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quinta-feira, 19 de agosto de 2010

“Niassa” de Francisco Camacho


Gosto, sempre que posso, de ler os novos autores que vão surgindo pois estou em crer que é neles que irá assentar o futuro da nossa escrita (obviamente) e tenho curiosidade em imaginar o seu rumo.

Por isso, mantenho-me normalmente atenta aos prémios literários que todos os anos são atribuídos. Devo dizer que, por regra, tenho tido surpresas deveras agradáveis com o que vejo surgir.

Desta feita foi a vez do romance “Niassa” de Francisco Camacho, vencedor do Prémio P.E.N. Clube Português para a categoria “Primeira Obra” em 2007.

Já o tinha cá em casa há muito para ler mas, tal como acontece a tantos outros, ia ficando em detrimento de alguns que, por uma razão ou por outra, naquele momento, se tornaram mais apelativos ou mais necessários.

Pois bem, o livro trata-se de um romance de estrutura extremamente simples; um indivíduo na casa dos trinta, residente em Cascais com um tio, com uma vida fácil e sem grande sentido que, a dada altura, decide ir em busca do seu irmão mais velho que havia ficado em Moçambique, tal como o seu pai e um outro irmão, aquando do processo de independência do país. Ele, muito jovem, (o mais jovem dos três)foi o único que ficou em Portugal não se podendo dizer, por isso, que tinha verdadeiras raízes em Moçambique.

Não se trata, por isso, de alguém que vai em busca das suas memórias. Não. Ele vai descobrindo o país ondenasceu à medida que o vai dando a conhecer ao leitor.

Bom, mas não me vou alongar na história. Deixo isso para quem for ler o livro. Apenas acrescento que o romance descreve uma viagem através de Moçambique até ao lago Niassa em que o personagem, sempre na primeira pessoa, nos vai descrevendo as pessoas, os locais, os horrores vividos por muitos, as suas histórias, a situação mais actual (que não deixa de ter os seus horrores), à medida que vai em busca do seu irmão desaparecido.

Utiliza uma linguagem simples, directa, talvez um tanto jornalística. Por vezes parece uma crónica de viagem mas outras vai muito mais além. Sem floreados estruturais sem planos justapostos ou contrapostos embora com alguns (poucos) recuos no tempo, torna-se um livro agradável de ler, ligeiro mas cativante. Quanto a mim, não tanto pelo enredo mas pela curiosidade em relação a um país que se mantém na nossa memória coberto de um véu de mistério.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Os Garamantes


Todas as imagens são de Garama a cidade antiga


Pois bem. Hoje, porque está mais um dia de calor acordei a pensar como seria viver no Sahara. É verdade. Dá-me assim para estas coisas vá-se lá saber porquê.
Ora, nada melhor para explorar um assunto do que falar com ou dos seus especialistas. Por isso hoje decidi falar acerca dos Garamantes.

E quem eram os Garamantes? Perguntarão os mais distraídos.

Aparentemente e juntando umas coisitas de que ainda me lembrava com outras que procurei para não sair uma grande asneirada uma vez que apenas pretendo efabular ligeiramente e não permitir-me a grandes desvios, tratou-se de um povo descrito quer por historiadores (Heródoto, por exemplo) quer por viajantes (Alexandre e os seus emissários…), que , há muuuuuiiito tempo (foram atacados pelo proconsul de África, Cornélio Balbo nos anos 21 e 20 a.C. a mando de Caius Iulius Caesar, vulgo Júlio César, ou teria sido Marco António? Bom, não interessa! Muito tempo, portanto.) habitou a África sahariana.


De origem berbere o povo Garamante estabeleceu-se, desde tempos imemoriais (diz-se que durante o primeiro milénio antes da era cristã) na área de Fezan e construiu, apesar das condições climatéricas adversas, um reino que constituiu a única entidade política sólida, reconhecida e prestigiada, no deserto sahariano entre o Egipto e a costa atlântica.
A sua capital era Garama e, daí, o rei controlava um extenso número de tribos que se espalhavam por um também extenso, se bem que desértico território salpicado de alguns oásis.

