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domingo, 11 de novembro de 2007

Dia de S.Martinho


Imagem "S. Martinho" de El Greco
Hoje é o dia de S. Martinho e, tal como diz o ditado dia de “ir à adega e provar o vinho”.

É também o dia dos tradicionais magustos em que se reúnem os amigos e, em volta de fogueiras onde vão sendo assadas as castanhas, vão também bebendo a água-pé. Alguns, os mais afoitos, saltam a fogueira em grande algazarra enquanto outros, enfarruscam as caras dos que conseguem apanhar.

Enfim, um divertimento pegado para quem achar tais actividades divertidas. Eu confesso que a única coisa que verdadeiramente aprecio, são as castanhas e as conversas com os amigos.

É também natural nesta época beneficiarmos de umas tréguas em termos de condições atmosféricas e vivermos uns dias primaveris que intercalam os já longos dias de outono até aqui vividos. Isto porque um tal de Martinho, legionário romano originário da Panónia, actual Hungria (mas dos bonzinhos, entenda-se) ao ver um mendigo semi nu, na berma da estrada cheio de frio dado que o dia estava chuvoso e agreste, pegou na sua espada e, numa atitude de grande nobreza de alma, cortou a sua quente capa ao meio, dando uma das metades ao mendigo para se agasalhar.

Ora Deus, que não dorme e que é extremamente sensível a atitudes deste jaez, imediatamente ordenou à intempérie que se retirasse, transformando-se assim o dia numa amena primavera. Enfim, do meu ponto de vista, depois de Martinho ter remediado a situação ao dar cabo de uma capa ainda em tão bom estado, também já não se justificaria lá muito a alteração das condições atmosféricas....Bom, mas é apenas a minha opinião... Até porque, a partir daí, neste período do ano e para comemorar tamanho altruísmo e bondade, há sempre uns dias amenos no meio do já avançado período outonal.

Pois é, mas a tradição já não é o que era e, o que se verificou hoje, dia de S.Martinho é que as pessoas passeavam alegremente de tshirts e havaianas que AINDA NÃO LARGARAM desde o verão, e comiam as castanhas assadas confortavelmente sentadas nas esplanadas AINDA NÃO DESMONTADAS desde a época balnear, a usufruir dos quentes raios de sol que NÃO DEIXARAM AINDA DE BRILHAR!

Tivesse havido estes desvios climatéricos no Séc. IV DC e teríamos agora um santo a menos no panteão católico e naturalmente, levaríamos para todo o sempre com um outono sem direito a suavizações.

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

"Summer of sixty nine"


Vou às compras!

Como qualquer dona de casa e mãe de família, consciente, coloco os sacos reutilizáveis na mala do carro, a lista de compras na mala de mão (julgo eu) e lá vou eu rumo ao supermercado habitual a fim de me dedicar a mais uma dessas tão estimulantes tarefas que nos estão reservadas.

E lá vou, mais ou menos em piloto automático, cantarolando distraidamente as músicas que entretanto vão passando na rádio enquanto que eu, ou pelo menos aquela parte de mim que não controlo, vagueia imparável e incansavelmente por temas bem menos prosaicos do que as compras que tenho que fazer.



Ainda Bem!

A dada altura, algo me faz sair desse limbo (desculpem, bem sei que já não existe, mas agora deu-me jeito…) em que me encontro. De repente apercebo-me das palavras que digo ao assassinar barbaramente a música que Brian Adams cantava no momento: Summer of 69. Cantava eu então convictamente “those were the best days of my life”.

Ao tomar consciência do significado das palavras que dizia e porque o meu pensamento é, de facto, irrequieto e independente da minha vontade, em vez de, como devia, se direccionar para as compras que estava prestes a fazer (se era melhor carne ou peixe, se ia fazer sopa de legumes ou uma canjinha, se o papel higiénico que ia levar deveria ser perfumado ou não; se de três ou de quatro folhas…), põe-se a vaguear incontrolavelmente tentando decidir quais teriam sido, até agora, the best days of my life.

Enquanto isto, já tinha chegado ao supermercado e, de carrinho na mão, para lá ia enfiando diversos artigos, os necessários e os outros, de forma mais ou menos aleatória, ignorando completamente a lista o que, embora habitual, hoje tomava contornos nunca vistos. É que aquele eu que não controlo, aquela parte de mim que não está minimamente preocupada com as couves, os ovos ou os pensos higiénicos que é necessário levar para casa, continuava sonhadora a fazer desfilar incessantemente, mais ou menos como num filme, as imagens de todos os “melhores dias da minha vida” que conseguia recordar.

Não vos vou dizer quais foram. Mas devem ter sido bastantes pois, quando cheguei a casa e arrumei aquela quantidade de artigos estranhíssimos que havia trazido, constatei que tinha passado uma tarde de sonho. Ficou-me cara, é certo, tomei contacto com produtos que nem sei bem para que servem mas que agora constam das minhas prateleiras mas valeu bem a pena.

É que, de um modo geral, temos sempre tendência para recordar o que nos desgosta e nos faz infeliz contudo, julgo que na vida de todos nós, conseguiremos encontrar mais momentos felizes do que podíamos imaginar.
Um conselho: quando fizerem este exercício de busca, de pesquisa, façam-no nas vossas casas, comodamente instalados. É, muito provavelmente mais agradável, fica seguramente incomparavelmente mais económico e não têm depois de andar a inventar utilizações para produtos que vos são totalmente desnecessários e quiçá, até preocupantemente prejudiciais…

Summer of 69

Letra da Música
I got my first real six-string - bought it at the five and dime
Played it til my fingers bled - it was the summer of '69
Me and some guys from school - had a band and we tried real hard
Jimmy quit and Jody got married - I shoulda known we'd never get far
Oh when I look back now - That summer seemed to last forever
And if I had the choice - ya - I'd always wanna be there
Those were the best days of my life
Ain't no use in complainin' - when you got a job to do
Spent my evenin's down at the drive-in - and that's when I met you - ya
Standin' on your mama's porch - you told me that you'd wait forever
Oh and when you held my hand - I knew that it was now or never
Those were the best days of my life - back in the summer of '69
Man we were killin' time - we were young and restless
We needed to unwind - I guess nothin' can last forever - no
And now the times are changin'
Look at everything that's come and gone
Sometimes when I play that old six-string
I think about ya wonder what went wrong
Standin' on your mama's porch - you told me it would last forever
Oh and when you held my hand - I knew that it was now or never - ya
Those were the best days of my life - oh ya - back in the summer of '69
Ya - me and my baby in '69
It was the summer of '69

Está visto. "It runs in the family"!


Imagem: "Gatos" da net. Retrato de família...

