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domingo, 14 de junho de 2009

“Casos do Beco das Sardinheiras “ de Mário de Carvalho


Ontem, nas viagens de metro que me levaram e trouxeram de um evento lindíssimo de homenagem a Fernando Pessoa (nasceu a 13 de Junho dia em que se comemora o Santo António embora não seja certa a data de nascimento de Fernando de Bulhões), li o livro “Casos do beco das Sardinheiras”.

Não podia ser mais a propósito. Em dia de Santo António, Mário de Carvalho presenteou-me, na sua escrita de tal modo versátil que é difícil de caracterizar, com um conjunto de episódios passados no tal Beco que se situa, não se sabe muito bem, se ainda em Alfama se já na Mouraria.

Com um tipo de escrita muito bem-humorada vai desenrolando episódios no mínimo insólitos e efabulados (escanifobéticos!) que vão ocorrendo naquele Beco com as suas gentes.

Utiliza para tal a linguagem típica e picaresca dos habitantes do bairro, eles próprios fruto de uma colorida imaginação mas que contêm na sua génese as características próprias dos naturais de um bairro típico lisboeta.

Gostei muito. De leitura fácil, é, no entanto, muito agradável e, literariamente de qualidade.

Curioso o epílogo em que o autor, enquanto autor, recebe em sua casa uma delegação de moradores do Beco pedindo-lhe para continuar a contar os muitos episódios que faltam ainda.

E aqui o autor responde: “ – Meus caros, vejam lá se compreendem uma coisa. Um autor tem que se defender, estão a perceber? Eu cá fiz estas histórias porque simpatizo convosco, mas não podem exigir-me muito mais……… É que isto da literatura, meus amigos, tem os seus pergaminhos, a sua dignidade: A-dignidade-do-discurso-literário. …. Sabem o que ganho com isto, sabem? Pois bem: vão-me chamar um escritor menor, vão-me acusar de estar para aqui a fazer literatura de miuçalha, de facilidade, de pechisbeque, de cutiliquê, literatura patchuli, literatura pataqueira, hã? E se calhar até lhes dou razão. Só que eu não tenho culpa que vocês me tenham assaltado os sonhos…”

Interessante, não? Este descritivo dos tipos literários. Esta divisão entre literatura maior ou menor conforme o tema que nos assalta os sonhos…

sábado, 13 de junho de 2009

Em Dia de Santo António, uma "homenagem" de Fernando Pessoa

É grandito mas vale a pena ler.

Apreciar a fineza de humor do poeta que não ficou conhecido por ser humorista embora tenha sido quase tudo...

(Imagem: "Santo António encontra S. Paulo" por Stefano di Giovanni, il Sasseta)

SANTO ANTÓNIO

Nasci exactamente no teu dia —

Treze de Junho, quente de alegria,

Citadino, bucólico e humano,

Onde até esses cravos de papel

Que têm uma bandeira em pé quebrado

Sabem rir...

Santo dia profano

Cuja luz sabe a mel

Sobre o chão de bom vinho derramado!

Santo António, és portanto

O meu santo,

Se bem que nunca me pegasses

Teu franciscano sentir,

Católico, apostólico e romano.

(Reflecti.

Os cravos de papel creio que são

Mais propriamente, aqui,

Do dia de S. João...

Mas não vou escangalhar o que escrevi.

Que tem um poeta com a precisão?)

Adiante ... Ia eu dizendo, Santo António,

Que tu és o meu santo sem o ser.

Por isso o és a valer,

Que é essa a santidade boa,

A que fugiu deveras ao demónio.

És o santo das raparigas,

És o santo de Lisboa,

És o santo do povo.

Tens uma auréola de cantigas,

E então

Quanto ao teu coração —

Está sempre aberto lá o vinho novo.

Dizem que foste um pregador insigne,

Um austero, mas de alma ardente e ansiosa,

Etcetera...

Mas qual de nós vai tomar isso à letra?

Que de hoje em diante quem o diz se digne

Deixar de dizer isso ou qualquer outra coisa.

Qual santo! Olham a árvore a olho nu

E não a vêem, de olhar só os ramos.