Embora considerado pelos romanos um povo de guerreiros do deserto, as evidências arqueológicas mostram-nos algo diferente.
Revelam-nos um povo adaptável às condições que se lhe ofereciam, próspero, que dependia, essencialmente, da agricultura.
Diz-se que também do comércio de bens que transportavam entre a Líbia e o Mediterrâneo. Contudo esta teoria não tem grande suporte em termos de documentação histórica ou de vestígios arqueológicos. Baseia-se apenas naquilo que, séculos mais tarde, aconteceu com os povos muçulmanos que aí se instalaram.

Sabe-se, porém, que cultivavam quase todo o tipo de cereais, vinha, oliveira, palma, algodão e vegetais. Desenvolveram também capacidades como o fabrico de cerâmica, metalurgia, vidro, extracção de sal e de pedras semi-preciosas.

Se é certo que esta zona, agora tão árida, o seria bastante menos no dealbar da era cristã, a verdade é que este povo construiu um sistema de irrigação, baseado em poços e condutas subterrâneas digno da mais moderna engenharia.


Procuravam lençóis de água subterrâneos e, a partir deles, canalizavam a água por um elaborado sistema de túneis, até onde necessitassem dela. Neste sistema conhecido por foggara os túneis iam tendo uma cota cada vez mais baixa do que a do lençol de onde provinham e a água era “empurrada” pelo próprio desnível.
Gente esperta! É que nem aquele sol todo a queimar a moleirinha lhe retirou ou afectou os neurónios…
Com este sistema, apesar da terra à sua volta ir secando cada vez mais, conseguiram aguentar uma evidente prosperidade julga-se que, pelo menos por mais um milénio…

Mas, tudo tem um mas, como os recursos hídricos não são eternos, também estes lençóis de água acabaram por esgotar e, com eles, a prosperidade evidenciada por este povo.


É até provável que, quando os romanos lá chegaram e, com dificuldades, acabaram por conquistar este povo, ele já não fosse mais do que uma pálida sombra do que tinha sido séculos atrás. Julga-se que os recursos hídricos terão esgotado próximo do final da era a.C. e, assim, serem descritos apenas como povos guerreiros do deserto…

E, tenho dito embora muito mais houvesse a dizer sobre este povo. E outros, claro. Só que agora não me apetece.

sábado, 14 de agosto de 2010

Até um dia...


Foi-nos ainda concedida mais uma noite contigo. Embora o não quiséssemos admitir sabíamos que seria a última. Sabia-lo tu, estava bem patente no teu olhar e sabíamo-lo nós.

Fizemos uma cama no chão, ao lado da tua, para te acompanhar neste momento difícil. Passámos a noite ao teu lado. Mais a Ana do que eu que, sem mesmo saber porquê, me senti completamente derrubada e incapaz de manter os olhos abertos. Merecias mais do que isso Carlota! Tu, a mais atenta das minhas gatas. A mais presente, a mais comunicativa, a mais senhora da sua vontade que era, na maior parte das vezes, a nossa…

Quando, já de manhã, vim para o teu lado, sofrias. Devias ter dores atrozes, porém, arrastavas-te ainda para a minha almofada para te encostares a mim enquanto eu não parava de te acariciar esse pêlo belíssimo até há tão pouco. E ronronavas… E eu chorava…E tu fitavas-me com esse olhar pungente. E eu decidia o que fazer. E chorava. E já me doía a saudade.

E a manhã foi crescendo e com ela crescia a angústia e a urgência.

Agora, ao meu colo, adormecida para sempre enquanto me olhavas (será que sentiste traição? alívio? medo? saudade? gratidão? nada?) e ronronavas e me olhavas e ronronavas até esse som ser apenas mera ilusão, não és mais que um corpo que faz lembrar a minha Carlota. A minha diva. A minha musa. Seguramente uma das gatas mais especiais que conheci.

Até um dia Carlota.

“O Manual dos Inquisidores” de António Lobo Antunes


Terminei hoje.
Já lhe sinto a falta. Sinto a falta, creio, da intensidade das personagens. Da forma como irremediavelmente sou agarrada e conduzida ao âmago de si (por vezes de mim também). Da forma como me vão revelando os seus segredos mais obscuros, os seus medos, os seus desamores, as suas perversões, também as suas alegrias, os amores… Mas a verdade é que ALA é magistral na construção de personagens de cariz mais obscuro. Conhece e explora, literariamente, os meandros da mente humana de uma forma inacreditável.