Ao ler os comentários que por vezes fazem aos meus posts, deparei-me, com alguma surpresa, com um texto enorme. Com estranheza, há que me encher de coragem e dar início à leitura não podendo sequer imaginar a razão pela qual um simples poema poderia suscitar tamanho comentário. Fui lendo. À medida que prosseguia fui percebendo que, muito mais do que um comentário, se tratava de um texto escrito, a meu ver, com raro sentido de humor.

Percebi também que o autor do comentário que se auto intitula de “CarecaRaivoso”, não era outro senão um desses familiares (e família, como sabem, não escolhemos) terrivelmente vocacionados para a escrita de comentários em blogues que, como todos sabemos, se querem sucintos requerendo, portanto, alguma capacidade de síntese.

Como efectivamente achei que se tratava de algo com imensa graça, aconselhei-o a colocar este e/ou outros trabalhos num blogue próprio e não, deixa-lo a “entupir” o meu espaço de comentários. Convenhamos que foi uma forma subtil, além de inteligente, que aqui a Donagata utilizou para evitar vulgaridades no seu distinto blogue! É que eu sou uma Senhora, bolas!

Deixo-vos agora com um pequeno excerto do texto e, para aqueles cuja curiosidade for mais forte do que o juízo, aqui vai o endereço onde poderão divertir-se com o resto:

http://www.carecaraiboso.blogspot.com/


disse...
olá senhora DonaGata desculpe estar a incomodar daqui é o CarecaRaiboso, careca porque pois claro raiboso porque sou do Porto carago, e gosto muito do seu belógue só é pena as poesias não rimarem porque assim nem parece poesia e já diz o povo que quem não se lhe arrima é porque nem parece prima e então eu estava a pensar nisto tudo e veio-me uma melancolia sei lá um pensamento ou se calhar foi da cagadela daquela pomba que me deixou aturdido, e a senhora desculpe DonaGata por este atrevimento e nem parece mas sou filho de boas famílias que até estou cheio de ganhar prémios, o primeiro ainda era pequenino quando a minha mãezinha me levou ao concurso do bebé mais lindo na paróquia de Rio Tinto que é uma paróquia que fica em Rio Tinto, e logo aí ganhei um prémio, que saudades, que logo que cheguei toda a gente começou a dizer meu Deus, porque eu acho que sou muito espiritual, e outros começaram a vomitar, mas o que se segue é que o senhor padre, que Deus o tenha em boa memória, deu à minha mãe um saco preto e dez escudos e uma medalha do último lugar do bebé mais lindo e a minha mãe lá me pôs o saco na cabeça e guardou a medalha e comprou-me uma boina com os dez escudos e eu gostava muito dessa boina e eu gostava mesmo era de a usar de lado mas a minha mãe achava que me ficava mesmo mesmo bem era de frente e depois ela levantava a boina quando era para eu comer, mas com a boina ou com o saco eu andava sempre era mesmo às cabeçadas a tudo e assim as pessoas não eram tão religiosas porque como não viam a minha cara não diziam meu Deus porque pronto sou feio…

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

"A gift to friendship"

Imagem: "Gift to friendship" de Ginger Witte
Estava triste hoje de manhã.
A tarefa que me tinha proposto cumprir afectou-me mais do que podia imaginar. E a minha (suposta) habitual força esmoreceu abrindo assim uma porta à saudade.
Sentia uma nostalgia que se me colava à pele e me prendia no vórtice profundo da minha alma.

Mesmo assim, ou melhor, precisamente por me sentir assim, forcei um pouco a minha recente resistência e regressei ao local que considerei o meu reduto, em termos profissionais (e não só), por muitos e bons anos e aonde já não ia há um bom par de meses.

Surgi de surpresa. E mesmo que apenas pelo tempo que leva a tomar um cafezinho e a dizer umas tontarias, voltei a viver momentos que constituíram parte importante da minha vida até há bem pouco tempo e a sentir o conforto de estar rodeada daquela mãozinha cheia de amigas/os.

E, no meio da confusão habitual, quando olho para o local onde normalmente se expõem as informações importantes ou as mensagens cuja necessidade de destaque é imprescindível, eis que me deparo com um poema meu, publicado neste blogue e escrito também num momento de grande angústia.

Algo se acendeu em mim e aquela melancolia que teimava em se agarrar, soltou-se. Da tristeza passei à comoção. Uma gratidão profunda foi aquilo que me assolou no momento. Ninguém tem o direito de se sentir triste quando existem pessoas lindas que, mesmo à distância, nos entendem ao ponto de pegarem naquilo que foi a expressão de um momento mais negativo e o colocam em destaque como gesto de solidariedade, mostrando que, mesmo longe e apesar das suas próprias agruras, estão por perto, atentas...

Se fiz amigas/os destas/es, é porque a minha vida faz todo o sentido; permitam-me esta vaidade!

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Uma tarde bem passada

Imagem - Cat Reading da net
Hoje decidi que ia reservar uma boa parte da minha tarde a ler alguns dos meus poetas preferidos.

Sentei-me confortavelmente no sofá, rodeei-me de uns quantos livrinhos e toca de saborear alguns dos poemas que selecciono calmamente. Digo- os em voz alta, sempre, pois gosto de sentir as palavras a rolarem atrevidas umas, tímidas ou ingénuas outras, de encontro ao meu palato. Algumas são tão fortes que quase ferem, outras, as mais delicadas deixam-nos a ligeira impressão do roçagar de uma pena.

Ao meu lado, também confortavelmente sentadas, de preferência até em cima do livro que estou a ler, a Utopia, a Luna, A Tracy , a Carlota e o Envy, aproveitam para apanhar os agradáveis raios de sol que nos aquecem ao mesmo tempo que vão lançando expressivos olhares de verde aprovação. É que os meus gatos também são apreciadores de poesia...

E se, porque o poema o pede, ou porque assim me dita a vontade, me entusiasmo e ergo um pouco mais a voz, logo a Carlota, sempre a mais crítica, solta um ligeiro “arrulhar” de advertência, ao mesmo tempo que me contempla com aquele seu olhar pleno de luz.

Agora vou apenas aqui partilhar um ou dois dos “bombons” que saboreei só para vos deixar de água na boca...




Eis-me

Eis-me
Tendo-me despido de todos os meus mantos
Tendo-me separado de adivinhos mágicos e deuses
Para ficar sozinha ante o silêncio
Ante o silêncio e o esplendor da tua face

Mas tu és de todos os ausentes o ausente
Nem o teu’ombro me apoia nem a tua mão me toca
O meu coração desce as escadas do tempo em que não moras
E o teu encontro
São planícies e planícies de silêncio

Escuta é a noite
Escura e transparente
Mas o teu rosto está para além do tempo opaco
E eu não habito os jardins do teu silêncio
Porque tu és de todos os ausentes o ausente

Sophia de Mello Breyner Andresen em “Livro Sexto”




A rosa e o mar

Eu gostaria ainda de falar,
da rosa brava e do mar.
A rosa é tão delicada,
o mar tão impetuoso,
que não sei como os juntar,
e convidar para o chá
na casa breve do poema.
O melhor é não falar
sorrir-lhes só da janela.

