Era um passarinho muito colorido, de fartas penas, que saltitava no fundo de um elástico o qual prendi no puxador da porta da cozinha.
E que desconsolada que eu fiquei!
Foi sempre um dos brinquedos preferidos de todos os bebés felinos cá de casa e tu, chegaste-te próximo, cheiraste-o, olhaste-o com algum desprezo (foi o que me pareceu…) e viraste costas com toda aquela pose que te caracterizava já nessa altura.
O teu irmão, porém, mal viu aquele objecto ali ao dependuro, entregou-se afanosamente à árdua tarefa de o resgatar.
E abocanhava, e puxava, e esticava o elástico até não dar mais de si. Até que, não aguentando a força que tinha de fazer (era tão pequenito, ele!) o largava e retomava tudo desde o início.
Tu, esperavas sentada uns bons passos atrás e mirava-lo desdenhosamente, com pena até. Pelo menos era o que me parecia…
De repente levantaste-te, caminhaste decididamente até ao brinquedo, mantiveste-o parado com as unhas de uma patinha e, calma e eficientemente, com os dentes, cortaste o elástico e depositaste o “passarinho” em frente ao teu irmão que assistia atónito e sem coragem de interferir.
Retiraste-te depois, altaneira e indiferente e, tenho quase a certeza que apenas não abanaste a cabeça de incredulidade e algum desdém, creio, por mero pudor e educação.
Lembras-te? Como podias ter esquecido!
O Calvin (o teu irmão), esse, ficou estupefacto, absolutamente desolado e com ar de quem não entendeu coisa nenhuma. É certo que tinha o brinquedo ali mesmo à mão, perdão, patinha de semear mas a verdade é que este não tinha já metade da piada.
Ainda lhe deu uns empurrõezitos, umas cheiradelas, para te fazer o jeito julguei eu, mas rapidamente perdeu o interesse.
Tive pena dele. Tão pequenino que ele era. Lembras-te Carlota? Como ele dependia de ti para tanta coisa!
Querias ensiná-lo porém ele não estava preparado para aprender o que tu já tão bem sabias.
Amarrei as duas pontas do elástico com um nozito e lá refiz o brinquedo quase com a perfeição original embora um pouco mais curto.
E como ficou contente o Calvin!
Não tardaram dois minutos já ele se agarrava de unhas e dentes ao “passarito”, de penas amolecidas de tanta dentada, esticando o elástico até o perder... para de novo o ir buscar.
Mais uma vez chegaste à cozinha, apreciaste a cena durante uns breves minutos até que, com ar complacente mas professoral, voltaste a cortar o elástico com os dentes e depositaste o brinquedo junto do Calvin.
E eu, Carlota, lembras-te? fartei-me de rir e atrasei o jantar indefinidamente nesse dia . E que orgulhosa estava. Como eras esperta!
O Calvin voltou a não achar piada nenhuma, pareceu-me e, mais uma vez se desinteressou.
E a brincadeira repetiu-se várias vezes, que paciência!!!! até que já não tinha mais elástico para dar nó.
Ainda te lembrarias Carlota? Eu não pude nunca esquecer…