés com sapatinhos, e de bonecas e loucinhas de barro ou alumínio, e de gatos no borralho da lareira, e de pinheiro cortado a cheirar a resina e de brilhos e de sonhos, muitos sonhos! Um nunca acabar de sonhos.

Os que se seguiram, menos cândidos, mais desenganados. Tempos de verdades sem tempo para sonhos, de sermos poucos, de não haver chaminé, sapatinho sim mas sem chaminé. Sem os tios, avós poucos, mais silêncios e já não bonecas nem loucinhas. Ainda os cheiros, ainda alguma cor, ainda o gato sem borralho. Os brilhos mais embaciados como que com vergonha ofuscados pelos da rua.

Mais tarde, mais velha, outros sonhos, outras esperanças, mais casas, mais pessoas, menos avós, menos tios, outros tios, menos pai… mais distância, mais cheiros, mais luzes, mais brilhos, os primos, muitos primos, mais embrulhos, mais presentes e eu talvez mais ausente, sem me querer perder, a sentir a falta das loucinhas, do cheiro a resina, do frio bom, dos gatos no borralho.

Os de hoje, sem qualquer candura, muitos brilhos, e cores, e bolas, e sinos, e presépios e musgo e eu ainda não avó. Tia-avó apenas. A mãe (ainda), eu tia, eu mãe de três, os sobrinhos, não tios… os risos, o barulho, o tinir das louças já não loucinhas, as vozes, os filmes 3D, os cheiros, os sabores, os papéis, os sacos, os gatos no sofá, a lareira. Poucos sonhos, alguns, apenas, e sem fantasia, algumas ausências sentadas a meu lado, as brisas, as sombras, a chuva arrumada nas pálpebras. O desfazer da festa, o desfazer da ilusão, as cinzas que sobram na lareira…os olhos doces de um cão…

Relembro todos os Natais...

domingo, 16 de dezembro de 2012

Lua cheia


"Starry Night" by Vincent Van Gogh

A prata da lua toma de empréstimo a noite
 e acende-me um sorriso manso
que desliza 
e se funde no veludo do teu olhar.
Sentados na areia salgada
onde o murmúrio do mar se faz orquestra,
onde o vento nos segreda odores antigos ,
perdemo-nos um no outro.
Reinventamos a transcendência do amor 

sábado, 15 de dezembro de 2012

Não É Meia Noite Quem Quer” de António Lobo Antunes



Há já tanto tempo que não escrevo uma opinião acerca de um livro que, francamente, nem sei bem por onde começar. Ainda por cima um livro de ALA… Convenhamos que não é a coisa mais simples de fazer.

Confesso que, genericamente, gosto dos livros de ALA. Mais de uns, menos de outros, mas sempre me dão um prazer imenso ler. Pela qualidade da escrita e pelo desafio que, normalmente, comportam.

E, mais uma vez, assim aconteceu. Li-o há já uns tempos e foi daqueles livros que não me apetecia pousar. Não me importava até de o ler de novo, mesmo imediatamente a seguir (o que, regra geral, considero uma parvoíce tendo em conta a imensa multidão de livros bons que nunca terei tempo de ler). Além disso, desde logo cresceu em mim uma grande vontade de falar sobre ele, dizer o quanto me tinha agradado, o quão refrescante é ler um livro que nos preenche.

Pois bem, foi um caso de identificação desde o início. Em primeiro lugar talvez porque, em determinados aspectos, me seja fácil identificar-me com a personagem principal e compreendê-la. Temos idades parecidas e, também eu, em criança, ia passar férias numa casa, junto ao mar, à qual já não tenho acesso. Também eu teria gostado de me ter despedido dela, de relembrar tempos, de ressuscitar memórias…Mas, na verdade, termina aí mesmo o paralelismo das nossas vidas.

O livro, como outros de ALA, decorre num período de tempo muito curto; três dias. A narrativa inicia-se na sexta-feira e termina no domingo.
São apenas três dias na vida de uma mulher mas neles convergem cinquenta e dois anos de lembranças nas quais cabem alegrias, entusiasmos, sonhos, expectativas e desapontamentos.