Eugénio de Andrade




AMIZADE

Desfiz os teus nós
com os meus dedos.
Escrevi os meus sonhos
na tua pele.
Deitei nas tuas mãos
a minha cabeça.
Vi nos teus olhos
a minha censura.
Atei os meus laços
na tua ternura.
Moldei o meu barro
com a tua vontade.

Já não sei o que é meu,
que me deste tanto,
nem sei se é teu
este medo, este espanto.
Dói-me o teu muro,
a barragem de silêncio,
este frio que me tolhe,
este corpo que me encolhe.

Desfaz os meus nós
com os teus dedos…

Maria Sofia Magalhães em “A luz que se esconde”

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

"As Healthclubíadas" (continuação - 2)


Imagem da net

(Afinal o juízo sempre é pouco)


6
E vós, as amigas penitentes
Que comigo padeceis convictamente,
Que pecados de gula cometestes,
Para assim expiardes duramente?
Foi a natinha que de manhã comestes,
Que vos leva a sacrifício tão pungente?
E agora? – Hora e meia a pedalar,
E o Prof. com um sorriso a controlar.


7
E vós, professores impiedosos
Que nos vedes a sofrer, a ofegar,
Que apesar destes feitos valorosos,
Continuais a insistir, a maltratar;
Quando já em arquejos perigosos
Estamos o workout a terminar,
Eis que, tocais lá no botãozinho,
E dizeis: - É só mais um bocadinho!


8
Nem as deusas do Olimpo e suas manhas
Sentadas em seus tronos deslumbrantes,
Com Gama tão prestáveis nas façanhas,
Se dedicam a acudir às implorantes.
Elegantes essas deusas, mas tacanhas,
Pois se julgam assim, tão importantes.
Minerva, Juno, Vénus, deusas fingidas,
Valeis pouco ante estas gentes destemidas!


9
Quanto à “hidro”, só agora vou falar,
É intensa a tortura habitual,
É o forte puxar da água e o empurrar,
As flexões e os saltos sem igual,
E quando já só queremos descansar,
Soltas neste elemento primordial.
Vêm Duberdicus* e Nabia* ajudar
Volvendo as águas para nos relaxar.

* Duberdicus – deus das fontes e das águas na mitologia lusitana
* Nabia – deusa dos rios e da água na mitologia galaica e lusitana


10
É certo que também temos que ajudar,
Rodar o torso, a anca e esticá-los,
Puxar, puxar o braço até estalar.
Os músculos das pernas, é alongá-los
Até no rabo bater o calcanhar
Juntando os joelhos, e controlá-los.
Se julga que é fácil, não se iluda,
Às vezes era bem vinda uma ajuda.


11
A música é agradável, divertida,
A água está quentinha, a preceito,
E lá vamos acompanhando a batida
A insistir p’ra lhe ganharmos o jeito!
Se em flexões e esticões nós nos cansamos,
E às vezes já nos falta o ar no peito,
Há momentos para um pouco lazer
É o tempo de amizades acender.

domingo, 4 de novembro de 2007

Apenas

(Repto aceite!)


Uma folha caída,
Apenas uma folha caída,
Apenas.
Dourada e só.
Parei.
Pesou-me a sua leveza,
O seu fardo de folha solitária,
A sua renúncia,
O seu fim.
Peguei-a com ternura
E,
Talvez num sonho
(ou por inspiração)
Como se fosse poeta,
Levei-a à minha praia.
Soltei-a ao vento
E,
De um fôlego só,
Soprei-a lá bem para o fundo,
Bem para esse âmago,
Essa essência intangível
Onde o mar se funde com o céu.

Fiz dela
A minha estrela.

Dona gata em 2007-11-04

Imagem Stars de Van Gogh

sábado, 3 de novembro de 2007

"A Alma Trocada" de Rosa Lobato de Faria

Li ontem o livro “A alma trocada” com alguma expectativa. Por um lado porque é uma escritora de quem já li obras de que gostei muito e por outro, pelo tema que aborda, talvez um tanto inesperado: a homossexualidade masculina.

A sua escrita, um pouco diferente, talvez mais madura, agradou-me, como sempre, dado o seu cariz eminentemente poético. O tema foi, do meu ponto de vista, tratado com desenvoltura, sensibilidade e realismo, sem pruridos ou eufemismos em momentos hipoteticamente mais delicados.

Não consegui entender (perdoem-me) qual a mensagem subliminar contida na utilização de algumas palavras, aparentemente descontextualizadas, que, dado que até ao final da leitura não consegui entender perfeitamente o sentido, apenas serviram para quebrar o fluxo narrativo. Penso, obviamente, que não seja esse o objectivo.

Ficou a ideia de uma tarde de leitura agradável, bem passado, seguramente, mas sem deixar grandes marcas. Não foi, definitivamente, o livro da autora que mais me impressionou.

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Outono


Uma folha caiu
em plena estrada.
Era apenas uma folha
uma folha a cair
no meio da estrada.

Uma folha a cair.
Mais nada.

Lisboa, 30-10-2001
Manuel Alegre em “Doze naus”

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

"A Sétima Porta" de Richard Zimler

Terminei finalmente a leitura do livro, do qual já aqui havia falado, “A sétima porta”. É o quarto em que vai contando a saga de uma família judaica cujas acções vão decorrendo em locais e épocas diferentes:

Em Lisboa, quando do “progrom”em que a família Zarco se vê envolvida, e surge Berequias Zarco, o “O último cabalista de Lisboa”;

Em Goa, colónia portuguesa, no séc. XVI, onde uma nova geração dos Zarco, ao tentar manter as suas crenças judaico-cristãs é envolvida nas teias da Inquisição, então em pleno apogeu: “Goa ou o guardião da aurora”;

No Porto, no início do séc XIX terminando nos Estados Unidos, focando o choque de valores entre uma família de origem judaica e com um nível de desenvolvimento cultural e humanista elevado e os traços fundamentalmente ultra-conservadores da mentalidade da época (afinal a inquisição só é oficialmente extinta em 1921!): “Meia noite ou o princípio do mundo”.

