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sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Ó p’ra nós nos “média”!!!!

Até que enfim é dado o realce merecido a um clube e a uma editora que há já uns tempos têm vindo a desenvolver encontros entre autores e público.

Trata-se do Clube Literário do Porto que em parceria com a Edita-me desenvolvem no primeiro domingo de cada mês o “Clube de Leitores” que é uma espécie de encontro informal entre autores emergentes (muito importante este aspecto) e o público que se interessa por ler.

Realço os autores emergentes pela coragem demonstrada pela editora em trazer à ribalta autores que, de outro modo, teriam sérias dificuldades (seria mesmo impossível para a maioria) em penetrar nos circuitos editoriais.

É que editar quem já sabemos que vai vender, bom, não tem nada de mais, é a prática corrente, é sempre um risco seguro, passe a antítese. Os outros, os que ainda não tiveram oportunidade de mostrar o que valem, esses sim, constituem uma aposta à altura apenas de alguns.

O Carlos Lopes da Edita-me é, sem dúvida alguma, um desses ALGUNS!

As sessões são, como já disse, informais, divertidas e contam normalmente com a participação excelente de Pedro Lopes ao piano, ou não se realizassem elas no Piano-bar…

Têm, na minha opinião, vindo a crescer quer em qualidade, quer em número de pessoas que mobiliza.

O Clube Literário do Porto tem-se apresentado nestes últimos tempos com uma nova dinâmica que o põe na frente de muito do que se passa em termos culturais e não apenas no âmbito da literatura, na nossa cidade.

Ambos de parabéns e com merecido realce na Visão de 21 de Janeiro de 2010 de onde colhi as imagens que ilustram este texto.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

"Vacilantes rostos do passado" Crónica de hoje de António Lobo Antunes


Geralmente gosto bastante das crónicas de A.L.A. É quase ponto assente.

Contudo, ao ler a que saiu na Visão, hoje, mais do que gostar senti um arrepio.

Pela sua beleza, pela forma como fala dos “vacilantes rostos do passado” com aquela franqueza despudorada que o caracteriza,mas também pelo carinho que deixa transparecer. Pela confissão que faz acerca da forma como encara e analisa um livro, como o desmonta, interessantíssima. Pela antevisão de como será recordado quando ele, também, um rosto do passado…

Comovi-me, confesso, com esta leitura.

Como todas as outras, não percam também esta. É um pedacinho de ouro que temos oportunidade de manusear…

Ler aqui

Armadilhada!


Esclarecimento que se impõe. Este corpo que se vê na imagem não é o meu, vê-se pelo descuido no que respeita à depilação.... apenas o aparato é semelhante e é aquela coisa do braço que incha! É lindo de ver!!!!!

Meus amigos, encontro-me armadilhada. Tenho uma cinta no braço, uns fios colados entre o peito e as costas e um aparelho à cintura que apita a intervalos regulares. E é nessa altura que o meu braço começa a inchar drasticamente por sob a camisa e a produzir ruídos estranhos até que, num sopro lento, volta a diminuir o volume, terminando por fim os zumbidos.

É também nessa mesma altura que, embora dissimuladamente, pois finjo (e tento, a sério, tento mesmo) que não tiro os olhos do livro que mantenho aberto em frente a mim, muito bom por sinal, “A consciência de Zeno” de Italo Svevo, que observo os vizinhos de viagem (venho de Metro), sobretudo o que se senta a meu lado.

É de ir às lágrimas e, só com muita dificuldade e a ajuda do tal livro consigo não me desmanchar. É que o senhor fixa os olhos no braço os quais se vão arregalando ao mesmo tempo e na mesma medida que se vai produzindo o já referido inchaço. Julgo que, num acto reflexo, chega-se mais para junto da janela ou seja, distancia-se o mais possível de mim. Calculo que por momentos lhe passa pela cabeça que eu irei explodir. Sei lá… um qualquer elemento da Al Qaeda, em loiro, agindo contra o imperialismo norte-americano em pleno Metro do Porto. Porque não? Assim, tudo faz para aumentar a distância que nos separa o que consegue aí cerca de 6 a 7 cm.

