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quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Crónica de uma ida para a praia nas férias grandes (1958)

Aviso:
O texto é grande. Quem não se achar com coragem será melhor nem começar. Mas como eu não gosto de ler textos fraccionados, fico em ânsias, entendi por bem colocá-lo todo de uma vez. Não vos quero ansiosos/as...


Estação dos caminhos de Ferro à época. Agora já não há comboios desde 1990, altura em que encerrou a "Linha do Corgo"


Pois é. Vou-vos falar do tempo em que era pequenina mas tinha umas férias grandes. E não eram apenas grandes, eram algo de muito especial que requeria uma preparação e uma cumprimento rigoroso e, para mim, infindável.

Tudo começou aí pelos meados de Julho, quando o Verão já ia quase a meio. E que Verão! É que em Trás-os-Montes, lá diz o ditado, são nove meses de Inverno e três de inferno. Aqui em Chaves a coisa era mais amena. Nem os invernos eram tão rigorosos, nem os Verões tão infernais. Mesmo assim eram muito quentes. Lá íamos até ao açude refrescar, ou para outros locais do rio como a azenha. A água do rio, apesar do calor, era sempre gelada. Mas nós, os pequenos, não dávamos por isso.

Bom, mas isto era apenas enquanto não íamos de férias.

A dada altura começaram as preparações. E lá saiam as malas do sótão (do terrível e escuro sótão), cheias de pó e teias de aranha, para serem limpas e lá serem colocadas todas as roupas e outros artigos de que iríamos necessitar no tempo em que estaríamos no Porto. Mais propriamente em Matosinhos.

Cheias as malas e eram daquelas que não tinham rodinhas (acho até que eram em cartão), no dia seguinte lá apareceu a Lurdes, uma empregada (criada, assim se dizia) nossa, que ajudou a transportá-las para a Estação dos caminhos-de-ferro. É que nessa altura não havia automóvel e a viagem era feita de comboio.

Nesse ano o meu pai foi connosco pois a minhae estava grávida do meu irmão do meio e lá fez coincidir as férias dele com a ida para a praia.

Foi a vez de ficarem os meus avós.

Para mim começou por ser uma aventura muito agradável e muito excitante. Porém, com toda aquela azáfama, não sei se iria terminar muito bem aqui para o meu lado.

Acordámos ainda a manhã prometia chegar.

A minha avó, como habitualmente, quando ficava, tinha sempre uma grossa lágrima no canto do olho, melhor dizendo, um rio delas, e abraçava-nos muito enquanto ia deitando uma mãozinha tentando ajudar (conseguindo só complicar) porque a minha mãe se atrasava sempre.

O meu avô, que ouvia mal, andava por ali e ia repetindo compassadamente: - Disseste alguma coisa, Alice? Eles já viram as horas? O comboio não espera!

Lá fomos numa grande pressa para a Estação, que era longe, sempre com medo de perder o comboio (só havia um, nem sei bem se todos os dias). Cada um lá se ia lamuriando à sua maneira e pelas suas razões. A minha mãe sempre maldisposta pois detestava (e ainda detesta) ter de se levantar cedo e, se calhar, penso agora, aquelas indisposições próprias da gravidez também não ajudavam lá muito... A

minha tia ia de cenho franzido pois não tinha conseguido levar todas as toilettes que queria exibir perante as primas. E o meu pai cheio de paciência…Bem, só vos digo, era um cortejo digno de ser visto. Claro está que sobrava sempre para mim, a mais pequena. Ora porque não andava suficientemente depressa, ora porque já levava a trança sem laço, ora porque já tinha as mãos todas sujas de as passar nos muros… Sei lá! As razões eram tantas! Mas o que eu queria era ver-me dentro do comboio. Aí sim, começaria a aventura.


Chegámos à estação e o comboio lá estava. Uma máquina preta e fumegante à qual se atrelavam umas carruagens, julgo que pintadas de verde, se não me falha a memória.

Lá içaram as malas todas, também me içaram a mim, pois não chegava aos degraus. O meu pai ajudou a minha mãe e lá nos acomodámos nos bancos de madeira que as carruagens ostentavam. Eu queria ir à janela. Mas, à janela, era em cima do banco com a cara do lado de fora da janela que era de guilhotina. Começaram por não me deixar, era até perigoso, mas depois de bem massacrados todos os familiares, o meu pai lá me colocou exactamente como eu queria agarrando-me bem as pernas. É claro que não tardaram cinco minutos já eu estava aos berros pois tinha-me entrado uma faúlha num olho provocando uma sensação muito incómoda e até dolorosa. Os comboios eram a carvão!