No livro “A sétima porta” Richard Zimler volta a partir dos sete manuscritos do séc. XVI que encontra em Istambul, numa cave, escritos por um cabalista de nome Berequias Zarco. Estes manuscritos que já tinham dado origem ao “Último cabalista de Lisboa”, são aqui retomados dando origem a este magnífico romance histórico que recupera alguns factos perdidos em Berlim dos anos 30/40. Isaac Zarco, na posse dos já referidos documentos cabalísticos, está convencido que, descodificando-os poderá salvar o mundo.
É, apesar de tudo, um grande romance de amor que se desenvolve apesar dos movimentos que os nazis movem contra os deficientes, incapacitados, débeis e judeus e outros grupos étnicos: as esterilizações forçadas, as perseguições, os crimes, as deportações para campos de concentração e de extermínio, enfim, tudo o que a história se encarregou de nos mostrar.
As personagens, enredadas e, por vezes, surpreendidas, com o crescendo de horrores e atrocidades que as envolvem, têm de lutar com todas as suas forças para manter a esperança no amor.
Na minha opinião, livro a ler até porque o autor tem uma forma de escrita bastante poética como já demonstrei ao transcrever alguns, poucos, excertos do livro, o que a torna muito agradável.
Ainda alguns excertos:
"Contudo, uma rapariga como eu já sabe, por esta altura, que as lágrimas são fáceis. Até o Hitler e o Goebbels devem chorar de vez em quando. E tenho quase a certeza de que Werner Catel, Max de Crinis, Julius Hallervorden, Hans Heinze, Werner Heyde, e todos os outros médicos nazis qu assassinaram rapazes como o Hansi também choram quando ouvem falar na morte de alguém que amavam."
"Depois da guerra, dúzias de americanos hão-de dizer-me daquela maneira tão séria que eles têm, que nunca compreen derão como é que os judeus e seu apoiantes não fugiram a tempo. Tínhamos gente que dependia de nós, apetece-me sempre gritar. Será assim tão difícil de entender? (...) Estávamos à espera que um país inteiro acordasse. Estávamos ofendidos e queríamos um pedido de desculpas. Achámos que lhes iríamos sobreviver. Não queríamos largar o romance a meio."

Brincar com as palavras


O sobreiro

Além
Sobre aquele sobreiro
Na sobretarde
Paira só
Uma nuvem
Sombria
Uma só nuvem
Sóbria
Sobressorvida
Parada
Sobre o sobreiro
Donagata em 29/09/2007

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

As Healthclubíadas (continuação)


(Imagem da net)
Afinal sempre continua!

3
Cessem do atleta russo e americano
Os treinos intensos que fizeram,
Cale-se de Rosa e de Agostinho
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu, ao ver tanto e bom esforço,
Tal labor e tanto corpo moidinho,
Canto os valores destas gentes corajosas
Ainda que outras haja audaciosas.

4
E tu, minha gata, minha musa,
Que sempre me encorajas com paciência
Quando a casa chego tão contusa,
E cansada de tamanha inclemência,
Dá-me agora uma ajuda, estou confusa,
Incapaz de usar a inteligência!
Se são manhãs inteiras a penar,
Porquê este teimoso porfiar?

5
Será fúria ou desejo de vingança,
Aquilo que me leva a prosseguir?!
Ou será apenas a esperança
De umas calças trinta e seis poder vestir?!
Será mesmo pela vontade de mudança,
Que pulo, e quase morro inda a sorrir?!
Diz-me Carlota, minha musa, linda gata,
Será que estou doida? E esta doidice, mata?


Donagata, em 28-10-2007
(Há-de continuar, se entretanto não ganhar juízo)

"As Healthclubíadas"

Inicio hoje a “publicação” aqui, neste blog, das Healthclubíadas, mas antes quero dexar bem claro alguns pontos:

- As Healthclubíadas são apenas uma brincadeira e, como tal, não pretente retratar nada nem ninguém, baseando-se apenas na minha experiência pessoal. Não se destina, portanto a ser minimamente ofensivo para quem quer que seja.

- O facto de, como irão verificar, o “poema” se apoiar na estrutura das estrofes dos Lusíadas, deve-se apenas à minha falta de “engenho e arte” não sendo, portanto, capaz de criar uma “epopeia” sem um grande suporte. Mesmo assim, não estejam os mais atentos à espera de ir encontrar oitavas de decassílabos heróicos com a rima a desenvolver-se cruzada nos seis primeiros versos e emparelhada nos dois últimos. Há-de ser como calhar!

- Considero os Lusíadas, e agora falo com grande seriedade, uma das GRANDES obras (se não a maior) da nossa literatura, não pretendendo de modo nenhum que, a mera utilização da sua estrutura, possa ser interpretada como um desrespeito.




As Healthclubíadas


1
Esta gentes satisfeitas e anafadas
Que confiantes aqui se vêm inscrever,
Em torturas nunca dantes suspeitadas,
Vão passar largas horas a sofrer.
E em pedaladas e corridas esforçadas,
Muito além do que permite a força humana
Por sádicos inumanos são levadas
Ao estado de “quase liquidadas”.

2
E ainda as memórias tenebrosas
Dos corpos já doridos esticando,
Dos pulos e das poses caprichosas,
Que as costas e os membros vão matando,
E aqueles que nas águas, mais sedosas,
Se vão das gordurinhas libertando:
- Falando aqui e ali com ligeireza
Vou tentar celebrá-los com destreza.

Donagata em 28/10/2007

(Continua, acho eu...)

domingo, 28 de outubro de 2007

Excertos do livro "A Sétima Porta" de Richard Zimler

Continuo a ler o livro “A sétima porta” de Richard Zimler. Está-me a levar um pouquinho de tempo pois é bastante extenso e eu gosto de saborear algumas partes mais do que uma vez; aquelas que me tocam mais fundo.

Alguns exemplos de excertos do livro que me fazem lê-lo com muita calma e provocam alguma reflexão:

“Se fosse a desenhar os meus sentimentos, eles seriam um rio luminoso a cair em cascata à minha volta, levando consigo a prova dos meus desejos, porque sou ainda nova de mais para me sentir assim.
Uma rapariga entrega-se a um rapaz porque quer acreditar que o amor deles vai fazer dela uma pessoa nova. Tudo aquilo que não me mude para sempre não merece ser chamado amor.”

“ Mais perto da janela encontro o desenho que passa a ser o meu favorito. É um retrato da autoria de Otto Dix que representa um cavalheiro magro e de ar afável, de pé junto de uma janela aberta, vestindo um casaco elegante mas no fio. O homem, dos seus sessenta e tal anos, sabe que está a ser desenhado e franze um pouco os lábios, com um ar amavelmente divertido. As suas longas mãos esguias são lindas, as mãos de um pai que escreve cartas semanais aos seus filhos distantes, com uma caneta antiga, ponho-me eu a fantasiar. Foi a sua bondade que o artista tentou captar, tenho a certeza. E coloco o nome dele num lugar especial na minha memória quando o Sr. Zarco mo diz uns dias mais tarde: Iwar von Lucken, poeta alemão e amigo do Sr. Dix.”

