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quinta-feira, 19 de novembro de 2009

“Rapto na noite de Natal” Mary Higgings Clark e Carol Higgings ClarK


Que coisa mais aborrecida esta de habituarmos o nosso paladar literário a iguarias requintadas, àquilo que é verdadeiramente “exquisite”!!! É que depois, quando queremos ler um daqueles livros que sabemos à partida serem “ligeirinhos” mas têm a função de nos descontrair, de nos divertir enfim, não exigem muito quanto não temos muito para dar, e que habitualmente até costumavam saber bem….

Pois é, não sabem! Constata-se que, na realidade não sabem a quase nada.

Sentimos que provamos uma prosa corriqueira embora a mostrar um enredo engraçado, com relativa imaginação (convenhamos que no género policial/thriller, em termos temáticos já não há muito que inventar. Há é na forma de expor esses temas!), em relação ao qual vamos perdendo o interesse dada, como já referi, a forma como nos é servido e o expectável do que vamos encontrar. Enfim, sobretudo no início, é de uma insipidez deveras aborrecida.

A verdade é que depois de algum tempo a usufruir das iguarias literárias mais rebuscadas, passar para um prato fraquinho, sem quaisquer requintes de confecção… bem, custa um pouco.

Mas eu, que sou uma pessoa determinada, insisti. Até porque, o curioso no meio disto tudo, é que eu já li e até gostei de alguns dos livros da autora Mary Higgings Clark que aqui surge a escrever em parceria com a filha!

Divertiram-me, distraíram-me enquanto os lia. Ou seja, cumpriram a sua função no momento, dado que era para isso que eu os lia.

Bom, a verdade é que, como disse, li o livrinho todo até ao fim que eu cá não sou de deixar as coisas pela metade, e acabei por lhe achar até uma certa graça. É claro que se adivinha facilmente o fim, é também claro que há uns tantos romances que se desenvolvem pelo caminho… Até porque, digamos em abono da verdade, é o mais natural!

Em momentos de crise em que a própria vida ou a de entes queridos está em risco, a pessoa que é verdadeiramente pessoa, Apaixona-se!

Bom, mas afinal até cumpriu a função a que se destinava. Distraiu-me.

Já viram? Enquanto pensava nestas coisas todas estava completamente distraída! E mais, bem humorada!

sábado, 14 de novembro de 2009

“Morte no Retrovisor” de Vasco Graça Moura


Acabei de ler mais um livro de Vasco Graça Moura, cujo tipo de escrita, em prosa, descobri há pouco tempo, e é mesmo muito do meu agrado.

Este livro é constituído por vinte e dois pequenos contos em que o primeiro empresta o título ao livro.

Alguns deles, como esse primeiro, são inteiramente ficcionados desde as personagens ao enredo. Outros, nem tanto…

Todos revelam o estilo peculiar e o elevado nível de erudição do autor embora em diferentes registos linguísticos. Desde o discurso de literatos seiscentistas e oitocentistas até à mais contemporânea vulgaridade discursiva, todos podemos saborear, excelentemente reproduzidos.

Depois temos: os detalhes quase despercebidos que ocorrem aquando de um grande acontecimento histórico mas que aqui ganham o relevo da verdadeira história para a qual, a outra, não tem importância nenhuma tal é a ternura e a ingenuidade que emanam;

As personagens reais, de grande relevo, que se perdem nos amanhos ficcionados e comezinhos do dia-a-dia, alguns eivados da mais fina ironia;

A ópera famosíssima que serve de pano de fundo a uma tragédia doméstica;

A agente do KGB que se faz passar por natural de Mirandela enquanto exerce o cargo de porteira do Ministro da Defesa em Paris que, sempre a propósito do “frio”, a dada altura e depois de citar diversos autores diz “…Em Portugal é assim….a escola é exigentíssima. Mesmo lá nas berças, obrigam-nos a ler Camões desde os dez anos e toda a literatura francesa, de Roman de Renard a Philippe Sollers a partir da mais tenra puberdade.”

Enfim. Para todos os gostos sempre com a mesma qualidade.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Humana Tragédia

(Imagem: Diabo no nono círculo do Inferno de Gustave Doré)

Houvera eu ter tido a ventura de ter sido contemplada com estro equivalente ao de Dante Alighieri e os meus fieis, bem como os incautos, leitores ver-se-iam a braços com uma obra literária não menos infernal do que o seu próprio Inferno. O tal da comédia que o Divino inspirou.

É que anteontem passei grande parte da tarde e início da noite no Inferno!

Não. Acreditem que não estou a inventar nem tampouco a agigantar as palavras . Não alcanço designar de outra forma o ambiente que é vivido nas entranhas de uma unidade de urgência de um hospital público nestes dias em que vivemos.