Naquele rendilhado sublime de tempos e espaços que são, seguramente, marca incontestável do autor e que aqui atinge uma mestria desconcertante, vão desfilando as tardes de Verão passadas na praia com a mãe. As imagens do relacionamento patético dos seus pais. A sua amiga que vive na casa do lado e que, mais tarde, nem a reconhece nem lhe aceita a relembrança. Mas também a perda do seu filho que nunca foi. A sua vida de desesperança. A sua procura de conforto nos braços de duas colegas, que não deseja. A doença. A mutilação. O medo… 
Revive as viagens sentada no quadro da bicicleta do irmão mais velho, o mesmo que salta da falésia como o burro escanzelado que também dela resvalou. O balbuciar desajeitado do seu irmão surdo-mudo. A embriaguez do pai. O remorso da mãe. A loucura do outro irmão resultante das suas experiências em África, na guerra… 
A saudade de ser amada pelo marido. A frustração de ser professora numa escola, por aí. Os segredos que escrevia e que escondia no muro do jardim. A despedida. O fascínio pela falésia com os burros e as cabras de patas finas. Os melros, os muitos melros da casa, E, quem sabe, o fim.

Um livro fabuloso. Um livro a não perder sob pretexto algum.

Mais uma vez um momento alto do escritor António Lobo Antunes. 

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

Chamas




Há algo de encantatório nas chamas
que irrompem lascivas envoltas em fumos.
São incêndios de uma quase solidão,
de um quase delírio, de uma quase embriaguez.
Há algo de arrebatador nas suas danças feitas de silêncios,
de respirares lentos, de beijos sem sonhos.
Há algo nas chamas que me arrebata os sonhos
e os transforma preguiçosamente
em silêncios opacos despidos de beijos.
Há algo de encantadoramente perverso nas chamas.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Sonhei




Sonhei

Sonhei que voava

E comigo voavam as borboletas, os meninos, 
as bailarinas, os sonhos, todas as palavras improváveis 
de que são feitos os poemas

e tu…


Sonhei

Sonhei que sonhava

E sonhava como só as crianças sonham
E voava. E as borboletas, os meninos, 
as bailarinas, os sonhos e todas as palavras improváveis 
com que construímos os poemas e arrumamos vidas…

e tu voavas comigo.


Sonhei

Sonhei que acordava

E ao acordar voavam ainda as borboletas, os meninos, 
as bailarinas, os sonhos, as palavras 
e um dos mais belos poemas de todos os poemas belos com que eu podia sonhar:

Tu!

2012-02-08
Poema dedicado à minha amiga e ex-aluna Joana Moura Ferreira no dia em que completou 18 anos de imensa coragem.

sábado, 17 de novembro de 2012

Um poema



Nem imaginas como hoje
gostaria de escrever um poema.

Mas está a chover e
as pedras estão molhadas e tristes.
Desbotadas pelas levadas de pés anónimos
que as percorrem apressados.

Está a chover, sabes?
E assim, o poema não quer sair.
Faltam-lhe os melros, as rolas, as libelinhas
e as poucas flores choram grossas gotas de hálito azul.

Há gaivotas.
Estão em terra todas juntinhas  e arrumadas para o mesmo lado.
Mas gaivotas não são a mesma coisa…

Nem imaginas como hoje gostaria de escrever um poema…

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Às malvas



Hoje apetecia-me mandar tudo às malvas.

Que é como quem diz que o que eu queria mesmo era o privilégio de fazer apenas aquilo que me apetece. 
Borrifar-me para as obrigações, para as conveniências, para os compromissos. Enfim, livrar -me de todas essas grilhetas que me azedam e me amarram os dias.

E, em vez disso, ocupar-me com alguma coisa lúcida…
Ou, ainda melhor, não me ocupar com absolutamente nada e deixar – me vadiar, completamente absorta, pelos caminhos mais recônditos da imaginação.

Mas não será a realidade um conveniente produto da imaginação?

Como está pragmática a minha imaginação!
De tão praxista não lhe consigo encontrar uma pontinha que seja de fantasia; dessa irrealidade bonita que a devia compor.

Resta-me o desânimo!

Mas será mesmo que já não divisarei o devaneio? Já não conseguirei ascender a esse querido patamar que me permite o delírio?
Que imbecilismos são estes que surgem de todos os lados e me amarram a uma realidade boçal que não me deixa voar? Ou a uma imaginação amarrada, também ela, e que não se permite criar-me outra realidade, superior, mais tolerável ?!

