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domingo, 21 de setembro de 2008

Livros de Férias II "As Esquinas do Tempo" de Rosa Lobato de Faria


Fiquei terrivelmente satisfeita quando vi nos escaparates o novo livro da autora da qual sou fã, e comprei-o de imediato.

Li-o logo que terminei o que tinha em mãos e confesso, não sem alguma tristeza, que fiquei bastante desapontada.

Após a qualidade revelada no seu “Flor de Sal”, excelente obra, na qual revelava a maturidade plena da escritora que é, apenas consegui encontrar neste uma sombra dessa escritora.

Na realidade achei o livro muito aquém de quase todos os que conheço de Rosa Lobato de Faria (e creio que os li todos, mesmo contos inseridos em colectâneas).

Mais uma vez a autora joga com o Tempo, modelo que resultou perfeito no “Flor de Sal” mas que, aqui, resulta pouco. Na minha opinião, estas mudanças de tempo, acabam por se perder num labirinto de intenções sem que nunca se venha a conseguir uma coesão entre os vários tempos; talvez mais valesse contar três histórias distintas em três séculos distintos, sei lá…

Em termos literários também se me afigurou alguma desconexão na sua escrita. Pareceu-me haver um certo exagero na mistura de tons literários: escrita directa, discursiva, pragmática que, de repente, é interrompida por belíssimos trechos de prosa poética sem que se entenda muito bem essa amálgama de géneros. Na minha opinião, longe de beneficiar a narrativa, só a prejudica tornando-a fragmentada e dando até, por vezes, a ideia de a autora não ter, ela própria, encontrado o tom pretendido.

Também as personagens, para meu desgosto, são do mais estereotipado possível nas três épocas a que o livro se refere.

Enfim, lê-se com agrado, não é um mau livro mas fica muito aquém das expectativas que eu ainda tenho em relação à autora.

Considero que foi uma estreia infeliz na nova Editora que a representa.

sábado, 20 de setembro de 2008

Livros de férias I "Tejas Verdes" de Hernan Valdés



Livro muito interessante, não tanto pela sua qualidade literária a qual, na minha opinião, é modesta (percebi ao ler depois alguns excertos originais, que perde bastante na tradução), mas pelo importante testemunho que nos transmite, de um período da história do Chile que abalou todo o Mundo e derrubou as crenças ingénuas de muitos de nós que, à época, acreditávamos piamente na vitória da democracia: o derrube do regime de Salvador Allande por Augusto Pinochet e a sua Junta militar e os horrores subsequentes.

Livro de denúncia, importantíssimo na medida em que evidencia (situemo-nos na época, o livro é de 1974, agora não existem quaisquer dúvidas em relação ao que se passou) a existência de prisões sem sentido, ilegalidades diversas, torturas físicas e outras, desaparecimentos…

Escrito em linguagem bastante crua, adequada, aliás, ao conteúdo, descreve a prisão e os vários tipos de tortura a que o autor e muitos outros companheiros foram sujeitos às mãos dos militares liderados por Augusto Pinochet.

Neste campo de concentração, como em outros, os prisioneiros eram completamente aniquilados nas suas necessidades e vontades mais primárias e privados de qualquer laivo de dignidade.

É importante, de tempos a tempos, relembrarmos coisas que, felizmente, temos a capacidade e a tendência de esquecer…

A leitura deste livro trouxe-me à ideia um episódio ligado a este golpe militar que me deixou na altura e, devo confessar que ainda hoje me deixa completamente devastada. A prisão e morte do artista/cantor Vítor Jara.

Apanhado pelo golpe na Universidade é preso e levado com muitos dos seus alunos para o Estádio Chile.

Sofre sevícias várias sendo a destruição ou corte das suas mãos a mais marcante. Aplicada como castigo dos militares pelo seu labor artístico (poeta, cantor, músico, actor) e a sua influência e intervenção a esse nível.

É assassinado no dia 16 de Setembro de 1973 ou seja, cinco dias após o golpe embora o seu assassinato só mais tarde tenha sido reconhecido.

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

Voltei!

…e, quando já todos esfregavam as mãos de contentamento na inacreditável antevisão da minha desistência enquanto cibernauta, eis que origino a mais torpe das desilusões:

Voltei.

Na verdade a minha ausência deveu-se a uma conjuntura (não sei se é uma conjuntura, mas achei que é uma palavra gira, que já não utilizo há algum tempo e não desfeia a prosa) engraçada.

Em primeiro lugar vi-me privada de net durante dois dias e meio sem perceber porquê; tudo estava O.K. a verdade é que lá do ciberespaço, nada.

Finalmente lá acabei por descobrir (e não fui eu, claro) que um cabo de rede havia sido desligado e mal religado. Duas situações se colocam:

- Ou os meus animais (gatos e cão), insatisfeitos com o tempo de atenção que julgam ser-lhes escamoteado nestas minhas incursões pelos blogues, e num acto de vingança inqualificável, o desligaram, tendo depois sido atabalhoadamente enfiado lá num buraquinho pela minha empregada (que os defende sempre),

- ou, mais provável, aconteceu isso mesmo mas após um puxão mais estouvado aquando das “limpezas”por estes lados.

Resolvido o problema, saio de imediato para passar quatro dias, atentem bem: QUATRO DIAS INTEIROS, de férias.

Desses quatro, quase dois, passei-os a contemplar o mar da varanda da belíssima suite, qual Teresa de Albuquerque a esvair-se enquanto o seu Simão Botelho se esfumava Douro abaixo (desculpem, mas o meu estado de espírito, às vezes era parecido) … Enquanto isso, curtia uma trip de Aspirina (eu, não a Teresa) dado que fiquei com um vírus que é aquilo que a gente tem quando está muito enjoada, tem frio, depois calor, dores nos locais mais inacreditáveis do corpo, pouca força e, enfim, não se sabe lá muito bem que raio é. Ah, esqueci-me de referir um sintoma importante: uma vontade incrível de bater em alguém…

Sorte hein?!

Ao menos deu para ler…




(Imagem: "O gato" de René Magritte)

Bailarina


Abre o pano!

Surge luminosa no seu vestido de dançar.

Pose distinta, elegante!

Pernas suavemente flectidas,

bem visíveis, até um pouco oferecidas

e braços graciosos, que parecem flutuar.


Está feliz, pois vai dançar!

O seu rosto deslumbrante,

diáfano mas, provocante

Volta-se, tentador,

e é com discreta lascívia

que o seu olhar sedutor

incita em desafio o seu par.

Ouve-se a música!

E num impulso,

Começa a revolutear.

As pernas giram, os braços voam

Todo o seu corpo se quebra,

Se enrosca, se desdobra, se estende…

Num completo arrasar.

E , esquecidos de nós,

da cadeira em que nos sentamos,

do que ainda agora choramos,

vamos sendo convidados,

nesse seu doido voltejar

a viver o sonho, a paixão,

o que era impossível e agora não!


Donagata em 2008-06-30


Nota: quando escrevi este pequeno poema estava a pensar numa amiga que é uma grande bailarina. Obviamente o poema não lhe faz jus uma vez que o meu engenho a escrever não se compara ao dela a dançar.