Mais uma vez a “história” nos vai surgindo fragmentada em tempo e espaço. Mais uma vez se entrelaçam, nos relatos das personagens (curiosamente o livro está estruturado em capítulos que tomam o nome de “relato” e/ou “comentário”) os vários presentes e os vários passados nos diferentes espaços. Mais uma vez vamos sendo conduzidos na construção do enredo final. Mais uma vez me encantam as nuances de uma escrita que percorre toda uma escala de registos do mais poético, quase musical, ao mais prosaico, mais popular, mais simples.

Como disse, já tenho saudades o que evidencia o prazer que tirei do livro. É redundante dizer que gostei.

Porém, neste “Manual dos Inquisidores”impressionaram-me sobretudo dois aspectos.
Por um lado o sarcasmo desmedido, cáustico, que encontrei nos relatos mais “naif” do livro. Rescendendo ingenuidade, são demolidoras as conversas acerca da “caridade” para com os pobrezinhos, os empregados, todos aqueles que se encontram numa escala social menos favorecida;
A indiferença,… Não! A naturalidade com que é abordada a tortura mais cruel nas mais cruéis prisões. Como tudo era fruto de humores de seres sem escrúpulos que exerciam arbitrariamente os poderes do Poder. E, mormente, lembrar-me, saber, que muito se passou assim…
O outro aspecto é recorrente. É a dificuldade imensa que todas as personagens têm em soltar as suas emoções sem as mascarar, sem as rodear, sem as disfarçar, sem as corromper. Isto mesmo até ao final…
Fantástico!
2010-08-10

sábado, 7 de agosto de 2010

A textura da tristeza


Talvez se fosse à praia,
talvez se ficasse a olhar a vastidão do mar,
talvez se admirasse as estrelas
reflectidas nas águas calmas
(porque assim as fantasio hoje),
conseguisse tornar menos espessa
a textura da tristeza que hoje me assola
e respirar.
Talvez que, se experimentasse dançar na areia,
embeber os pés na sua tristeza,
conseguisse encontrar a ponta dessa teia,
puxar devagarinho, puxar,
e torná-la bem fina,
com a consistência do sentir
de quem está a sonhar…

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Se os meus óculos falassem.

Este texto surgiu como resposta muito rápida ao repto que me foi feito pela minha amiga Branca, no Facebook.

Aqui fica, Branca, e espero não te defraudar...muito. Espero mais respostas, claro.





O que diriam os meus óculos se falassem

Se os meus óculos falassem… Ah! se os meus óculos falassem!

Bom, para o fazerem com a dignidade que possuem, disfarçariam o melhor possível aquela pequena corcunda na haste esquerda fruto das constantes viagens dos olhos para a cabeça, da cabeça para o decote, deste para o chão… para logo a correr se encarrapitarem novamente no nariz.
Esfregariam as lentes, disfarçadamente, no tecido da blusa, aquela sedosa, que não fere. E, só depois, a medo, falariam.

Eu sei que seria assim dada a sua nobreza, o seu saber o seu decoro.

E depois…

Depois falariam do amor que conhecem através das muitas histórias em que me acompanham noite e dia.

Falariam também de saudade, de tristeza, de solidão, sentires que andam sempre de mãos dadas com o amor.
Da amizade, da alegria, dos gatos, dos cães, do sol, do mar, das gaivotas, do rir, da chuva, da montanha, das flores, da neve, da noite, das estrelas…

Falariam ainda, já a querer embaciar, da sordidez das coisas e das pessoas, da maldade, do breu, do abandono, da velhice esquecida, da guerra, do desamor, do ódio, da miséria…

E, embora cansados, diriam ainda do pouco que conhecem, da ânsia enorme de, com os meus olhos como fundo, se fixarem, sem mais delongas, nas páginas do livro que tive de pousar.

domingo, 1 de agosto de 2010

“A Ordem Natural das Coisas” de António Lobo Antunes


Terminei a leitura deste livro há, seguramente, uma semana. Entendi necessário um tempo de reflexão sobre o mesmo antes de escrever a minha opinião.