Hoje vou recusar esse marasmo!

Hoje vou mandar tudo às malvas!!!!

domingo, 11 de novembro de 2012

Grito


"O Grito" de Edvard Munch

É este sentimento de impotência
que me incendeia de soslaio.
É esta incapacidade de soltar as amarras do alento
que me segreda raivas que me subjugam.
É este medo, esta angústia que me assola
me paralisa, me aniquila, me morde as entranhas
que me faz gritar de medo. 
Espreito o amanhã
apenas com o canto mais secreto do olhar. 

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Hoje o mar


Fotografia tirada em Matosinhos

Hoje estava lindo o meu mar.

Roubou-me o olhar que vagueava indeciso
por flores que já não há,
por pessoas cinzentas que passavam cinzentas
em poses cinzentas,
por aves esquivas que voavam distantes e cinzentas...

Estava lindo o meu mar hoje!

Roubou um ou dois raios ao sol
que, inflamados, fenderam as nuvens
e se espreguiçaram na prata das águas.

Tão lindo que estava o meu mar hoje!

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Tanto tempo



Tanto tempo, amor!

E todos os risos, os carinhos, as descobertas,
os segredos, os medos, as juras…

Tanto tempo, amor.
E as tuas mãos, os teus beijos, o teu calor
e a saudade na ausência de ti…

Tanto tempo de sonhos, de luares,
de sussurros de mel …
Tantas conquistas.

Tanto tempo nós…
Tanto tempo meu amor.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Sonho




Há muito que o livro jazia esquecido, pousado no colo.
Afagava-o distraída, talvez por hábito.
Sentia-lhe a textura espessa e inalava
quase com volúpia
aquele odor que me aconchegava e ao mesmo tempo
me arrastava para voos que nunca havia voado.
Há muito que o cigarro não passava de uma fina cinza soprada pela brisa quente.
Há muito que o sonho soltara amarras
e vogava muito para além da letargia que me consumia;
muito para além das areias quentes que respirava;
muito para além do mar que se confundia em horizontes de azul;
muito para além dos círculos erráticos das aves…
muito para além dos devaneios gravados no papel.

Há muito que o sonho era eu, apenas eu,
enrolada na saudade de te amar.

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

"Lost Boy"

Da série "Lost Boys" de Miguel Ministro


Sente no rosto o poder avassalador do punho que o golpeia.

A dor é imensa mas não importa. A sua ausência é muito mais cruel.

Habitualmente não sente nada, não deseja nada, não aspira a coisa nenhuma.

Não ama nem odeia.

Vagueia ausente nessa ubíqua almofada do desapego.

Nesse marasmo perverso que o persegue mas já não o inquieta.

Indiferença? Solidão? Tédio? Apenas isso o rodeia.

Medo não. Medo não sente. Aliás, não sente nada.

Apenas esse imenso enjoo de nada sentir…

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

"O Teu Rosto Será o Último" de João Ricardo Pedro


Muito, muito bom.

Uma agradabilíssima surpresa vinda de um autor estreante mas que, seguramente, virá a dar muito que falar.

Comecei por gostar muito da forma de escrita de João Ricardo; forte, se bem que bonita, e com muito carácter. É uma escrita com identidade própria. Utiliza recursos e vocábulos que, esgrimidos de outra forma ou em contextos diferentes poderiam ser vulgares ou maçadores mas que, no seu caso, enriquecem e dão cunho próprio à escrita.

Depois, gostei da estrutura do romance porque nos conta, de facto, uma história mas nos permite ter uma parte activa na sua construção. Pelo menos deixa-nos com essa ilusão.

A narrativa é composta por um conjunto de episódios aparentemente soltos, autónomos, mas que se vão encaixando de modo a criar para nós uma história coesa.

Uma história sem pontas? Não creio. Julgo que nos compete a nós atar algumas. Mas, mesmo assim, uma boa história impregnada de momentos alegres, disparatados, tristes, de grande dor, enigmáticos, e aqueles absolutamente corriqueiros, do quotidiano de qualquer um. Uma história complexa acerca de um conjunto de pessoas que constituem uma família, mas também a história de cada um em particular sem, contudo, se perder o sentido do todo.