Convenhamos que não é lá muito para quem, na minha imaginação, se julga em tão grande risco. Na certeza, porém, que foi o suficiente para me proporcionar uma posição mais cómoda…

A verdade é uma só. Embora visivelmente desconfortável, não perdeu a pose e não deixou o seu lugar até à estação onde, presumo eu, deveria sair. A qual, por acaso, apenas por acaso, foi logo a primeira onde parámos após o extraordinário fenómeno por ele observado.

Já da porta, ainda me lançou uns olhares desconfiados mas não teve qualquer outra atitude que me pusesse em risco.

Devo ter-lhe parecido pessoa de confiança embora…armadilhada, pronto!

Manhã insólita


Uma vez que, ultimamente, só aqui tenho colocado textos bastante tristes, escritos em momentos de grande fragilidade emocional seja por uma razão ou por outra, achei por bem contar-vos um episódio que revela apenas uma pontinha dos momentos fantásticos que estão reservados aos donos (ou súbditos, como queiram) de animais.
São momentos como este (e são tantos) que nos fazem suportar melhor um momento de perda e conseguir encarar a recordação com um sorriso nos lábios.

(Maicat's Carlota Joaquina de Sua Graça)

Foi numa manhã em que, como em muita outras me encontrava sozinha em casa e, com grande esforço e pouca vontade, tentava dedicar-me a detestadas tarefas domésticas, que algo insólito me aconteceu.

Claro está que dizer que me encontrava sozinha é, sem margem para dúvida, um eufemismo da minha parte quando, até para as mais básicas necessidades fisiológicas, sou acompanhada e supervisionada por alguns pares de olhos atentos não vá a coisa correr mal (o que aliás não seria caso inédito!)….

Obviamente que, dizer que me aconteceu algo de insólito, não é também nada de novo dado que sou a rainha das situações estranhas, raras, esquisitas, insólitas, chamem-lhe o que quiserem, mas julgo não acontecerem à grande maioria das pessoas.

Pois bem, estava eu, como já disse a arrumar a sala quando me pareceu ouvir vozes vindas de cima, não do além, desiludam-se, não, era mesmo do andar de cima.

Um tanto intrigada, subo as escadas e paro no hall dos quartos para ver se entendia de onde provinha o som que se tornava mais nítido à medida que ia subindo.

Percebi então que vinha do andar ainda mais acima (mesmo assim ainda não do além), onde tenho um grande escritório e guardo a maioria dos meus livros.

Subo novo lance de escadas e deparo-me com o televisor ligado. Estranhei, de facto, pois tinha andado ali por baixo a arrumar os quartos e não tinha ouvido nada até àquela ocasião. Bem, como contra factos não há argumentos, peguei no comando, desliguei a televisão e mimoseei os meus filhos, lá onde estivessem, com epítetos não muito abonatórios em função do seu descuido. Ponderei até a hipótese de serem accionistas maioritários da EDP sem que eu o soubesse.

Regressei ao que estava a fazer, já completamente alheada do sucedido. Depois de mais algumas tarefas concluídas e outras aldrabadas, pareceu-me que ouvia novamente barulho de vozes ou algo semelhante.

Aí, já sem delongas mas com maior estranheza, fui rápida e directamente ao escritório onde me confrontei com algo inacreditável; o televisor estava novamente ligado debitando um programa muito fraquinho que dava durante a manhã em que a estridência das vozes me parecia ser o factor mais destacável.

Parei, de comando na mão, começando mesmo a duvidar das minhas faculdades mentais. Então eu não tinha ido, talvez há 20, 30 minutos, desligar o televisor? Seria que o tinha desligado mesmo? O comando estaria a funcionar?