“ – Cada livro que compras por mim é mais um anjo que vai viver para lutar mais um dia – garante-me o Isaac, explicando que Berequias Zarco costumava referir-se aos livros como anjos a que fora dada forma terrestre.”

“ – Todos nós, ao longo da vida, damos uma mordida nessa mesma maçã no momento anterior àquele em que nos reconhecemos pela primeira vez no espelho. Todos somos Eva, tal como todos somos Adão. E, enquanto mastigamos a maçã, dizemos para nós próprios:
- Eu existo, e sou separado de Deus.
- Então a serpente não é o mal?
- Não, a serpente é a eternidade, a centelha de eternidade que tem origem na terra e que dá início ao fogo...ao incêndio dentro de cada um de nós. A serpente é a vida a reconhecer-se a si própria, (..........)
- Então por que é que as pessoas acham que a serpente é o mal?
- Porque acham que o mundo é feito de prosa , quando é feito de poesia.”
A imagem é a descrita no segundo excerto: retrato do poeta Iwar von Luken por Otto Dix

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Resultados dos exames nacionais de 2007


Como pessoa ligada desde sempre à educação, não pude ficar indiferente ao ranking, divulgado ontem, das escolas que obtiveram melhores resultados nos exames do 12º ano em 2007.Como já vem sendo habitual, há uma prevalência, ao nível dos primeiros lugares, do ensino privado em detrimento do público. Neste ano, por exemplo, nas primeiras dez, oito são particulares; cinco dessas oito são confessionárias e de orientação católica, três ligadas à Opus Dei...

Claro que, se em vez de considerarmos as primeiras dez considerarmos as primeiras cinquenta, as diferenças aparecem muito mais esbatidas pois aí já se encontram vinte e nove oficiais e as restantes é que são privadas. Portanto uma proporção muito diferente da anterior e que vai continuando a modificar-se à medida que se alarga o número de escolas observadas.

É também interessante referir que a diferença entre a média ponderada (a que entra em linha de conta não só com as notas mas também com o número de alunos que realizaram o teste, na minha perspectiva a única correcta e significativa) nas escolas privadas e nas públicas é apenas de 18 centésimas considerando as oito disciplinas com maior número de alunos inscritos.

Sempre tive uma certa aversão a estes rankings que, na minha opinião, servem para pouco mais do que enaltecer e elevar escolas que, na maioria dos casos, têm como maior mérito a qualidade de alunos que as frequenta à partida, ou seja perpetuar o privilégio. Senão vejamos:

Na maior parte destas escolas privadas, das tais que se encontram entre as primeiras dez, as mensalidades para lá manter um aluno, rondam entre os 400 e os 450 euros logo aí e não é necessário um grande esforço de inteligência ou de imaginação, percebemos que a selecção é grande. Famílias que podem dispor entre 4400 a 5000 euros por ano para a educação de cada filho são, normalmente famílias de condição sócio-económica e cultural privilegiada, ou não??

Por outro lado, essas escolas privadas têm o privilégio de poderem escolher os alunos que admitem (e fazem-no, posso dizê-lo com conhecimento de causa).
Quando os alunos não seguem as regras que são impostas pela escola, também aí, esta pode, simplesmente, "convidá-los a escolher" outro local para prosseguirem a sua escolaridade...

E na escola pública como é?
Pois é, a escola pública tem de assegurar o direito que TODOS os alunos têm à educação. São estas que recebem a grande massa heterogénea de alunos (não há lugar a qualquer tipo de selecção. Mesmo até em questões disciplinares por vezes bem graves, é dificil aconselhar o aluno a mudar de ambiente) e que, portanto, têm de organizar os seus Projectos Educativos de forma a poder dar resposta a todos seja qual for o seu nível(!!!)

Tem necessariamente de ser uma escola mais humanizada e consciente das diferenças o que por vezes se torna difícil dado o normalmente muito elevado número de alunos por turma.

Não sou contra a existência de escolas privadas, longe disso, sobretudo se forem de qualidade.
Todavia acho abusivo e de questionável bom senso classificar as privadas como melhores que as públicas pois as primeiras lidam, por sistema, com um mundo inquestionavelmente elitista a todos os níveis ao contrário das segundas que têm de receber e dar resposta a todos.

Atenção, não digo, nem defendo, que neglicenciemos os dados! Longe disso. Estes deverão servir, após uma análise criteriosa, para uma reflexão séria no sentido não de justificar as falhas mas de intervir para melhorar.

É preciso que não esqueçamos nunca que é o ensino público, melhor ou pior (esperemos que sempre melhor), o garante da igualdade de oportunidades. É portanto aí que é necessário centrar o investimento, a todos os níveis, para que possa melhorar. Só assim poderemos ter a pretensão de melhorar o nível das novas gerações de portugueses.
Imagem: Alunos em exame nacional, Portugal Diário

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Último dia em Lanzarote

Deito-me de bruços
e fecho os olhos.
Abandono o corpo
aos raios tímidos
que teimam em passar
a frágil cortina de nuvens brancas
e torna subtis os
beijos dourados com que
aquecem a minha pele.

Deito-me de bruços
e fecho os olhos.
Escuto o rumor das ondas,
O seu fragor,
quando quebram na rocha negra,
que se aquieta e se amacia
onde, um dia,
as águas lhe apagaram o fogo
e lamberam a ferida ardente.

Deito-me de bruços
e fecho os olhos,
enquanto ouço o suave roçagar
das asas das rolas.
Sobrevoam incansavelmente as águas,
transformando-se,
por breves momentos,
em belíssimas aves do paraíso,
ao vestirem os seus corpos
de inacreditáveis matizes de azul
que o reflexo das águas, lhes empresta.

Deitada de bruços e,
ainda de olhos fechados,
vou passando, erraticamente,
os dedos pelo chão colorido
desenhando obras primas
pejadas de sereias
que aguardam ainda,
os Ulisses mais incautos;
de “meninas do mar”bailando
fazendo rodopiar loucamente
os cabelos de algas finíssimas;
de rochedos no fundo do mar
acolhendo antigos galeões
que apenas deixam antever
os seus finos tesouros perdidos,
de civilizações esquecidas
nas profundezas das águas...

Abro os olhos lentamente,
contrariadamente...
Algo indefinível ainda,
me obriga a sair do doce torpor
em que havia mergulhado.
O sol,
talvez na sua persitência mansa,
havia diluído o manto de nuvens
que o cobria.
Procuro uma sombra.
Sento-me,
protegida de outros beijos
mais dolorosos, mais intensos,
que não desejo
e olho esse mar de frente.
Quero fixar os seus tons,
os seus movimentos,
os seus sons,
ora sussurrantes, ora fragorosos,
os seus cheiros, intensos e doces.
Quero colá-los à pele,
senti-los em mim,
fazer, também eu,
parte desse infinito.