Eu vejo como personagem fulcral desta narrativa Duarte. Não sei se é a personagem que suscita sentimentos mais fortes, a que nos fica a martelar na memória. Porém é aquela que vai atravessando todo o livro; aquela com quem vamos crescendo e tendo experiências de todo o tipo; vivendo. É através dela que vamos conhecendo três gerações de uma família bem como de mais umas tantas pessoas que a rodeiam.

Todavia, e poderá parecer paradoxal, Duarte é uma personagem enigmática. Dotada de grande talento musical (que rejeita), vai vivendo em quase constante interrogação e por isso vai-se descobrindo também (sobretudo?) através do que as outras personagens vão desvendando sobre ele.

O livro inicia-se no dia vinte e cinco de Abril de 1974 mas começa muito antes, ainda no período da ditadura, quando Policarpo vende a propriedade, numa aldeia no sopé da Serra da Gardunha, ao seu amigo e médico Augusto Mendes, para sair do país.

Parte muito importante na narrativa são as cartas que Policarpo envia todos os anos ao seu amigo, aliás como havia prometido, até ao fim da sua vida.

Continua por Queluz onde António, filho de Augusto Mendes, vive com a sua mulher que havia conhecido antes de sair para uma das suas comissões na guerra do ultramar e tinha aceitado ser sua “madrinha de guerra” (quem é que actualmente sabe bem o que é isso???) e o seu filho Duarte.

E é assim, entre as faldas da Gardunha, Queluz, e todos os locais que as cartas de Policarpo nos deixam vislumbrar, que se vai apresentando perante o leitor um puzzle subtil onde as mais insignificantes peças (os episódios mais banais) se vão revelar fulcrais para o desenrolar da narrativa.

A não perder mesmo!

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Tears


Imagem: "An ocean of tears" daqui


A deep sadness came to stay and made her bed in my most insightful feelings.

And now I don’t know what to do with all these tears …

Maybe an huge ocean of my own where I’ll slowly go drown.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

"The Sense of an Ending" Julian Barnes


Acabei ontem de ler este livro e, se bem que o considere um livro bom, ficou um pouco aquém das minhas expectativas motivadas, obviamente, por críticas que a ele se referiam de forma muito abonatória.

Li-o na sua versão original (em inglês) pelo que nem sequer poderei justificar essa pequena desilusão por perdas na tradução. Pelo contrário, poderá talvez, é dar-se o caso de não conseguir apreender algumas subtilezas da língua dado que a não utilizo comummente.

É um livro reflexivo e interessante, claro. Foi “Man Booker Prize 2011”…

Contudo não foi um daqueles livros que me agarrou de uma forma apaixonada. A verdade é que também não tive vontade de o largar…

Conta-nos uma história de vidas aparentemente normais, mornas e prosaicas. Até que, com a continuação da leitura se vai percebendo que, afinal, não são nem mornas, nem prosaicas e, seguramente, nada comuns.

Todo o livro está eivado de considerações filosóficas e de reflexões de vida mas que se inserem perfeitamente no contexto narrativo, sem que apareçam como conceitos filosóficos de pacotilha, inseridos a martelo, para eruditizar a coisa.

Aliás, creio ser exactamente a pertinência destes que faz com que o livro não seja uma história mais ou menos vulgar (em termos de enredo literário) contada de forma assaz ”soft”.

Temos Tony Webster, o narrador, que, agora em plena meia-idade, nos começa a contar a sua história e dos seus três amigos mais chegados, em plenos anos 60 quando eram um grupo de adolescentes.

Estamos na primeira de duas partes que constituem o livro. Dos outros dois amigos quase não reza a história, são quase totalmente irrelevantes, meros adereços, mas com Adrian Finn tudo é diferente.

Adrian é aquele amigo que se destaca por uma miríade de razões. Todos tivemos ou conhecemos alguém assim; alguém que todos disputávamos para “melhor amigo” e que nos custava ter de partilhar. Era mais, sério, mais inteligente, mais à vontade na exposição das suas ideias perante professores e colegas, aquele cujas reflexões e conclusões eram admiradas e, enfim, incontestadas. Era também o que parecia ter mais certezas e, além disso, um aluno exemplar.

Contudo era um grupo de adolescentes comuns, sedentos de vida, de sonhos, de sexo, de fantasia.