Gostei muitíssimo do livro. Foi, talvez, dos de mais difícil compreensão mas também dos que mais me impressionou até agora.
Considero-me bastante ignorante no que diz respeito à obra de ALA sobretudo pelo muito que ainda me falta ler. Contudo, mesmo considerando os erros de opinião que possa cometer pela falha apontada (a qual estou a tentar colmatar lendo os livros que não li e relendo outros que já li há demasiado tempo, procurando fazê-lo numa lógica de cronologia de publicação), pareceu-me sentir neste livro um ponto de viragem. Pareceu-me mais aproximado das publicações mais recentes e, consequentemente, um pouco mais distante da quase linearidade dos primeiros.

Mesmo a mim me parece estranho, paradoxal até, chegar ao fim da leitura de um livro, completamente agarrada e com pena de ter terminado sem, contudo, ter a certeza absoluta de o ter compreendido inteiramente; de ter construído a história que o autor me desenhou…

Se alguém me contasse que tal lhe havia sucedido, provavelmente o meu conselho seria: - não percas tempo com isso. Parte para outra…

Pois, mas a verdade é que sucedeu comigo exactamente o contrário. A vontade de não me desligar daquela forma de escrita, do imenso volume que cada personagem ocupa valendo por si, pela sua riqueza, pela forma como o autor lhe desenha e redesenha (quase sempre) os passados atormentados, sórdidos até, como, no presente, lhes esmiúça o consciente e o subconsciente…

A força da escrita de ALA é para mim um desafio tal que me deixa quase impossibilitada não só de largar como de apreciar a calidez de outras (boas) formas de escrita. A maneira peculiar como organiza o seu discurso passando da mais bela ternura, da poesia, da análise profunda da mente humana, à mais prosaica linguagem do quotidiano, raiando a rudeza, o decadente, o grotesco e, sobretudo, o cáustico é, para mim, arrebatador.

Depois há o desafio de encontrar o fio condutor da história (existe?) e de tentar montar o puzzle com as peças que o autor nos deixa. Também, neste caso, difícil, reconheço. É que a sua narrativa é pejada de cortes, interrupções, saltos no tempo e no espaço que a tornam um entrecruzado de vidas difícil de desenredar e de acomodar.

Neste caso, apenas nas páginas finais do livro julgo ter conseguido organizar minimamente as tais peças do intrincado puzzle e montá-lo da forma que, julgo eu, o autor me indicava. Confesso, todavia, que há pormenores em relação aos quais não tenho bem a certeza… *

Porém, aquilo que para alguns poderá ser desencorajador para mim é, de facto, estimulante como desafio. E é de tal forma estimulante que, tão depressa terminei a leitura deste, dei de imediato início à leitura de “O Manual dos Inquisidores” tal era o receio de não me ajeitar a outro registo.

É assim Lobo Antunes…


*Depois de terminada a escrita desta “opinião” tive curiosidade e fui ler outras opiniões, recensões e críticas que surgiram nos meios de comunicação acerca deste livro e, curiosamente (mas não surpreendentemente), apercebi-me de leituras diferentes para o mesmo livro.
Apenas a título de exemplo; se para uns “o livro conta a história de duas famílias assoladas pelos passados de várias gerações”, para outros é a história “de uma família rica, residente na Lisboa dos anos sessenta, numa casa apalaçada na zona de Benfica…” Uma família? Duas famílias? E isso interessa muito?

quinta-feira, 29 de julho de 2010

"Poesia in Progress"


Poetisa, romancista, dramaturga e tradutora Fernanda de Castro estreou-se aos 19 anos com o livro de poesia Ante-Manhã. Vence nesse ano (1919) o Primeiro Prémio no concurso de originais do Teatro Nacional, com a peça Náufragos. Com o romance Maria da Lua (1945) foi a primeira mulher a obter o prémio Ricardo Malheiros da Academia de Ciências de Lisboa. Em 1969 é-lhe atribuido o Prémio Nacional de Poesia. Fernanda de Castro foi ainda tradutora de Rainer Maria Rilke (Cartas a um Poeta), de Katherine Mansfield (Diário), de Pirandello (Uma verdade para cada um) e Ionesco (O novo inquilino).