Eu berrava e contorcia-me enquanto a minha mãe tentava com a pontinha de um lenço, retirar-me o corpo estranho do olho, ao mesmo tempo que ia resmungando com o meu pai dizendo-lhe que tinha menos juízo do que eu; que se estava mesmo a ver que era isso que iria acontecer. E eu, cada vez berrava mais. A minha tia tentava o mais possível fazer de conta que não tinha nada a ver com semelhante rebuliço.

E assim fomos, devagarinho, devagarinho, levando horas que a mim me pareceram dias até chegar à Régua. Penso que devemos ter levado farnel para comer pelo caminho pois a estopada era longa. Mas, a verdade é que não me lembro.

A Régua já era outra coisa!

Para mim, uma imensa confusão de pernas, barulhos, locomotivas diferentes, malas a serem retiradas dos suportes por cima dos bancos e eu sem saber muito bem o que fazer.

Tínhamos que fazer transbordo passando para outro comboio muito mais moderno. O primeiro só podia ir até ali porque era para andar em via reduzida (e muito lenta, devo acrescentar). A partir dali era já via larga o que exigia máquinas com outros requintes tecnológicos.

Fiquei fascinada com o aspecto daqueles comboios o que me distraiu um pouco de toda aquela balbúrdia. É que eram mesmo muito maiores e bem mais bonitos.

Lá vai a família de malas e bagagens. O papá a arrastar umas, a mamã outras e a titi com a dela de um lado e eu, pela mão, do outro, não fosse perder-me no meio do tumulto. Finalmente lá nos transferimos para uma carruagem do comboio onde iríamos prosseguir. Muito maior e mais confortável.

Entretanto eram as vendedeiras de rebuçados da régua que deambulavam em torno dos passageiros apregoando as cobiçadas guloseimas e era eu a pedir à minha mãe que me comprasse daquilo. Não sabia se gostava, mas era doce…

Havia também mulheres com bilhas de barro a oferecer água fresca. E se era fresca… E eu sempre a querer de tudo!

Depois de muita confusão, lá se ouve o apito da partida e lá demos início à nova etapa. Aí, devo confessar que já ia tão exausta que acho que adormeci a maior parte do tempo.

Lembro-me, vagamente, de ouvir, em Valongo (sei-o agora), o pregão das vendedeiras de regueifa, que comprámos e, quando dei por mim, era de noite e estava a minha mãe a acordar-me pois estávamos a chegar a S.Bento, a última estação já em pleno coração do Porto. Íamos sair.

Saímos todos, com um ar bastante amassado, devo dizer, e, no que me dizia respeito, já sem metade da excitação que me movia pela manhã. Tinha sido um dia inteirinho no comboio e sentia-me cansada e cheia de sono.

Agora era apenas necessário chegar a Matosinhos.

Íamos para casa da minha avó Alice. A que tinha ficado em Chaves. Tinha aqui nascido e aqui mantinha a casa onde ainda vivia uma irmã. Era lá que ficaríamos e que sempre ficávamos todos os anos.

Saímos do comboio. E mesmo completamente sonolenta, ainda consegui ficar deslumbrada. Quantas pessoas! Tantas como eu nunca tinha visto! E os comboios?! Tantos! Quando eu julgava que havia apenas aquele em que viajara! Era o tamanho da Estação. Nunca tinha visto um edifício tão grande e tão bonito! Era toda aquela confusão que me deixava entontecida. Era eu a querer manter os olhos abertos e eles a fecharem-se enquanto repousava a cabeça no ombro do meu pai que me levava ao colo…


E aí, de repente, já estava sentada na areia dourada da praia, com o meu baldinho e a pá feitos em lata e pintados com lindos bonecos. Na cabeça usava um chapéu lindo e comigo estavam os meus primos, que não conhecia, e que comigo usufruíam da liberdade de estarmos soltos na areia e podermos fazer absolutamente tudo o que nos apetecesse sob o olhar atento das nossas mães.

Era um sonho, é certo. Mas no dia seguinte que chegou sem que eu desse conta, tornou-se a mais alegre das realidades. Estava na praia.


terça-feira, 4 de agosto de 2009

“Barroco Tropical” de José Eduardo Agualusa

Livro que comprei logo que pude e, tal como alguns que já referi, teve o privilégio de “saltar” para a frente da fila dos que aguardam a sua vez para serem lidos.