Donagata
Lanzarote em 17-09-2007


Imagem: Olhar sobre as ondas de Angel Estevez

Óscar Lopes 90 anos

Nem só àqueles que precocemente nos deixaram se devem dirigir os nossos tributos. Enalteçamos também aqueles que, ainda entre nós, são (e continuarão a ser) um marco importantíssimo da nossa cultura.

Refiro-me, neste caso, a Óscar Lopes, que festejou no passado dia 2, o seu nonagésimo aniversário.

Conheci-o casualmente, num café, quando era eu uma jovem estudante do antigo 6º ano de germânicas, no liceu Carolina Michaelis e tomava o meu primeiro contacto com a Literatura enquanto disciplina académica. Tentava estudar pela sua "História da literatura portuguesa" escrita em parceria com António José Saraiva, mas o meu nível de capacidade associado, provavelmente à falta dos pré-requisitos necessários, tornavam muito difícil a compreensão da obra. É claro que , na altura eu achava que entendia tudo perfeitamente e, permitia-me até dar sugestões e fazer críticas juntamente com os amigos e amigas que habitualmente se reuniam num determinado café do Porto para estudar.
Num dia de discussão mais acesa em que o chorrilho de disparates devia estar a ser superior ao suportável, levanta-se da mesa do lado, uma voz calma, suave mas assertiva que, rapidamente, repõe a razoabilidade dos factos e esclarece o que nos parecia terrivelmente nebuloso.

Olhei para a pessoa que assim discorria sobre matéria tão "erudita" e vi "apenas" um senhor, já de idade (do meu ponto de vista, claro, pois eu tinha 15 anos e ele devia ter aproximadamente a idade que tenho agora ), de estatura pequena, magro, aparentando até alguma ingenuidade que, embora não me fosse totalmente estranho, não fui capaz de reconhecer.

Já disposta a não dar muita importância ao caso e até um pouco aborrecida pela interrupção de tão elaboradas discussões culturais, eis que, um dos meus amigos que era aluno no liceu D.Manuel II (agora Rodrigues de Freitas) e, se calhar até aluno dele, me elucida acerca da identidade do senhor. Fiquei francamente envergonhada tendo em conta os disparates que aparentemente tinha proferido e ainda por cima com ares doutorais. Apressei-me a sair do café tendo terminado aí mesmo o meu contacto ao vivo e a cores com tão ilustre personagem por quem eu nutria (e ainda nutro) a maior das considerções.
Licenciado em Filologia Clássica na Universidade de Lisboa, frequentou também o curso de Histórico-Filosóficas da Universidade de Coimbra, o Conservatório de Música do Porto e o Instituto Britânico. É indubitavelmente uma das figuras mais importantes do panorama cultural português do séc.XX. Para tal terá contribuído esta sua formação tão multifacetada.

Após ter dado aulas no ensino secundário, foi para a Faculdade de Letras da Universidade do Porto onde foi Professor Catedrático.

Crítico literário, autor de diversos ensaios no domínio da literatura e da linguística, colaborou com vários jornais e revistas de grande impacto como por exemplo a "Seara Nova"e "O Mundo Literário". Publicou também obras de grande fôlego como a já referida "História da literatura portuguesa", "Entre Fialho e Nemésio" entre outros. Importantíssima também a sua vertente de investigação a qual culminou com um trabalho pioneiro em Portugal e de cariz inovador: "A gramática simbólica do português".
Militante comunista foi alvo de perseguições, proibições, discriminações tendo mesmo sido preso.

Sem pretender deixar aqui uma descrição exaustiva daquilo que tem sido o trabalho de Óscar Lopes (não o saberia fazer), não quis, nem pude, deixar de fazer uma referência, mesmo humilde como esta, a uma das pessoas que mais influência teve nas minhas opções académicas e que mais curiosidade me despertou em relação aos aspectos da literatura e da linguística.
Imagem: arquivo do DN, Úrsula Zangger

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Gatos


Imagem: L'apotheose des chats de Theophile Alexandre Steinlen, 1905

Ninguém como os gatos
sabe contar as estrelas e os duendes
que se evadem do labirinto das fábulas
para desassossegarem as virgens
das aguarelas dos quadros interditos.
Os gatos lavam-se
para que nada do que é impuro
macule a santidade
dos instantes que a memória não retém,
por serem felinos como o reverbero das pedras
preciosas da noite dos alquimistas.

José Jorge Letria

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

"Ode" aos gémeos Afonso e Henrique

Imagem: Gravura de Mondigniani
Sois apenas crianças,
bem pequenas, é certo,
mas enormes no privilégio
do vosso mundo
de duendes, de fadas,
de sonhos, de fantasia,
de encantamento, de magia.

Sois apenas crianças,
Mas viveis o privilégio
do sorriso puro, ingénuo,
da verdade, do choro, do grito,
da graça, do espanto,
do carinho que nos prende,
e do pranto.

Sois o paradigma da verdade,
do abandono confiante,
do extravasar da sensibilidade,
do amor incondicional,
do abraço colossal,
que nos deixa eterna e irremediavelmente rendidos.
Sois crianças!


Para o Afonso e o Henrique no dia do seu primeiro aniversário.
Um enorme beijo.

Donagata em 21-10-2007

"A história de amor" de Nicole Krauss

Acabei hoje (este hoje, foi já no mês passado) de ler este livro que já me tinha sido oferecido pelo Natal. Como nem o título nem o nome da autora me diziam nada de especial, fui priorizando outras leituras e, só agora, já no rescaldo das férias é que decidi lê-lo.
- Que agradável surpresa!
Na minha opinião, é um livro original, escrito com gosto, de forma inteligente e um tanto misterioso na maneira como se desenvolve.
História contada a quatro tempos por quatro personagens.Estas, muito ricas na sua composição mas totalmente diferentes umas das outras, vão contando alternadamente as suas histórias que têm um elemento comum que as influencia a todas: um livro/um autor, Leopold Gursky.
Livro francamente cativante, que consegue misturar de forma muito feliz sentimentos de amor (paixão), humor e ternura.
História que é, só por si, uma homenagem à literatura e aos livros; o exemplo de como um livro pode influenciar, por vezes irremediavelmente, a vida das pessoas.
Aconselho.

"A leitura de um bom livro é um diálogo incessante: o livro fala e a alma responde"
André Maurois

sábado, 20 de outubro de 2007

Bolas, é demais!!!