Chega a altura de irem para a faculdade e, enquanto Anthony a frequenta em Bristol, Adrian vai para Cambridge e vai-se, paulatinamente, perdendo o contacto que todos haviam jurado manter para o resto das suas vidas.

Tony mantém uma relação com Verónica até ao final do seu tempo de faculdade. Não dá certo e dá-se a ruptura. Acontecem alguns episódios insólitos nesta relação, mas sem grande interesse (pelo menos em aparência).

Entretanto é informado por Adrian que é agora ele quem mantém uma ligação com Verónica. Responde a Adrian sem dar muita importância ao assunto e, tempos mais tarde recebe a notícia do suicídio do seu amigo.

Estranha-o, reflecte muito em torno deste acontecimento, mas acaba a primeira parte contando, muito brevemente como se desenrolou depois a sua vida até chegar ao que é hoje; uma pessoa de meia-idade, divorciado, se bem que mantendo relações cordiais com a sua ex-mulher, com uma filha, afastado já das suas obrigações profissionais mas mantendo uma rotina de ocupações.

Como dá para perceber nada de especial, nenhuma novidade, nada que certamente não tenha acontecido a todos nós, os de meia idade (com suicídio ou sem suicídio à mistura) … Que é feito dos sonhos da adolescência? Da certeza de que íamos ser donos do Mundo?

E então entramos na segunda parte do livro em que Tony recebe uma comunicação de uma advogada que o informa que é o herdeiro da recém-falecida mãe de Verónica. Essa herança consiste numa importância em dinheiro e no diário de… Adrian.

É então a partir daqui que, no meu ponto de vista, o livro começa verdadeiramente a ter interesse. É a partir daqui que Anthony vai pôr em causa a “exactidão” das suas memórias. É aqui que elas são colocadas numa outra perspectiva, a do futuro. É aqui que já não sabe o que realmente se passou e o que a sua memória seleccionou para manter. É aqui que se surpreende…

Foi aqui que, também eu, fiquei com algum receio de reperspectivar as minhas memórias…

A ler.

domingo, 12 de agosto de 2012

O Meu Poema

Aguarela da série "Mascaras" de Miguel Ministro

Por vezes as palavras demoram a acordar.

Depois, surgem sem chama, inócuas, desnecessárias.

Negam-se a fazer sentido.

Não me lêem. Não me adivinho nelas.

Preciso de as iludir, de as rasgar, de lhes arrancar as máscaras,

de lhes soprar os fumos, as névoas, o que nelas é breve.

De as soltar dos silêncios aparentemente anódinos

e obrigá-las a estar aqui sem limite, audazes, maliciosas, incendiadas

e então, só assim, poderá nascer o meu poema.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

"O Rastro do Jaguar" de Murilo de Carvalho


Um livro que há já uns tempos tinha intenção de ler.

Foi prémio Leya 2008 o que, à partida, lhe confere algum interesse.

Acabei por lê-lo emprestado e, por isso, teve prioridade em relação a uma extensa pilha que se vai acumulando à minha volta.

Foi-me emprestado como sendo um livro extraordinário daí a sua leitura imediata.

Pois bem. Eu não o catalogaria no rol daqueles livros que considero verdadeiramente extraordinários mas é, sem dúvida, um bom livro.

Estamos em Congonhas do Campo algures em Minas Gerais no virar do século XIX. Aí, o nosso narrador, Pereira, contemplando as estátuas dos “profetas” esculpidas em pedra sabão, no adro da igreja pelo “Aleijadinho” (António Francisco Lisboa), e saudoso da sua amada Francisca, propõe-se narrar a vida de seu amigo Pierre, dele próprio e de algumas pessoas cujas vidas tocaram ou que vieram a fazer parte deste riquíssimo percurso que foram as existências de ambos.

E aí vamos sendo transportados desde Paris onde ambos eram elementos do exército até ao Brasil (depois Argentina, Paraguai…) onde aportamos exactamente num período histórico conturbado em que se desenrola uma guerra contra o Paraguai (guerra da “Tríplice Aliança” uma vez que se haviam aliado a Argentina, o Uruguai e o Brasil para combater o Paraguai que tinha invadido a província brasileira do “Mato Grosso”).