E se valeu a pena!

José Eduardo Agualusa, desenvolve neste seu livro, com invulgar talento mesmo para quem conhece um pouco da sua obra, uma história fantástica.

Fantástica pelo seu enredo que não é bem um enredo mas sim um conjunto de pequenas histórias, algumas de natureza étnica e tradicional, que suportam e estruturam a história “maior”. Fantástica pelo recurso ao fantástico, ao onírico, ao esoterismo, a anjos negros…

Tudo se vai passando numa Luanda do ano 2020. Mas ao lermos, vamos ficando com a ideia que é da Luanda de hoje que se trata, ou um decalque desta; anárquica, contraditória, corrupta, terra de contrastes e de paradoxos, onde coexistem o sonho e o desesperança com a mais despudorada realidade. A Luanda que todos julgamos saber (falta de confiança do autor?).

Utiliza uma escrita simples se bem que, por vezes, utiliza recursos linguísticos “barrocos” como a antítese, o oximoro, a hipérbole e a metáfora. Mas, quando o faz, quase sempre utiliza um parêntesis justificativo, como autor. Aliás utiliza parêntesis explicativo em várias situações e com funções diversas. Um recurso deveras interessante.

As personagens são várias e variadas e são-nos apresentadas uma a uma no início com a respectiva importância na história.

Todas extremamente bem caracterizadas, sobretudo as de maior relevância para o desenvolvimento e desfecho da narrativa. E temos modelos, prostitutas, cantoras, pessoas sem rosto que usam uma máscara, ministros, militares, curandeiros de grande influência e um escritor (quiçá um pouco o alter-ego de Agualusa?) que é ao mesmo tempo a personagem principal e o narrador. Esta segunda função partilha-a em parte com a outra personagem mais destacada, esta feminina, quando nos vão narrando os acontecimentos à vez, cada um em seu capítulo, que dão corpo à história.

É um livro que nos vicia e não queremos largar.

Excelentemente escrito. É espantosa a forma como nos conduz de um episódio francamente humorístico e ligeiro a outro de pendor profundamente dramático.

Obra excessiva que não fez mais do que confirmar Agualusa como um dos meus (muitos, é verdade) autores favoritos de língua portuguesa.


segunda-feira, 3 de agosto de 2009

O Sol do meu jardim

(Imagem: "Gato com sol" de Aldemir Martins)

Experimento o sol radioso que se alonga pelo meu jardim.

Envolve-me a pele do rosto, dos braços, das pernas

e sinto que me acaricia de forma urgente, inadiável,

sem subtilezas, finuras ou rodeios. Escaldante.

Eu, deixo-me consumir neste amargo-doce

e desprendo-me de mim.

Curiosidades que não interessam a ninguém mas eu gosto

(Estes são meus. nasceram cá em casa. Filhos da minha saudosa Fiona!)

Homens e gatos possuem a mesma região do cérebro responsável pelas emoções. (Eu sabia…)

• O cérebro do gato é mais parecido com o do homem do que com o do cão.

• Os gatos possuem 32 músculos que controlam as suas orelhas. Podem girar as suas orelhas, independentemente uma da outra, a quase 180 graus. (Às vezes dava-nos cá um jeito! Quando queremos ouvir aquela fofoca mas estamos distantes…)

• A audição dos gatos é muito mais sensível do que a dos homens e cães. Seus ouvidos afunilados, canalizam e amplificam os sons como um megafone.

• Os gatos ouvem até 65 khz (kilohertz), enquanto que os homens ouvem até 20 khz. (E presumo que esses kilocoisos todos sejam uma coisa boa de se ter. Nunca os notei preocupados ou aborrecidos com isso.)

Em proporção ao corpo, os gatos são os mamíferos que possuem os maiores olhos. ( E lindos!)

•O gato vê 6 vezes melhor do que o humano à noite, porque necessita de 1/6 da quantidade de luz necessária ao homem para ver. (Isso às vezes dava cá um jeito. Olhem só a energia que se poupava. Por outro lado lá ia a EDP à falência…)

• Recentes estudos revelaram que os gatos podem ver o amarelo, azul e o verde. Ainda não se sabe ao certo, se conseguem ver o vermelho, provavelmente essa cor é vista como cinza ou preto. (Inteligentes os bichinhos. Reparem que podem ver o amarelo, o verde e o AZUL. O vermelho, não é certo. Não é que eu queira insinuar nada com isto. Mas factos, são factos.)