Apenas alguns exemplos para nos ajudarem a não esquecer!

Estabelecimento prisional d Peniche
Estabelecimento prisional de Caxias

Tarrafal, cela, Campo da morte lenta

Tarrafal , colónia penal na ilha de Santiago, Cabo Verde

Estava eu confortavelmente sentada enquanto sorvia, paulatinamente, o meu “cimbalino” pós- prandial (lindo!) quando, a passar os olhos de forma bastante displicente, ensonada até, pela revista Tabu, li algo que, não só me despertou completamente como me indignou ao ponto de estar a escrever sobre um assunto que faz parte daqueles que costumo evitar aqui.

Tema que ocupava várias páginas era a notícia que dava conta da publicação de mais um livro sobre Salazar intitulado “Os meus 35 anos com Salazar”. Entre fotografias diversas e “caixas” realçando aspectos da personalidade do Sr. Doutor, a revista disponibiliza também, em pré-publicação excertos do primeiro capítulo intitulado, surpreendam-se, “A pupila do Sr. Doutor”.

Escrito por Maria da Conceição Rita e Joaquim Vieira, sendo a primeira uma (para mim completa desconhecida, confesso) protegida do ditador, segue, aparentemente e de acordo com a amostra a tendência que parece estar em voga do branqueamento da imagem de Salazar.

É verdade que o tempo se encarrega de “arrumar” a história; é verdade também (pelo menos eu acredito) que todos os homens, mesmo os mais perversos e retorcidos, têm uma faceta, por pequena que seja, melhor, mais humana.
Mas, lá porque o Sr. Dr. se deixava governar (em termos domésticos, claro) pela “tia Maria”, lá porque permitia que a sobrinha da dita tia lá permanecesse em casa e até lá porque lhe contava histórias ao deitar e nem era nada soturno, não podemos, não temos o direito, de esquecer que foi este “simpático” senhor o ditador com um enorme “currículo” de tristes responsabilidades.

Responsável

- pelo obscurantismo em que o país viveu mergulhado durante 40 anos (36 enquanto Presidente do Conselho) colocando-o na cauda da Europa;

- pelo corporativismo; pelo autoritarismo levado ao extremo, anti-democrático, repressivo;

- por um regime político que teve honras de nome próprio “Salazarismo”, fascista, colonialista que se apoia na censura, na propaganda, na ideologia católica (Deus , Pátria e Família);

- pela utilização da PIDE, mais tarde DGS para tentar neutralizar quem se lhe opunha, responsável por milhares de presos políticos, mantidos em condições infra-humanas (lembremos apenas o Tarrafal e Caxias), sujeitos a torturas absolutamente inconcebíveis se considerarmos que já não estávamos na Idade Média, que os levavam, em muitos casos, à morte;

- pelos processos eleitorais fraudulentos;

- pelo assassinato de Humberto Delgado e de outros eminentes anti-fascistas;

- por uma interminável guerra colonial condenada desde início;

Poderia continuar a lista, muito mais haveria a dizer, contudo eu não creio que seja necessário porque, muito simplesmente, me recuso a acreditar que a memória das pessoas seja tão curta que já tenha esquecido um período da história ainda tão próximo, tão presente, vivido por alguns de nós de forma mais ou menos consciente, mais ou menos interventiva mas vivido.

Permitam-me repetir: não temos o direito de esquecer a nossa História e, pior do que isso, não temos o direito de a distorcer ao sabor das modas.

Hoje foi dia de marmelada!


Calma, calma, não se precipitem, não vou tentar a veia erótica! Marmelada mas daquela que é feita com marmelos, açúcar, pauzinho de canela, etc., etc., etc.
Ao início da tarde lá vai a sôdonagata para a cozinha e desencanta de diversos armários toda a parafernália necessária para tão “interessante” ritual anual: a panela “king sise” usada apenas em situações muito especiais, as colheres de pau enormes, as taças da marmelada, o papel vegetal, a água-ardente, o açucar, a balança, o passevite, os marmelos, claro, e a paciência, sobretudo a paciência...

Enfim, cheia de coragem lá dou início à tarefa da única maneira que sei fazer, à boa, velha maneira portuguesa. É a única forma da qual tenho imagens, referências, e, além disso, a única que a minha mãe aprovará. Descasco e descaroço penosamente os marmelos, enquanto, cá para mim, vou insultando até à quinta geração a pessoa que inventou tal cozinhado.

Quando, após cozidos e escorridos, os trituro no passevite (assim é que deve ser), vou alargando o número de gerações insultadas à medida que vou reforçando os já inicialmente fortes epítetos. Penso em desistir e largar toda aquela pasta estranha e pegajosa num ecológico saquinho de lixo, colocá-lo no contentor e sentar-me a ler calmamente o livro que de momento me está a entusiasmar bastante, “A sétima porta” mas não posso fazê-lo, não saberia encarar tremendo falhanço perante a minha mãe; disse-lhe que este ano seria eu a fazer a marmelada e fá-la-ei!

Coloco o açucar com um pouco de água a ferver até ganhar ponto de rebuçado (sabem o que é?) e, quando tal acontece, junto-lhe o polme (até já sei os nomes técnicos) do marmelo e bato fortemente, com uma colher de pau até me doerem estupidamente os braços e as costas. As dores foram um bonus adicional pois o objectivo era tão só criar uma pasta o mais homogénea possível: a marmelada.

Concluída a execução e estive nisto a tarde inteirinha, passei à fase de a acondicionar. Fase mais simples mas também bem chatinha sobretudo para quem já tem a paciência bem posta à prova.
Penso que por esta altura já devem ter entendido que não sou propriamente uma apaixonada pela culinária, mas há alturas em que o nosso ego nos leva a fazer coisas verdadeiramente idiotas a troco de provarmos não sei muito bem o quê nem a quem.

Enfim, lá coloco a marmelada nas tacinhas e cubro-as com círculos de papel vegetal pincelado com água-ardente (não me perguntem porquê).

Coloco os tabuleiros com as taças na mesa da sala, devidamente cobertos com panos de cozinha, numa zona solheira para ir secando.
Nesta fase, está a ser preciosa a ajuda da Luna, da Utopia, da Tracy e do Envy os gatos que estão sempre comigo em casa e que de vez em quando, se me distraio, lá tentam colocar uma pata sobre o pano para irem verificando a consistência do doce.
Coitadinhas, querem ajudar!

Finalmente, tudo isto para nada, puro masoquismo. Pois, como muito bem sabe quem me conhece, eu só de cheirar tão opíparo doce, adquiro logo uns quantos quilinhos que depois levam meses a perder à custa de muita bicicleta, muito tapete, muita máquina distensora, contractora, hidroginástica, natação, bodybalance, cardiolocal e sei lá que mais...
Imagem da net

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Puro prazer


Imagem: Sombra (da net)
Li agora e apeteceu-me partilhar. Deleitem-se.


