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terça-feira, 23 de dezembro de 2008

"Sinto Muito" de Nuno Lobo Antunes


Acabei de ler e estou francamente encantada, emocionada e muito mais rica. Para além, devo dizer, de com muito mais respeito pelos médicos enquanto classe.

Nuno Lobo Antunes é médico neuro oncologista pediátrico, que passou muito tempo a exercer a sua profissão nos Estados Unidos e que agora, em Portugal, se dedica, sempre no campo da neurologia às doenças com deficit de atenção (autismo, síndrome de Aspergen…). Tive já o privilégio de assistir a uma palestra sua neste domínio.

O livro é uma compilação de pequenos artigos que o autor escreveu para a Lux, com outros, também, inéditos, que mais não são do que memórias da sua prática enquanto médico.

Contudo o que nos transmitem estes pedaços de confissões, são a dimensão emocional e humana do médico perante a sua impotência num caso de perda ou de um diagnóstico condenatório. É a sua relação com os doentes com os seus familiares e o seu grau de envolvência com a dor alheia, que é também a sua, que impressiona nestas pequenas crónicas.

De escrita muito simples mas muito cuidada, com momentos de verdadeira poesia, o autor vai juntando um pendor um pouco humorístico que nos permite abordar a gravidade do que é contado de uma forma suficientemente desdramatizada que nos permite continuar, e continuar, e continuar, sem ter vontade de parar nunca.

Para mim, considero um livro imperdível sem contudo pretender dizer que seja um livro literariamente espantoso. É bom.

sábado, 20 de dezembro de 2008

Ode a uma amiga muito especial!


É um momento estranho,

aquele que estás a passar.

É teres muita vontade de ir

e estares triste por não ficar.

Estás cansada, exaurida

do tanto que te é pedido.

Sentes uma raiva incontida,

uma dor, uma impotência,

sentes no peito, cingido

já a saudade da ausência.

É a escola que tu amas!

É o teu reduto, a tua “casa”!

E se de cansaço reclamas

tentando não sucumbir,

pelas colegas já chamas,

mesmo ainda sem partir.

É difícil o momento!

Direi mesmo inenarrável

Se já te falta o alento

e a dor é inefável,

também esse abrandamento

que vais ganhar com a ida,

essa resposta a um chamamento

que te faz a tua vida,

não a deves ignorar,

nem tentar esquecer-te dela.

É uma nova fase tua.

Uma etapa muito bela!

Em que poderás ser tudo,

aquilo que imaginares,

que quiseres, com que sonhares.

Podes ser uma Cinderela,

em vestido de veludo,

ou uma dama mais singela

que abraça um gato felpudo.

Seja qual for a tua escolha,

(podes até ser ambiciosa)!

Vive a vida, folha a folha

com a suavidade de uma rosa.

Donagata em 2008/12/10

(Imagem de Louis Wain "It brought me a tear into the eye")

Ontem, num jantar cujo prato principal era a emoção, tive o imenso prazer de ler este poema, procurando, com ele, traduzir o sentir de um grupo de pessoas que de mais perto lidou com essa AMIGA MUITO ESPECIAL que se jubila agora.

Embora ontem tivesse servido para traduzir o sentimento de um colectivo, não tinha sido esse o propósito que me levara a escrevê-lo.

Já o havia feito logo que, por linhas algo travessas, tinha sido conhecedora do seu jubileu.

Senti, nesse momento fluírem algumas palavras que não pude deixar de transpor ao papel. Era o mínimo que eu sentia que tinha de fazer por alguém que irá deixar um vazio que, quanto a mim, não será preenchido NUNCA!

Será substituída nas suas funções, provavelmente bem, mas ela, essa SENHORA, pairará sempre nos mais recônditos recantos daquela escola, já para não falar nos imensos espaços que ocupa no coração de todos os que tivemos o privilégio de com ela trabalhar. Insinua-se de mansinho, delicada, compreensiva, paciente e, quando damos por ela, já lá se instalou e criou o seu lugar para sempre.

Eu, que considero ter desenvolvido uma forte relação de amizade como ela (pelo menos pela minha parte foi. Espero não estar a ser abusiva, mas julgo que não. Estas coisas sentem-se, não se explicam!), já lhe sinto a falta!

Muitas felicidades e um bem-hajas por tudo o que és!

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Poemas de Natal- "Natal de 1971" de Jorge de Sena


Natal de 1971


Natal de quê? De quem?

Daqueles que o não têm?

Dos que não são cristãos?

Ou de quem traz às costas

As cinzas de milhões?

Natal de paz agora

Nesta terra de sangue?

Natal de liberdade

Num mundo de oprimidos?

Natal de uma justiça

Roubada sempre a todos?

Natal de ser-se igual

Em ser-se concebido,

Em de um ventre nascer-se,

Em por de amor sofrer-se,

Em de morte morrer-se,

E de ser-se esquecido?

Natal de caridade,

Quando a fome ainda mata?

Natal de qual esperança

Num mundo todo bombas?

Natal de honesta fé,

Com gente que é traição,

Vil ódio, mesquinhez,

E até Natal de amor?

Natal de quê? De quem?

Daqueles que o não têm?

Ou dos que olhando ao longe

Sonham de humana vida

Um mundo que não há?

Ou dos que se torturam

E torturados são

Na crença de que os homens

Devem estender-se a mão?

Jorge de Sena, Exorcismos