Chama-se a isto ser doutor

Ou investigador.

Qual Santo António! Tu és tu.

Tu és tu como nós te figuramos.

Valem mais que os sermões que deveras pregaste

As bilhas que talvez não concertaste.

Mais que a tua longínqua santidade

Que até já o Diabo perdoou,

Mais que o que houvesse, se houve, de verdade

No que — aos peixes ou não — a tua voz pregou,

Vale este sol das gerações antigas

Que acorda em nós ainda as semelhanças

Com quando a vida era só vida e instinto,

As cantigas,

Os rapazes e as raparigas,

As danças

E o vinho tinto.

Nós somos todos quem nos faz a história.

Nós somos todos quem nos quer o povo.

O verdadeiro título de glória,

Que nada em nossa vida dá ou traz

É haver sido tais quando aqui andámos,

Bons, justos, naturais em singeleza, Que os descendentes dos que nós amámos

Nos promovem a outros, como faz

Com a imaginação que há na certeza,

O amante a quem ama,

E o faz um velho amante sempre novo.

Assim o povo fez contigo

Nunca foi teu devoto: é teu amigo,

Ó eterno rapaz.

(Qual santo nem santeza!

Deita-te noutra cama!)

Santos, bem santos, nunca têm beleza.

Deus fez de ti um santo ou foi o Papa? ...

Tira lá essa capa!

Deus fez-te santo! O Diabo, que é mais rico

Em fantasia, promoveu-te a manjerico.

És o que és para nós. O que tu foste

Em tua vida real, por mal ou bem,

Que coisas, ou não coisas se te devem

Com isso a estéril multidão arraste

Na nora de uns burros que puxam, quando escrevem,

Essa prolixa nulidade, a que se chama história,

Que foste tu, ou foi alguém,

Só Deus o sabe, e mais ninguém.

És pois quem nós queremos, és tal qual

O teu retrato, como está aqui,

Neste bilhete postal.

E parece-me até que já te vi.

És este, e este és tu, e o povo é teu —

O povo que não sabe onde é o céu,

E nesta hora em que vai alta a lua

Num plácido e legítimo recorte,

Atira risos naturais à morte,

E cheio de um prazer que mal é seu,

Em canteiros que andam enche a rua.

Sê sempre assim, nosso pagão encanto,

Sê sempre assim!

Deixa lá Roma entregue à intriga e ao latim,

Esquece a doutrina e os sermões.

De mal, nem tu nem nós merecíamos tanto.

Foste Fernando de Bulhões,

Foste Frei António —

Isso sim.

Porque demónio

É que foram pregar contigo em santo?

Fernando Pessoa: Santo António, São João, São Pedro. Fernando Pessoa. (Organização de Alfredo Margarido.) Lisboa: A Regra do Jogo, 1986.

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“O prazer da leitura”


Li ontem um pequeno livro editado pela FNAC em parceria com as Edições Teorema com vista a comemorar o Dia Mundial do Livro em 2009.

É uma colectânea de contos de cinco autores portugueses (Richard Zimler, de origem norte-americana, naturalizou-se português em 2002 e vive no Porto (claro)) que, na minha opinião, traduzem parte do que melhor se faz por cá.

Começa com um texto de Walter Hugo Mãe, esplêndido, dentro do seu registo habitual, explorando um mundo rural, ao mesmo tempo ingénuo e agressivo e vai continuando com Jacinto Lucas Pires também dentro do seu tipo de escrita um texto que tem tanto de insólito como de arrebatador; imaginem alguém que aperfeiçoa ao limite a técnica de roubar livros nas livrarias... E o resto que se segue.

Segue-se Patrícia Reis que eu não conhecia mas, após a leitura deste pequeno texto comovente na sua realidade, me deixou com grande curiosidade em relação à sua escrita. Jorge Reis Sá, outro autor ainda desconhecido para mim, que apresenta um trabalho que tem tanto de surpreendente como de possível numa linguagem actual e flexível, conforme o que está a escrever. Presenteia-nos até com belíssimos excertos de poesia de Eugénio de Andrade e de Alexandre O’Neill.