Nem quero mesmo imaginar que aquilo a que eu assisti se passe em todos os serviços de urgência de todos os hospitais.

Mas, mesmo que assim não seja e apenas alguns sejam contemplados com tal horror, mesmo se assim for, só posso louvar a resignação, a paixão o arrojo, em suma, o espírito de missão de quem tem que labutar (com responsabilidades aditadas, dado que são vidas de pessoas que estão em causa, as quais nada têm de mais precioso), em semelhante babel.

É, de facto, uma verdadeira epopeia da qual o comum dos mortais, aquele que ainda não teve a necessidade e, por isso, a oportunidade de utilizar estes serviços, não tem nem a mais pequena consciência.

Eu atrever-me-ia a opinar que a entrada desses locais, ostentasse em espaço bem visível, algo onde se pudesse ler:

“Deixai toda a esperança, ó vós que entrais!”, tal como escreveu Dante no Portal do seu Inferno…

Direis que exagero! Respondo-vos que não.

Senão, cogitai comigo:

Corredores longos e estreitos onde se amontoam macas nas quais jazem corpos, sobretudo de anciãos, de olhos perdidos, esquecidos, na sua maioria sós, que nos olham sem nos ver. Uns, ligeiramente gemebundos, outros gritando alto a sua dor. Uns tartamudeando palavras ininteligíveis, outros, em silêncio, parecendo ter desistido da peleja.

A todo o momento as macas são puxadas, empurradas, desviadas, encostadas, afastadas a fim de que outras possam circular. Também essas com olhos de aflição, de dor, de abandono, de: socorro!!!!

A par, cadeiras de rodas, onde se encontram, também prostrados, corpos menos renunciantes, mais esperançosos, menos resignados com o infortúnio, ainda…

Os odores que as macas emanam, provenientes dos fluidos corporais e, não só, que esses olhos sofridos, envergonhados, pesarosos não conseguem reter são, apesar dos empenhos possíveis dos funcionários, nauseabundos.

São ainda aqueles que, embora padecentes, se aguentam em pé, encostados às paredes, ou sentados nas parcas cadeiras que se encontram em recantos que formam pequenas ilhas cujas pessoas são o que podemos encontrar mais próximo da normalidade, que vão ajudando com uma palavra de conforto aqui, um ajuste das costas da maca ali, um pedido de ajuda para aquela cama, se faz favor, o senhor está a esvair-se em sangue!!!

Exagero? Achais que sim?

E no meio de todo este inferno, repito, onde o ser humano se encontra despojado do seu decoro, da sua dignidade, carente, perdido, revoltado, intratável, belicoso… os profissionais de saúde, por vezes sem local recatado para observar as partes mais recônditas do doente, exercem, com grande dignidade a sua missão, quase sempre mal compreendida.

São médicos, não são deus. Tratam doentes, não fazem milagres!!!!

Fora eu um Botticelli, um Gustave Doré ou até mesmo um Dali, porque não, e teria adquirido inspiração para as mais negras, mas também as mais marcantes imagens da minha vida…

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Assim em jeito de tertúlia...


Pedro Lopes, como sempre no seu melhor... (Para quem vê, tocar até parece fácil!!!!)

Foi no domingo, dia 8 que, no Cube Literário do Porto, se deu início a uma série de eventos dinamizados pela Edita-me que têm como característica ser assim “uma espécie” de tertúlia.

Haverá pelo menos um autor convidado e a sua obra será posta em destaque e cavaqueada com o próprio autor ou autores.

É claro que eventos como estes vivem muito da participação da assistência, do seu conhecimento da obra e do autor ou autores e da interacção conseguida entre estas duas partes, faces diferentes da mesma moeda.

Eu estive lá.

Os autores convidados para esta primeira edição do evento foram Jorge Pópulo, autor do “Oráculo do fogo” livro que já tive oportunidade de aqui comentar como é meu hábito, e Luísa Azevedo com o seu livro de poesia “Pin- Uma explicação de ternura”.

Devo confessar que foi para mim uma agradável surpresa verificar o número simpático de pessoas que estava presente no Piano-bar num dia em que tudo convidadva a ficar no quentinho do lar.

Depois, conseguiu criar-se um ambiente de cumplicidade entre os autores e os leitores ou candidatos a leitores dos livros em destaque que proporcionou a todos quantos tiveram o privilégio de estar presentes, uma tarde entre amigos.

Como sempre, o editor/organizador, atento aos mais ínfimos pormenores, preparou-nos momentos que gozaram tanto do inesperado quanto do verdadeiramente bom e tiveram o condão de enriquecer grandemente o encontro.

Francamente gostei de tudo.

