Páginas

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

"Uns mentem outros morrem" de Ruth Rendell


Estando um tempo tão desagradável no último fim-de-semana e como tinha acabado de ler o livro que tinha em mãos, decidi pegar num policial dos que ainda tenho para ler, acender a lareira, embrulhar-me numa manta e, com os gatos todos à minha volta toca de passar a tarde toda de domingo com o livro “Uns mentem outros morrem” de Ruth Rendell.

Este, insere-se na sua série dedicada ao inspector Reginald Wexford (da qual já li vários) que exerce a sua profissão numa pequena cidade inglesa de Kingsmarkhan sempre acompanhado pelo seu ajudante Burden.

Livro que se lê muito rapidamente (tem apenas 178 páginas) e que anda à volta de um festival de música pop em que todos pareciam divertir-se até ao aparecimento de um cadáver de uma mulher. Esta, embora fosse da localidade já lá não habitava há muito tempo e, concluiu-se que a sua morte nada teve a ver com o festival uma vez que se provou que foi anterior.

Como é já habitual, o Inspector Wexford e Burden, vão desenvolvendo a investigação com muita calma, muito na base do raciocínio e das conversas com os eventuais suspeitos, até que de dedução em dedução resolvem o crime.

Não é seguramente dos melhores que eu li da autora mas dá para passar, quase sem dar conta, uma tarde chata de inverno.

A autora desenvolve outro género mais dedicado à psicologia patológica com títulos interessantes. Sob o pseudónimo de Bárbara Vine , exprime-se desenvolvendo de forma muito mais evidente os aspectos psicológicos. Já li alguns destes livros que achei interessantes.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

"Poesia in Progress"


É já na próxima quinta-feira!

Se gosta de poesia, não deixe de ir "ouvir" a magia do Natal contada pelos nossos poetas.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Poesia de Natal "Natal" de Miguel Torga

(Presépio napolitano, pertencente ao museu. Possui 1620 peças)

NATAL

Nem pareces o mesmo
Exposto
Num presépio de gesso!
E nunca foi tão santa no teu rosto
Esta paz que me dás e não mereço.
É fingida também a neve
Que te gela a nudez.
Mas gosto dela assim,
A ser tão branca em mim
Pela primeira vez.

Miguel Torga

sábado, 13 de dezembro de 2008

Visita de estudo à Milonga



Vocês sabem o que é uma milonga?

Pois bem. Até há relativamente pouco tempo, para mim, milonga era, em gíria, uma aldrabice dita por quem se queria “armar”. Quando alguém contava um feito algo, digamos que, prodigioso para a pessoa em questão, a tendência natural, aqui pelo norte, era que outro alguém que estivesse a ouvir respondesse:

- É pá, deixa-te lá de milongas! Vai mas é “arrotar postas de pescada” (expressão belíssima) para outro lado!

Mas a verdade verdadinha é que uma pessoa, mesmo da minha idade está em constante aprendizagem. É que uma milonga tem também, e principalmente, julgo eu, outro significado.

Ora bem: Milonga será o baile onde se vai especificamente para dançar Tango. Por extensão também é chamado Milonga ao local onde se realizam os referidos bailes.

Tradicionalmente numa Milonga baila-se o Tango, a milonga, e o vals cruzado ou vals argentino (variante da valsa vienense). Outros ritmos típicos que se podem encontrar numa Milonga são a chacarera e a salsa.

E agora perguntar-se-ão que raio têm a ver com isso?

Nada. Rigorosamente nada, mas como eu vos queria contar que fui ontem pela primeira vez a uma Milonga, entendi por bem informar quem tiver coragem de ler do que se tratava.

É um baile muito giro. Muito formal. A sala estava rodeada de pequenas mesas redondas com camilhas vermelhas de acordo com a cor dos pesados reposteiros que cobriam completamente uma das suas maiores paredes. Em cada mesa tremeluzia apenas uma vela e todo o ambiente era envolvente, quase sensual.

As músicas iam-se sucedendo e os pares revoluteavam pela pista, uns mais arrojados nos seus passos, outros mais titubeantes, mas todos eles respingando algo de voluptuosamente ousado.

Fiquei a saber que o convite à senhora para dançar é sempre feito pelo cavalheiro de forma discreta; através de um olhar, de um gesto dissimulado… pelo que a resposta da senhora deve acompanhar também essa discrição e o encontro de ambos (quando aceite o convite) verifica-se já na pista.

Ora, no meu ponto de vista, esta regra é muito favorável às senhoras pois, quando não lhes interessa o convite, podem sempre fingir que não vêem bem ao longe, que não estavam a olhar naquela direcção embora até parecesse e muitas outras desculpas semelhantes mas que agora não me ocorrem. Por outro lado, se caem no erro de ter muitas “faltas de visão” também pode ocorrer que fiquem toda a noite a tomar um bom banhinho de assento pois, se isso se nota, nenhum cavalheiro de juízo se sujeitará a ser rejeitado.

Enfim, foi a minha primeira Milonga. Destinou-se a aprimorar a teoria e, como podem verificar, resultou. Quando ou se irei algum dia passar da teoria à prática e passear-me pela pista ao som daqueles belíssimos tangos…. Isso não sei.

Mas fazendo aqui umas contas (não sou muito boa a matemática) e se continuar a ter aulas num ritmo certinho, penso que daqui por uns dez anitos já conseguirei titubear uma “caminhada” decente e, quiçá, alguns “oitos” (isto se o andarilho não estorvar muito).