Há dias em que a sombra
engole a janela, a árvore, o céu.
Há dias de abandono e breu.

Há dias em que se senta, se espera,
se dorme,se respira o desarrumo,
o desaprumo,
o desnorte.

Poesia de Maria Sofia Magalhães , do livro "A sombra que somos"






Ainda as leituras de férias...


“Combateremos a sombra” de Lídia Jorge

De escrita forte, intensa, poderosa que, confesso, me agrada, a autora vai desenvolvendo o enredo (quase policial, quase espelho da sociedade corrupta em que vivemos), com subtileza, dando especial realce às personagens. A impressão que me deixa é que estas são construídas com paixão e que a autora é, ela própria arrebatada por elas e lhes vai seguindo o próprio curso de emoções e acções, indiferente aos diversos artifícios de escrita que qualquer autor conhece e, mais ou menos profusamente, utiliza com vista a prender o leitor.

É precisamente a complexidade e a riqueza das (poucas) personagens, o seu estatuto de pessoas comuns e como tal plenas de contrastes de fraquezas, de indecisões, mas também de certezas e de atitudes arriscadas e imprevisíveis, o fio que prende irremediavelmente o leitor o qual, por vezes, é até tentado a intervir tal é o seu grau de envolvimento.

Gostei e recomendo embora não possa dizer que é o livro (ou um dos livros) da minha vida. Mas vale a pena.


quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Histórias de família "A avó Alice"

Imagem: Great grandmother by Jessica Carper
Ao ser confrontada, no livro que acabei de ler, com referências a terras durienses como Sabrosa, Provesende, Gouvães, Santa Marta de Penaguião, local onde, aliás, nasceu a minha tia mais querida e onde a minha mãe e os restantes irmãos passaram uma boa parte da infância e adolescência, vêm-me à memória muitas histórias que eu cresci a ouvir ora contadas pela minha avó, ora pela minha mãe. Ouvidas vezes sem conta, ilustravam sempre, de forma mais ou menos colorida, mais ou menos rica em pormenores interessantes, o outro lado das vidas no Douro, fora das grandes casas solarengas. Contavam a vida dos assalariados dessas quintas, dos feitores, das mulheres e homens que trabalhavam à jorna, mas também das que serviam nas casas senhoriais, as internas e até as governantas que zelavam para que tudo se mantivesse muito bem quer na presença quer na ausência dos seus senhores.
Contavam as vidas daqueles que, embora assalariados dos grandes proprietários, eram eles próprios donos de terras, de animais, de vinha de “benefício”, onde trabalhavam arduamente, sem o brilho das mansões e dos “senhorios”
Ao recordar estas histórias, não posso deixar de imaginar, agora com outros olhos, o que foi a vida da minha Avó Alice.

A avó Alice nasceu e viveu em Matosinhos com seus pais e irmãos. Aí estudou até à quarta classe (num colégio de meninas?), tendo depois aprendido uma arte; era costureira mas “de alfaiate” assim me dizia com ares de importância. Exercia a sua arte no Porto para onde ia todos os dias. Conheceu o meu avô, um garboso militar das forças da G.N.R. com quem veio a casar tendo algum tempo depois nascido uma menina – a minha mãe.
Até aqui tudo foi normal, uma família normal, um emprego normal, um casamento normal, um marido normal, amigas normais passeios normais, os banhos das sete da manhã, no mar de Matosinhos também normais...

Até que,

em consequência do movimento militar e civil republicano contra a Ditadura militar, (Fevereiro de 1927), o meu avô é exonerado da Guarda Nacional Republicana e, sem outro modo de ganhar a vida, vê-se obrigado a regressar à sua terra, Vilela, onde possuía algumas propriedades que lhes poderiam garantir pelo menos alguns meios de subsistência. É aqui que a avó Alice, para acompanhar o marido, é arrancada a Matosinhos, ao mar (!) aos seus irmãos e pais, ao local onde trabalhava no Porto e, com uma filha acabada de nascer dá um imenso salto para o desconhecido e vê-se sozinha e desapoiada, completamente desterrada em Vilela.Rapidamente percebeu que era um local de pessoas duras (como dura era a sua vida), estranhas, de paisagens agrestes onde apenas o brilho do xisto nas tardes de canícula poderia, por vezes, muito fugazmente, trazer à lembrança um raio de sol a incidir nas ondas do seu mar. Longe do seu mundo, como peixe fora de água, lá foi tendo que se adaptar aquele lugar onde tudo faltava mesmo o mais elementar, onde tudo lhe era estranho e ela era estranha para todos, onde era a única mulher que sabia ler e escrever, que tinha hábitos de higiene pessoal… Chorou muito, dizia ela e, contudo, que coragem! Teve de executar tarefas que não sabia, sofrer durezas e agruras a que não estava habituada, aprender a lidar com a rudeza bem intencionada das pessoas, ser mãe por mais duas vezes…


Também, rapidamente se tornou a ajuda preciosa de todos aqueles, sobretudo de todas aquelas que tinham os seus familiares ausentes e que precisavam de enviar bem como de descodificar as notícias recebidas; era também aquela que sabia costurar as blusinhas melhores, confeccionadas naquela chita que compravam no Pinhão com as parquíssimas economias que tinham sobrado da venda dos queijinhos de cabra ou daqueles dois cabritinhos que já não contavam vender. Blusinhas mimosas, todas com aquelas golas redondinhas e que seriam escrupulosa e cuidadosamente guardadas, em caixas de pinho, para serem orgulhosamente exibidas na romaria mais próxima. Ou então para quando fossem ao Pinhão, a Provesende ou a Vila Real tratar de assuntos de grande importância.

Sem dinheiro e provavelmente sem grande ânimo, houve hábitos que nunca deixou morrer e que, no entanto, ali, eram luxos:
As prendinhas que o Menino Jesus trazia no Natal, ainda que fosse apenas uma mão cheia de confeitos;
O estrear algo novo, no dia um de Janeiro ainda que fossem apenas as meias;
A educação dos seus filhos embora tivessem de percorrer todos os dias seis quilómetros para cada lado para frequentarem a escola em Gouvães.

Que grande lição de vida! Que heroína!

A vida veio a melhorar. O meu avô foi reintegrado nas forças da G.N.R. e foi comandar o Posto em Santa Marta de Penaguião.
A partir daí a vida da avó tomou um rumo normal. Mas terá ela continuado a ser a mesma Alice? Aquela dos alegres banhos de mar às sete horas da manhã com as irmãs e as amigas? Teria ainda sonhos? Esperanças? Projectos?