Da forma mais pragmática possível perante a situação há que testar o comando várias vezes, ligando e desligando o televisor, constatando que funcionava na perfeição. Pronto, pensei, julguei que desliguei mas distraí-me.

Regressei para baixo não sem antes verificar que, efectivamente, desta vez, ficava desligado.

Contudo algo me ficou a azucrinar o juízo pois eu tinha quase, quase a certeza de o haver desligado da primeira vez. Assim, fui-me mantendo ali pelos quartos a inventar coisas para não fazer, nem sei muito bem à espera de quê, diga-se.

Como nada aconteceu e já estava farta de andar a fazer que fazia, lá fui, desta feita à lavandaria que é no fundo do quintal, levar uma roupa para meter na máquina.

Logo que regressei não tive dúvidas. A televisão estava ligada e no auge da sua estridência!

Aí, confesso que comecei a não achar piada nenhuma. Mas, ainda deitando mão ao pragmatismo que me é inerente, subo os dois lances de escadas a correr pois, cá para mim, só podia ser alguém (algum dos meus filhos) que estivesse a gozar com a minha cara e, podem crer apanhá-lo-ia.

Chego lá cima esbaforida e, na verdade, além do televisor ligado e com o som em decibéis insuportáveis, das estantes com os livros, dos computadores, dos sofás, da aparelhagem de som, tudo objectos inanimados e que com muita dificuldade poderiam ligar o aparelho em causa, apenas se encontrava a Carlota confortavelmente esticada a dormir no sofá.

Já bastante apoquentada com a minha sanidade mental, desligo a coisa e desço bastante intrigada. Que raio de avaria seria essa que só se manifestava se não estivesse presente? Sim, porque me mantive lá um bom bocado para confirmar que aquilo ficava desligado.

Reconheço que estava deveras preocupada comigo mas, contudo, não inteiramente convencida. Deixei-me ficar algum tempo, em silêncio, no fundinho das escadas que são daquelas em caracol, portanto bem abertas, para ver se percebia o que se passava, se é que era para perceber…

Às tantas, já cansada de estar ali e julgando aperceber-me de um ténue ruído, subo o mais silenciosamente possível e, logo que, ainda a meio das escadas, tenho uma perspectiva do local dos acontecimentos, vejo a cena mais caricata, mais estranha e mais cómica que poderia imaginar:

A Carlota (que gosta pouco de silêncio, é verdade,) caminhava diligentemente para lá e para cá sobre o comando que havia sempre ficado no sofá (local onde habitualmente está) ao mesmo tempo que ia olhando para o televisor esperando o desejado efeito. Eu, de queixo caído até ao umbigo, quedei-me no lugar onde estava prevendo já o que iria acontecer.

E não foram goradas as minhas expectativas. Tanto se passeou sobre o comando, ora para lá, ora para cá que, finalmente, lá conseguiu acertar com as patas no botão ou botões necessários para ligar o tão pretendido barulho tendo, de seguida, voltado a estender-se na posição em que sempre a havia encontrado.

Acabei de subir a escada dizendo em voz autoritária: Carlota! Que raio de coisa te deu agora para fazer que quase me dava uma coisinha má?! Parece impossível!

Ela olhou-me do alto da sua indiferença de felina e também da superioridade, sobranceria até, que o próprio nome lhe confere (Carlota Joaquina) e pouco mais fez do que “arrulhar” mansamente voltando a fechar os olhos como quem diz : deixa-me em paz. Já que hoje não paras, deixa-me cá com a companhia que arranjei.

E a verdade, se querem saber, é que me rendi à sua vontade. Não só a deixei com o programa que havia escolhido como me sentei ao seu lado a ler e a fazer-lhe companhia. Bom pretexto, diga-se, para me eximir dos tão aborrecidos afazeres domésticos.

Afinal a Carlota é que estava certa…