Mais sobre Fernanda de Castro aqui

domingo, 25 de julho de 2010

(In)Decisão

(Imagem de :William Kurelek)

Detesto o desamparo das indecisões.
Detesto mais ainda o que me trazem as decisões tomadas.
Detesto a convicção necessária para decidir.
Busco a coragem, essencial para poder ser indeciso.
Decido não decidir e tal decisão deixa-me frágil.
Detesto a fragilidade que me traz a decisão de não decidir.
Decidir é absolutamente detestável!

segunda-feira, 19 de julho de 2010

A Musa ao Espelho

Apenas porque hoje estive à conversa com Zé Carlos Tinoco, apeteceu-me recordar algo do muito que realmente de bom ele tem feito. Neste caso, na companhia do também amigo Juca que já não está entre nós a não ser pela sua obra.

Recordemos então e um bem -hajam!




(Espectáculo na Casa da Música)

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Jubilada!!!!!


(Imagem daqui)


Acordei hoje com a necessidade premente de pensar!!!! É verdade.
E sim, dói.
Comecei por reagir à dita compulsão mas, a verdade, é que não tive outra alternativa senão fazer a vontade ao quinto andar ou não teria mais sossego.

E eis-me, então, a reflectir!

Sobre o quê?!

Pois, esse é o segundo passo. Sobre o quê…
Depois de aturado momento de introspecção ( e, sem querer, vejam só, já estava a pensar…) decidi-me por efabular sobre a minha condição de aposentada, jubilada, reformada (whatever) e as diversas situações associadas à condição referida.

A verdade é que isto de uma mulher (quanto ao sexo oposto, não sei, falta-me o “saber de experiência feito”) ser aposentada tem muito que se lhe diga. É uma condição algo ingrata pela enorme trabalheira que dá.

É verdade que já não exercemos a actividade profissional que nos absorveu uma boa parte da vida (nunca menos de 35 anos). Levou-nos tempo, pensamentos, energia. Trouxe-nos preocupações, tristezas, alegrias, sucessos, fracassos…

É verdade também que podemos organizar os nossos horários da forma que melhor nos convém não estando amarradas a relógios de ponto, livros trancados e outras coisas simpáticas que nos podem acontecer quando obrigadas a um horário que não se compadece com atrasos de transportes, furos de pneus, febres de filhos, dores de barriga medonhas, enjoos matinais, preguicinhas inesperadas e inconvenientes, compras inadiáveis no supermercado porque a família exige refeições (o desplante!) e sei lá que mais.

Nada disso. Somos livres! Finalmente!

E é aí que então alguém (todos) pensa: - Ai são livres?! Oh p’ra elas ainda cheias de genica e sem nada para fazer!

Portanto há que lhes arranjar ocupação. Passar todo o tempo possível com os familiares idosos ou/e, nem que apenas hipoteticamente, doentes (que passa a ser uma obrigação e uma vergonha se incumprida), tratar com rigor de todos os assuntos domésticos dado que já não há justificação para esquecer nada, acompanhar, educar e obviar outras necessidades dos netos caso existam, ajudar os filhos em início de vida providenciando refeições, roupa passada e o que for necessário...

Parece-me bem referir aqui que a aposentação não inclui as actividades de dona de casa, mãe, esposa e outras afins. Essas, depois de adquiridas, acompanhar-nos-ão, tal como uma tatuagem, até ao leito de morte.

Ora bem, se a aposentada tiver ímpetos de escrita, de leitura, de dança, de se divertir até cair para o lado (tadinha! Já não sabe bem o que faz!), de ir beber uns copos com outras amigas aposentadas, está bem. Aceita-se (desde que cumpridas as tarefas atribuídas...). Afinal têm de fazer alguma coisinha ou não tarda nada é vê-la numa corrida ao Prozac…

Até inventaram umas instituições muito apelativas “Universidades Sénior”, locais onde aposentadas, juntamente com outras ainda mais aposentadas do que elas, podem concluir, complementar ou até iniciar estudos em diversas áreas (pintura, dança, teatro…) ou, somente divertir-se matando tempo antes que esse, o tempo, as mate a elas (sempre, nunca é demais referir, no intervalo das atribuições inerentes).