Houve bons momentos de discussão literária, mais ou menos aprofundada; leituras de textos belíssimos que foram, seguramente, apreciadas pela maioria; descrição e bom gosto nos detalhes que envolveram o evento.

Para mim, momento verdadeiramente alto, foi ouvir um poema do livro de Luísa Azevedo, já de si lindíssimo, cantado por alguém que, embora não ligado directamente ao mundo da música, o musicou e o interpretou de forma emocionante acompanhada ao piano pelo sempre presente e excelente músico Pedro Lopes.

Aguardo ansiosamente o próximo pois, se o primeiro foi assim, como serão os que se vão seguir uma vez que já irão beneficiar da boa experiência deste?

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

“Caim” de José Saramago


Era enorme a minha curiosidade em relação a este livro por diversas razões.

Em primeiro lugar, logo que ouvi falar, aí por meados de Agosto, que Saramago iria lançar um novo romance cujo nome era “Caim”, previ, tal como com o “Evangelho segundo Jesus Cristo” polémica acrescida para além da que já é mais ou menos habitual em relação aos livros de Saramago. Mais uma vez iria mexer com a instituição Igreja; pelo menos assim dava a entender o título…

Depois, agora por alturas do seu lançamento, não só se confirmaram as minhas previsíveis suspeitas como, o próprio autor, proferiu afirmações conducentes a agravar a contenda já adivinhada.

Logo a seguir se levantaram vozes vindas dos mais diversos quadrantes proferindo, elas próprias, afirmações tanto ou mais contundentes quanto as do autor.

Devo dizer que, no meu ponto de vista, algumas delas, além de evidenciarem um tom de agressividade semelhante ou até superior tinham em seu desfavor, por um lado a falta dos dotes de inteligência que o autor tem, é um facto, por outro a irreflexão de quem reage a algo de forma muito perturbada, com pouca ponderação.

Confesso que li também respostas bem dadas e que tocavam exactamente os pontos fracos das afirmações do autor embora, infelizmente, tenham passado talvez mais despercebidas pela sua serenidade.

Em boa verdade haveria alguém que não esperasse já estas ou outras afirmações semelhantes pronunciadas pelo autor?

Conquanto as considere evitáveis e, talvez até, exageradas no tom, para mim, eram mais do que certas…

Enfim! As afirmações do autor versus reacções da “oposição” cumpriram a sua função: Em dez dias de venda o livro atingiu a quarta edição!!!!

Por tudo isto, logo que acabei de ler “Que cavalos são aqueles que fazem sombra no mar” de António Lobo Antunes e para não estranhar muito a leitura uma vez que os considero a ambos artífices exímios no que concerne a esgrimir as palavras, dei início à sua leitura.

Pois bem. Encontrei um romance pequeno que li em dois dias.

Entendi-o como uma ficção literária, muito bem escrita (como, aliás, já é hábito) que nos agarra desde o início.

Começa com Adão e Eva no Jardim do Eden e as diversas peripécias até à sua expulsão. Vai continuando em toada ligeira, eivada de humor, até à morte de Abel às mãos de Caim.

Este, personagem central, vai-nos conduzindo no seu vaguear pelo mundo, pelos diversos “presentes” com que se vai deparando.

Esses presentes não são mais do que episódios diversos, ligeiramente ficcionados, em que as personagens são as da própria bíblia, alvos de grande análise crítica e, atrever-me-ei mesmo a dizer novamente, de sentido de humor, que nos são narrados no Antigo Testamento.

Todos eles revelam um deus caprichoso, intolerante, déspota e cruel, como qualquer pessoa que leia este documento considerado histórico (é através do Antigo testamento que ainda hoje se interpretam os vestígios arqueológicos da Mesopotâmia e se dá corpo a aspectos da sua História), sem o halo da crença, também o verá.

Os homens cumprem sempre a vontade de uma entidade toda poderosa, sem questionarem razões, por mais absurdas que elas possam ser, apenas para lhe agradarem sendo que o retorno, na maioria das vezes, não existe.

É um livro polémico, sem dúvida. Sobretudo para quem for crente. Mas, quero acreditar que mesmo esses, se forem honestos consigo próprios, serão levados a reflectir sobre algumas questões sem que contudo tenham que macular as suas crenças. Por outro lado, continuo a dizer, se conseguirem despir-se de preconceitos, julgo que não podem deixar de considerar o livro literariamente bom embora de leitura muito simples e apelativa.

A única coisa que realmente não me agradou muito e já tinha acontecido num outro livro do autor, foi o final. Penso que surge como um remate abrupto e fraco tendo em conta todo o conteúdo do livro. Dá a sensação que José Saramago chegou ali e pronto; não lhe apeteceu escrever mais.

Recomendo, obviamente.