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terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Lastro



Por vezes cresce-me um frio imenso
não sei bem onde nem sei bem como
que me entorpece a alma
e me acinzenta todas as cores.
Enche-me os dias de futuros viscosos
e de ruinas
que crescem num apagamento macio.
Morrem todas as certezas
e desorganizam-se as normas
num correr de dias sem razão.
Resta-me apenas esta imensa bola de frio,
esta harmonia desconexa,
esta sede desmedida,

este lastro do tempo.


2016-01-26

O Natal cá de casa


Tudo está igual no Natal cá de casa:
O pinheiro, grande, cuidado e enfeitado de gatos.
O presépio maior do que nunca: cascatas que jorram água,
moinhos que rodam velas,
fontes onde pastores bebem água, 
os três reis magos
seguindo caminho
pelos montes de musgo embranquecido de neve.
O Menino Jesus
à entrada,
de braços bem abertos, recebendo todos.
Os cheiros quentes e doces.
As panelas enormes.
O crepitar da lenha na lareira.
Os arranjos de pinheiro e azevinho.
As coroas nas portas. As luzes nas varandas.
As árvores do jardim que brilham muito.
Tudo está igual.
Mas é um igual tão diferente!
Em cada novo natal
parece instalar-se nas estrelas
um odor ocre aos natais passados que as apagam um pouco.
Talvez também elas tenham já gasto um tanto do seu fulgor.
Os lugares cá em casa vão ficando maiores,
as luzes mais opacas,
os fogos mais apagados, embora bem acesos,
e o frio cada vez mais azul e mais frio.
As paixões parecem mais acanhadas
e perderam as cores vibrantes de que vivem.
Talvez lhes sobrem memórias
e tenham dificuldade em adormecer os medos,
ou os risos não sejam os suficientes
nem brilhem como costumavam brilhar.
Talvez se tenham quebrado algumas hastes
das que seguram os sonhos.
São frágeis os sonhos, escapam-se com facilidade.
Escorrem pelas paredes
junto com os silêncios que nos segredam aos ouvidos
e nos desentendem com o mundo.
Tudo está igual no Natal cá de casa.
E eu continuo a ouvir o crepitar da lenha na lareira.
Celeste Pereira 26-12-2015

Parabéns Miguel







Que pena tenho 
de hoje me fugirem as palavras.
E também não encontro 
o seu lugar nas linhas
para as pousar.
As metáforas entardecem,
e a sintaxe embaraça-me os dedos...

É que,
se eu hoje encontrasse as palavras,
se as conseguisse pousar
de forma a fazerem sentido,
se as metáforas se acendessem,
se a precária geometria das frases
não se pintasse de contornos tão vagos
então contaria
como o mar se arredondou
em ondas gordas, quentes e maduras,
como se perfumaram os sons,
como se coloriram as vozes,
como soletrei os teus dedos um a um
em toques de ternura
como me incendiaste os futuros
num simples bater de pestanas. 
Como tudo ficou no seu lugar...
No dia em que nasceste.
Celeste Pereira
2015-08-10

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Carta à mãe

mamã (3/4 anos)
Às vezes
apetece-me tocar o sol com a ponta dos dedos.
Sentir a respiração doce da luz
e colocá-la a distância nenhuma dos sonhos.
Às vezes, tantas vezes,
apetece-me abraçar com força
a inconstância das nuvens
e colocá-las docemente nas margens da vida.
Às vezes, muitas vezes,
apetece-me parar
à distância do voo das aves
e prender bem forte o arquejo da vontade.
Às vezes, quase sempre,
apetece-me soprar o pó das lembranças,
deitar ainda a cabeça no teu colo
e esquecer o restolho dos dias.

Celeste Pereira



2015-08-06

terça-feira, 4 de agosto de 2015

"The tree Of Life" de Gustav Klimt


Mergulho cada vez mais nas minhas memórias.
Deslizo o olhar para dentro e passeio
por entre as cornucópias das lembranças boas.

Espessam-se os ocres
que me olham num través sedutor.

Na lonjura dos sonhos vividos
enrolo-me em afagos mornos,
agasalho-me com sorrisos lentos
perdidos na topografia esquiva da alma


e escuto a respiração tépida das flores.