É um livro baseado em factos reais, muito bem documentado e que nos conta bastante pormenorizadamente o já referido conflito e nós dá, em imagens muito vívidas, conhecimento dos momentos duros de uma guerra que foi, em muitos momentos, sangrenta, desumana até ao limite do concebível. Menciono, por exemplo, no final, o massacre das crianças-soldados…

Mas, quanto a mim, esta não será a perspectiva mais importante do livro. Pelo menos não foi aquela que mais me impressionou, se bem que tenha apreciado saber mais acerca deste momento histórico. No meu ponto de vista o que aqui ressalta é a situação dos povos autóctones da região; a perda inexorável dos seus espaços, das suas raízes e, consequentemente, da sua identidade enquanto povos. Alguns deles preferindo o extermínio à aculturação.

É o caso dos Aimoré (Botocudos) que vamos seguindo, com Pierre tentando encontrar o povo de Firmiano que havia sido levado daquela zona, anos antes, por Saint’ Hilaire, mas também buscando as suas origens, a sua identidade.

Essas vão ser mais tarde encontradas junto do povo Guarani com quem Pierre se identifica e vem a ser por ele considerado um dos “adornados”, o mais importante profeta, aquele que o povo aguardava, tal como profetizara Ñamandu, o seu deus, para os conduzir em glória `à”Terra Sem Males”: o Jaguar

Pereira vai-nos narrando todo este passado recorrendo à sua memória, é certo, mas sobretudo a cartas e documentos escritos por Pierre, por Firmiano e por ele, dado que passou todo esse tempo como repórter de guerra a soldo do “Le Figaro”.

Ao mesmo tempo vai-nos deixando momentos de um presente nostálgico, ora contemplando os seus profetas, ora abraçando o “fantasma” da sua adorada Francisca. Presente que o leva a reencontros com personagens como Mateus e Benedito.

Presente que o vai levar a protagonizar, a ele próprio, uma demanda improvável.

De realçar a importância que aqui toma a alusão à peça de Wagner “Tanhauser Ouverture” que Pierre adorava, que tocou na Ópera de Paris e que, para mim, funciona quase como uma metáfora em relação à sua vida.

Um livro muito bom, sem dúvida, muito preciso, precioso no que concerne a documento histórico, bem escrito, numa linguagem fluida e agradável.

A ler, sem dúvida.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

A Borboleta

Borboleta castanha

Era uma vez uma borboleta.

Era uma borboleta feia. Daquelas sem cor, de asas curtas e grossas e corpo pesado.

Ainda assim uma borboleta.

E porque quando dizemos “borboleta” nos lembra poesia,

tal como flor, estrela, luar, silêncio,

decidi pegar nela e enfeitar um poema.

Mas a borboleta era feia.

As asas eram feias. O corpo era grosso e pesado.

E girava desengonçadamente pela minha cozinha.

Mesmo assim custava-me desistir dela

e então

quis colocá-la aqui e compor um poema feio.

Estava prestes a fazê-lo quando o Envie, o meu gato vermelho, saltou e a comeu.

Compreende-se. Ele não gosta que eu faça poemas feios…

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Viver

"The Triunph of The Death" by Pieter Bruegel The Elder


Misteriosos pensamentos estes que me assolam em dias ocos.

Assustadores porque estranhos e inesperados,

estranhos de tão assustadores no vazio opaco desses dias.

Pensamentos que se me agarram, me prendem a vontade

para, lenta e inexoravelmente, se insinuarem no mais recôndito de mim.

Afinal, viver pouco mais é que um pequeno ruído distante…

Um pequeno barulho, ao longe, feito segredo.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

"Explicação dos Pássaros" de António Lobo Antunes


E pronto. Lá terminei outro livro de António Lobo Antunes que, tal como todos os que já li, me provocou um prazer enorme.

Este, “Explicação dos Pássaros”, é já de 1981, um dos seus primeiros mas que, por qualquer razão, não havia ainda lido.

Adoro ler.
É enorme o prazer que tiro da leitura de um bom livro. E depois há o acto de ler ALA e o gozo incomensuravelmente maior que, numa grande parte das vezes, me dá lê-lo.

Será o desafio que a sua forma de escrita propicia? Será a poesia que lhe está intrínseca? Serão as personagens tão físicas, tão reais, tão consistentes que quase as podemos sentir?
Não sei. Apenas posso dizer que já lhe sinto a saudade.