Há ainda aquelas que são excêntricas, desalinhadas e se colocam fora de todo esse circuito decidindo-se por actividades que sejam do seu agrado, com gente com quem lhes apraza estar, colaborando, (à maluca tantas vezes) com pessoas que trabalham e necessitam de apoio, procurando utilizar as suas ainda razoáveis competências de forma produtiva (não necessariamente remunerada), desenvolvendo outras que nem suspeitavam ter (ou suspeitavam mas faltava a coragem )…

Estas, de uma forma geral estão-se nas tintas para aquelas ocupações que outros acham tão importantes e lhes imputam.

Enfim, essas são as que gerem sozinhas (!!!!) a sua vida e, por vezes, tendem a dar um passo maior do que a perna e ficam atoladas de trabalho até ao pescoço.

Devo dizer que me insiro nesta estranha categoria. E, dou por mim com o tempo de tal modo ocupado que nem dá para acreditar.

Pois é. Lá se vão, por vezes, as obrigações domésticas que se colam a nós que nem carraças e todas as outras que já enunciei que nos vão acrescentando dada a nossa situação de aposentadas (afinal estamos ali sem nada fazer, é até uma obrinha de misericórdia dar-nos uma ocupação).

Pois meus amigos. Digo-vos eu que sei:
- Entre o que fazemos porque queremos e o que nos atribuem como função pelo facto de estarmos desobrigadas (?!),

não há nada mais cansativo do que ser jubilada….

quinta-feira, 15 de julho de 2010

“Comboio nocturno para Lisboa” de Pascal Mercier


Não conhecia o autor, nunca tinha manuseado o livro numa das minhas frequentes e intermináveis visitas às livrarias nem tampouco tinha ouvido falar dele.

Foi-me oferecido por um amigo muito querido que, aparentemente, lê muito bem os meus gostos, os meus interesses e necessidades intelectuais. Em boa hora, diga-se, pois constituiu para mim uma muito agradável surpresa.

O livro é um tratado de argumentos de cariz filosófico que nos vão obrigando, através das razões de outros, a completar as nossas próprias reflexões acerca da vida, da sua lógica, dos seus paradoxos, dos seus constrangimentos (impostos por nós na maioria das vezes).

Na forma de romance, temos um professor suíço, de línguas mortas (latim e grego) que, de um dia para o outro, decide dar uma volta de 180º à sua vida.
Tudo é despoletado pelo seu encontro numa ponte de Berna, onde ele passa, como habitualmente, todos os dia àquela hora, com uma mulher que, aparentemente vai tentar o suicídio. A mulher é portuguesa e ele entabula uma “conversa” com ela a qual acaba por vir a segui-lo até à faculdade, até à sua aula.

Gregorius encanta-se com a sonoridade da língua dessa estranha pedindo-lhe até para repetir a palavra “Português” vezes sem conta apenas para que lhe pudesse saborear o som:
o ó que ela surpreendentemente pronunciara como um u, a claridade crescente e estranhamente abafada do ê e o suave che final soaram-lhe como uma melodia que aos seus ouvidos perdurou muito mais tempo do que na realidade e que ele simplesmente gostaria de ter escutado durante todo o resto do dia”

Nesse mesmo dia, Raimund Gregorius depara-se com um livro de um escritor português (Amadeu do Prado, ficcionado), médico que é a gota que determina toda a mudança de rumo na sua vida. A quebra da sua rotina de tantos anos e o salto para o absoluto desconhecido.

Decide partir para Lisboa, local de origem do autor português e seguir-lhe o rasto encontrando-se com as personagens que o seu livro refere.

E assim nos vamos deixando transportar.
Entre excertos do “livro “ de Prado, autênticos mimos de cariz poético-filosófico, impressionantes na sua urgência, coragem e sinceridade e as palavras de Raimund, vamos percorrendo toda a vida de um e, talvez o período mais importante da vida do outro, tendo como pano de fundo uma Lisboa maravilhosa, de uma luminosidade única, beijada pelo Tejo com ternura. Porém, apesar da sua impressionante beleza, podem-se notar ainda as marcas, quiçá indeléveis, da sua herança fascista.