"O Despir da Névoa" de José Manuel Mendes


Embora conhecedora do autor na sua faceta de poeta nunca tinha lido um dos seus vários romances.

Aproveitei uma recente reedição do livro “Despir da Névoa” do Círculo de Leitores e li-o com grande curiosidade.

Enfim, devo dizer que esperava um pouco mais. Trata um tema muito comum (um triângulo amoroso) de forma, quanto a mim, pouco elaborada; os comuns encontros e desencontros e os solilóquios das personagens exprimindo os seus sentimentos, os seus receios, as suas paixões…

Talvez que esta suposta desatenção ao tema principal do livro seja intencional!?

Em termos literários está, no meu ponto de vista, muito mais interessante. Vai contando momentos, reflexões, acontecimentos, memórias, sem aparente ordem cronológica, mas que acabam por se encadear e formar um todo coeso. Tudo isto se passa utilizando uma forma muito inspirada de escrever. Os próprios episódios em aparente desencontro, fazem parte dessa magia poética. Saliento alguns passos em que descreve zonas interiores do país; verdadeiros poemas.

Muito interessantes também as referências ao pós 25 de Abril (altura em que decorre a acção do livro), o ambiente político fervilhante, as posições extremadas, a vinda dos portugueses das recentes ex-colónias, as suas frustrações, as recordações…

Vale a pena ler. Não será, porém, dos imperdíveis.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Poemas de Natal


NATAL À BEIRA-RIO

É o braço do abeto a bater na vidraça?
E o ponteiro pequeno a caminho da meta!
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,
A trazer-me da água a infância ressurrecta.
Da casa onde nasci via-se perto o rio.
Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!
E o Menino nascia a bordo de um navio
Que ficava, no cais, à noite iluminado...
Ó noite de Natal, que travo a maresia!
Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.
E quanto mais na terra a terra me envolvia
E quanto mais na terra fazia o norte de quem erra.
Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me
À beira desse cais onde Jesus nascia...
Serei dos que afinal, errando em terra firme,
Precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?

David Mourão Ferreira

(Imagem "Baby Jesus by Dborah Woodall 2005")

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

PARABÉNS!


Cem anos!

É verdade, Manoel de Oliveira completa hoje 100anos. E não são uns 100 anos quaisquer (se é que é possível haver 100anos quaisquer), são 100 anos de uma vida que, seguramente, deixará uma marca indelével no nosso panorama cinematográfico.

Gostemos ou não, é, sem dúvida, a maior referência nacional na área do cinema.

Na apresentação do primeiro filme que realizou, ainda mudo e financiado pelo pai “Douro faina fluvial”, foi de tal modo pateado e assobiado que levou os críticos estrangeiros que a ele assistiam a perguntar se era assim que em Portugal aplaudiam!...

Embora a sua relação com o público não seja fácil, Manoel de Oliveira ama o cinema. Considera-o a síntese de todas as artes; algo de fantástico que o encanta e o completa!

(Foto de Sousa Dias)

Aqui, uma homenagem que eu acho que apreciará com humor.


terça-feira, 9 de dezembro de 2008

"Os detectives Selvagens" Roberto Bolaño


Como, normalmente, sou apreciadora da literatura sul-americana em relação à qual tenho tido surpresas deveras gratificantes mesmo com autores que não conhecia, o que é também o caso, quando vi “Os detectives Selvagens” nos escaparates da livraria e depois de ler a resenha que o acompanha, os prémios que ganhou, e as críticas credíveis que constam da contra-capa, comprei-o de imediato e, logo que pude, dei início à sua leitura.

Esta revelou-se uma grande empreitada. Em primeiro lugar porque o livro é bastante grande embora isso não constitua problema, apenas leva mais tempo. Depois porque não foi, para mim, de leitura fácil. Tive, algumas vezes, de voltar atrás para me reposicionar em relação à personagem que intervinha no momento.

Apesar dessa “dificuldade”, apenas minha certamente, considero que li uma excelente obra.

Sob o pretexto de procurarem a sua mentora, exilada voluntariamente talvez para o deserto de Sonora, dois poetas enigmáticos pertencentes ao movimento “real visceralismo” percorrem vários locais da América do sul, da Ásia Menor e até da Europa tendo vivido um mundo de situações. Este movimento (realismo visceral), vanguardista (anos 50) surge numa tentativa de revolucionar o campo literário mexicano opondo-se àqueles que são considerados os pais da literatura hispano-americana: Octávio Paz (prémio Nobel da literatura) e Pablo Neruda.

Assim, escrito sempre em forma de diário com 96 entradas correspondendo a 53 vozes (daí por vezes a dificuldade em perceber quem é quem), por um período de cerca de 20 anos, vamos lendo histórias apaixonantes escritas por personagens incríveis que, de um modo ou de outro, cruzaram as suas vidas com esses dois poetas em demanda.

As histórias, revelavam-se umas deveras excêntricas, outras com o intuito de ridicularizar alguns sectores da sociedade, outras, mais reais e mais simples, mas não menos curiosas, algumas verdadeiramente dramáticas... Enfim, uma chusma de referências literárias ficcionais mas sobretudo poéticas, que nos inebria pela forma como somos apanhados pelo mundo das letras, da escrita, da poesia.

A ler com atenção!