Em “Explicação dos Pássaros”, somos levados a acompanhar Rui S. naqueles que irão ser os últimos quatro dias da sua vida. Quatro dias que nos levam a perceber uma existência pejada de rupturas, de perdas, de frustrações, de buscas do seu espaço social, da procura de si próprio.

Rui é alguém que sente não pertencer a lugar nenhum quer social quer familiar.
Não pertence à Lapa, casa de família onde o seu pai pontifica e o assombra (?). Não pertence ao mundo de Marília nem nunca pertenceu ao de Tucha ou mesmo ao dos filhos, distantes. Não pertence ao mundo da casa da D. Sara onde tem por vizinho, entre outros, o Sr. Esperança, “barítono de craveira internacional” que trabalhava num circo e havia sido casado com uma amestradora de rolas…
Enfim, alguém que não tem lugar, nem mesmo (sobretudo) em si próprio.

Rui tem uma grande obsessão pelos pássaros, pela sua explicação… Talvez seja o resultado do único momento em que se sentiu bem no seu espaço, que se sentiu parte integrante de algo; quando em miúdo, na quinta onde passavam as férias e onde ainda eram uma família feliz, sentado nos joelhos do pai, lhe havia pedido para lhe explicar os pássaros.
Verdade? Fantasia? Necessidade de em algum tempo em algum lugar ser ele mesmo? A verdade é que este momento é evocado recorrentemente ao longo da narrativa.

Rui era professor de História, não porque fosse esse o seu “lugar”, mas apenas porque não tinha (não queria ter) espaço no que eram os negócios do pai.


E assim, presos a um estilo a que ALA já nos habituou (e que noutros livros posteriores tem levado a limites aqui ainda insuspeitados), fragmentando e entrelaçando tempos, personagens, acções e reflexões que por sua vez se vão entrosando num universo de metáforas, num mundo por vezes até irreal, onírico, vamos repensando toda uma vida enquanto viajamos com Rui e Marília para Aveiro, em vez de para Tomar, e com eles contemplamos, em silêncio, as águas oleosas da ria e, sobretudo, as gaivotas que a sobrevoam.

Aí assistiremos às últimas rupturas.
A que advém do próprio facto de desistir do congresso a que deveria ir em Tomar, a que acontece com Marília, e a consciencialização da sua vida que o leva a não ter outra saída que não a ruptura com ela própria.


Há uma metáfora particularmente importante que atravessa toda a narrativa: o circo. O circo que, a meu ver, simboliza a crueza da vida, as concessões que nela fazemos, a crueldade, tudo o que é deprimente e não o circo maravilhoso das luzes. Efectivamente é tudo aquilo que se esconde por detrás delas, o que é amargo, deprimente.
O circo que vai ganhando importância à medida que nos vamos aproximando do final. O local em que o protagonista é personagem e espectador atento e, às vezes, até surpreendido. O circo onde se cruzam todas as vozes, de forma quase feérica no final, e nos são dados a conhecer os múltiplos pontos de vista acerca de tudo o que foi acontecendo em torno de Rui.

Enfim, uma narrativa extremamente rica que me deixou, uma vez mais, de água na boca.
A não perder.

domingo, 29 de julho de 2012

As palavras


Imagem daqui
Procuro no rumor das ondas palavras que me expliquem.
Encontro apenas o frio oleoso das algas
e o movimento translúcido das águas revoltas e salgadas,
desabitadas de sonhos, novos ou velhos,
ocas de ilusões, esvaziadas da fantasia.
Procuro no rumor das ondas palavras que me decifrem,
as extensas listas de palavras que devem existir para que me entenda…
E tudo o que ouço é um imenso fragor feito de silêncios.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Vazio


"Fotografia sem título" de César Augusto Romão


Hoje vou fechar os olhos
e esperar que o rosto das palavras
me preencha este vazio imenso.
Sobrarão apenas as memórias
suspiradas pelo silêncio. 


domingo, 15 de julho de 2012

Depois


"Shadows on sea" Claude Monet

Hoje apeteceu-me ir à praia e despentear as ondas.
Olhá-las, senti-las, e dançar longos silêncios.
Depois, incendiá-los em movimentos suados
e rasgá-los ali mesmo. Naquele exacto lá,
onde já nada sobra para o arrepio de imaginar que para nós,
o depois, pode não ser já o sempre.