Por fim Richard Zimler, autor por demais meu conhecido e de quem sou absolutamente fã (não incondicional, nunca incondicional de ninguém) que nos faz visitar a mente de uma menina portuguesa emigrada na América com a sua família portuguesa com quem não se identifica. Pouco proficiente no seu Inglês, ainda, vive momentos solitários…

Bom, mais uma obra a ler. Uma perolazinha que se lê numa tarde de calor.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

O Livro das Aves

A caligrafia Das Aves / Tiago Patrício

As aves marcam o relevo da maré
e a etnografia das horas
Mudam de estação como de idioma
e ondulam pela areia de uma seara
Emergem de vírgulas interiores
e anunciam uma ortografia madura
entre as linhas de continentes decalcados
a tinta impermanente

Têm uma caligrafia acidental em frente do mar
e uma forma nasalada de dizer
meu pé, minha mãe, meu pão
Escrevem uma carta com sotaque de despedida
uma interrogação quando podia ser a travessia



Tiago Patrício
O livro das aves
Quasi edições, 2009
Prémio Daniel Faria 2009

Este prémio foi instituído pela Câmara Municipal de Penafiel, pelos herdeiros de Daniel Faria e pelas Edições Quasi.

Concluíram-se no passado dia 9, 10 anos após a morte de Daniel Faria, excelente poeta, com apenas 28 anos. Encontrava-se a concluir o Noviciado no Mosteiro Beneditino de Singeverga


Já que falamos de aves regalemo-nos com este excelente trecho musical de nome "Nightingale" por Norah Jones

terça-feira, 9 de junho de 2009

Um convite que é também um orgulho! CANCELADO PARA ESTA DATA!


"Mas o que quer dizer este poema? - perguntou-me alarmada a boa senhora.
E o que quer dizer uma nuvem? - respondi triunfante.
Uma nuvem - disse ela - umas vezes quer dizer chuva, outras vezes bom tempo..."


Mário Quintana


Assim é a minha nuvem. Imprevisível nas suas formas, carregada de mil significados, pintada de um arco-íris de cores.
E assim é, também para mim, a poesia, essa é a sua magia...


Espero que possam partilhar comigo a realização de um bonito sonho, e estejam presentes no lançamento do meu Livro de Poemas "A Minha Nuvem".


Beijos a todos e encontramo-nos lá, onde as palavras têm asas...

Ruth Ministro

Este é, sem dúvida dos convites que mais prazer me dá colocar aqui. Sinto até uma pontinha de emoção e uma enorme dose de orgulho.

Se puderem, não faltem. O livro é lindo! No conteúdo e na apresentação. Vai ser um privilégio participar na sua apresentação.

Em cima, as palavras da autora...

segunda-feira, 8 de junho de 2009

"PESSOA DE VÃO DE ESCADA"


No próximo dia 13, cento e vinte e um anos após a data do seu nascimento, pelas 16,00h, a Poetria apresenta uma sessão dedicada a Fernando Pessoa com o título:

"PESSOA DE VÃO DE ESCADA" - Um retrato solarengo do poeta que dia 13 fará anos.

Nos vãos das lombadas dos livros, nos vãos dos dias, nos vãos das datas - até mesmo das de aniversário -, nos vãos das celebridades dos autores - até mesmo dos mortos -, nos vãos em que se recolhe a poesia como gatos, encontramos, como uma sombra, como um salteador, como uma festa surpresa, Pessoa.

"No dia em que festejavam o dia dos meus anos
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma..."

Crónicas, Notas, Poemas, Leituras: Nuno Meireles

Da sessão constará uma mostra filatélica evocativa deste poeta único, múltiplo e eterno e desta vez decorrerá na vizinhança da Poetria, no Centro Comercial Galerias Lumière (ruas José Falcão e Oliveiras) - Porto

Haverá serviço de café, com oferta de estimulantes biscoitos de gengibre.

Quem puder, não perca. Será o Nuno Meireles no seu melhor...

(Imagem de Almada Negreiros)