Recomendo vivamente.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Quarta-feira, dia 14, às 21h30

“BORDAR A VIDA” APRESENTADO NO LABIRINTHO BAR

Porque a vida é composta de um conjunto de imponderáveis,

devemos procurar tecer os pontos e os nós com que a vivemos,

aqueles a que nos é dado intervir, com toda a sensibilidade e mestria.”


Celeste Pereira


O Labirintho Bar apresenta, esta quarta-feira, dia 14, pelas 21h30, em mais uma “Noite de Poemia”, o livro “Bordar a Vida”, da autoria de Celeste Pereira, uma edição do selo edita-me.


Danyel Guerra fará a apresentação do livro bem como da autora.

As leituras estarão a cargo de José Carlos Tinoco, de Ruth Ministro, e da própria Celeste Pereira.


A sessão será musicalmente animada pela actuação do pianista Pedro Lopes.


No final, a autora (eu) estará disponível para autógrafos.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

História de Amor


Sentada no banco comprido de madeira escura,

igual aqueles em que na infância assistia à eucaristia,

estava.

À minha volta uma nave comprida, sóbria, fria,

estende os seus granitos.

E eu estou.

Apenas estou.

De súbito o arrepio começa e cresce.

Cresce como crescem os acordes dos violinos

ao introduzirem uma belíssima “Ave Maria”.

E permaneço.

Arrepiada, atónita, pareço acordar de um torpor.

E atento na causalidade dos sentimentos

(ou na sua casualidade, talvez).

Já não estou apenas, exulto,

sinto que tropeço numa intensa história de amor.

Um homem, uma mulher,

dois pares de olhos brilhantes,

cinquenta anos de magia e um sopro de eternidade.

Como gosto de histórias com final feliz!

domingo, 4 de julho de 2010


(Imagem de Anger)

Assim

Aquele dia, creio,
estava destinado a ser assim.
Ia-me amedrontar, ia reagir,
ia tentar ser eu, ia sorrir,
ia brincar, ia aligeirar,
ia ressacar, ia partir.
E, quando tudo acabasse,
Ia, sabia-o bem, ter pena de mim.

Como me detesto assim!

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Tempos de desassossego estes...


Terminado que está o período de ressaca, (a tal provocada pelo lançamento do livro que, digo-vos eu, nem imaginava que pudesse acontecer), passei a outro muito menos interessante, é certo, de mais cuidado, seguramente, mas nem por isso menos incapacitante e muito mais exigente: o de enfermeira a tempo inteiro.

É que, imaginem, a minha filha, criança para os seus vinte e sete aninhos, está com varicela!

Pois, é doença de infância é certo, mas não tenho culpa que, aqui por casa, as infâncias se prolonguem até idades tão serôdias.

É uma doença benigna, eu sei. Mas quando dá nestas infâncias tardias, também é certo que pode ser muito agressiva nos sintomas, bem como pode também transportar um “pacote” de problemas subsidiários dispensáveis por preocupantes.

E “esta praça”, em vez de se sentar aqui em frente ao seu portátil, a responder, toda babada, às muitas mensagens de simpatia de que tem vindo a ser alvo, não…

Ora controla a temperatura da criança (não vá o diabo tecê-las), ora fiscaliza a tosse e eventual falta de ar, ora pincela borbulhas com betadine (artisticamente, diga-se. Provavelmente a minha vocação verdadeira, mesmo a sério, está ainda por descobrir. Virei a ser body painter???), ora inventa apetites de refeições para a menina não enfraquecer mais ainda e, reparem só, ainda antes de tudo isto, providenciou com todo o seu saber o serviço de catering para uma semana de filmagens que a produtora de que a cachopa faz parte, está a concretizar lá para as bandas do Gerês e do Soajo.

E olhem que foi comidinha para os restantes sócios, actores, maquilhadores, técnicos de som e sei lá que mais…

E a menina…na cama. E mal que é ainda o pior…

E eu aqui. Preocupada, sem saber muito bem o que fazer, sem vontade (se não considerar esta de trepar pelas paredes…) para coisíssima nenhuma.

E “prontos”. Sai isto!