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segunda-feira, 8 de junho de 2009

A frescura da ignorância

(Imagem: "Nada sucedio" daqui)

Gosto de ver passar frescos rostos,

enfrentando a demanda que é viver,

alegres por aquilo que ainda ignoram,

criando belos sonhos sem saber.

Mas viver é um nunca acabar de desafios,

é um correr de águas a cada instante,

que por vezes nos impelem que nem rios

e outras nos aniquilam de rompante.

E é aí que largamos esse sonho,

que tentamos essa água abrandar,

mas aquela que na vida já perdemos,

é bem certo, não a vamos recuperar.

E quedam-se menos frescos esses rostos,

que ainda agora me comprazia a ver passar.

É esta vida feita de lágrimas e desgostos,

de momentos em que nem sabemos respirar,

que ao roubar-lhes o sonho e a poesia,

faz com que os belos rostos percam a magia

e comecem então a definhar…

Donagata

sábado, 6 de junho de 2009

“Dispersão Poesia Reunida”. de Nuno Dempster


Foi-me dada a honra de dizer os poemas inseridos na apresentação do livro de Nuno Dempster “Dispersão Poesia Reunida”.

Tive o privilégio de ter o livro em casa com bastante antecedência pois também me cumpria a escolha de alguns e, devo dizer, que foi uma agradabilíssima surpresa.

Não conhecia o autor, tendo-me sido apresentado apenas no momento do lançamento. Sabia, contudo, que se tratava de uma pessoa já não muito jovem.

Porém, à medida que me ia embrenhando na leitura dos seus poemas, acompanhando, de certa forma um percurso de vida, encontrei no seu registo uma juventude e uma modernidade, algo surpreendentes, muito interessantes e muito apelativas.

Um livro que, para quem gosta de poesia, será um agrado ler.

A apresentação foi no Café Guarany, sobejamente conhecido na Invicta pela sua ligação a eventos culturais e artísticos de diversas áreas realçando contudo as tertúlias poéticas que movimentam diversos nomes conhecidos do nosso universo literário.

Um pequeno senão. Sendo um espaço público é muito difícil criar-se um ambiente de algum silêncio, propício à compreensão dos poemas. Os leitores foram obrigados a um esforço adicional, o de se sobreporem ao burburinho normal de um café grande e, pelo menos eu, fiquei com a sensação que um pouco se perdeu daquilo que sei que poderia ter transmitido.

Esteve muitíssimo bem Carlos Andrade e a sua viola que nos encantou com belíssimas canções com poemas, também eles fantásticos, de poetas consagrados, interpretados de forma simples mas nem por isso menos grandiosa, na sua voz doce e envolvente.

Deixo-vos agora com um dos poemas que disse apenas para vos aguçar o apetite. O livro está à venda na livraria do costume; na Poetria, claro.

CHRISTIAN BOLTANSKI

(Sobre Humans, instalação, 1994

no Museu Guggenheim em Bilbau)

As pessoas não estão ali, são retratos

cujos corpos a morte deve ter levado,

a uns durante a guerra que os evoca,

a outros no fim do tempo de cada um,

restando o esquecimento que os envelhece.

Talvez seja a razão de as fotos serem

todas de tamanho igual, e Boltanski

as alinhe como campas suspensas na parede.

Os vivos caminham sem ruído, a olhar

em busca de algo que seja luz,

entre lâmpadas votivas como velas

e nesse recanto de três muros não há luz

senão a de existir e desnudar

a ausência que os olhos acentuam.

É um réquiem sem nada a que aspire.

Nem o amor vale ao destino

de se ter nascido como aquela gente.

Nem os beijos que se buscam,

ou os corpos que se dão para serem num.

Não há nada que redima.

Um menino diz: meu nome é Peter,

morri no bombardeamento de Aschaffenburg.

Outro é Bulie e chama Roswitha!

e a irmã não responde, nem ouve.

Há amor também, desejo, risos, mais crianças.

Tudo no entanto é vão e contrário

do que se mostra entre as lâmpadas

em vigília e fotos de soldados nazis

como um sinal de morte, misturadas

às de cadáveres de onde se esvai o sangue

e á de mulher violada de cujo rosto,

num cair de pálpebras, nasceu a libertação.

É um deserto este recanto do museu,

uma capela de silêncio há muito encerrada.

Ou que nunca se abriu.

Boltanski chamou-lhe Humans.

Interpretação diferente!



Apreciem que performance invulgar da Ukulele Orchestra from Great Britain....

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Livro velho


Procuro por entre as páginas deste livro,

velho, gasto, usado, que sou eu,

as memórias de um tempo em que

eu era a tua sombra e tu o meu embalo.

Mas o livro está velho, gasto, usado

e não consigo vislumbrar o que procuro.

Deixou de existir, de ser, ou se escondeu,

para tornar mais delicado encontrar

esse tempo esquecido e retomá-lo.

Donagata em 2009-06-03

terça-feira, 2 de junho de 2009

Querem lá ver que não percebo mesmo!!!


“a senhora não faz a mínima ideia do que é literatura”.

Estava eu, linda gata, posta em sossego a ler os meus mails (e aqui já estou muito à frente da D. Inês…) quando me apercebi que tinha dois comentários em duas recensões de livros que, como certamente já haveis notado, é meu hábito fazer.

Um referia-se ao comentário que tinha feito ao livro que acabara de ler “O Arquipélago da Insónia” de António Lobo Antunes. Consistia este numa comunicação de, no caso de não me opor, o autor (ou o gestor do seu site), gostaria de o publicar lá, numa área que mantém para esse efeito.

O outro dizia respeito a um livro de Walter Hugo Mãe “o nosso reino”, opinião publicada há já algum tempo.

E, vejam só a coincidência! Se o primeiro era, como podeis supor, bastante gratificante tendo-me deixado até um pouco sem jeito, já no segundo, uma senhora de nome Raquel M. começa por me apelidar (em verdade a mim e a outro comentador do post) de “cabeças fechadas”, “preconceituosos”, “negativistas”, “ter palas nos olhos como alguns animais”, assim como de nos acusar de vilipendiar o autor com o epíteto de arrogante. Tudo isto porque, embora eu diga muito bem do livro pois me encheu verdadeiramente as medidas e gosto muito do autor, não achámos lá muito bem que dê um pontapé na gramática (é mesmo isso) e escreva sem a utilização de maiúsculas.

No mesmo comentário pode ler-se ainda, depois de devidamente explicadas as razões que o autor evoca para a adopção desse tipo de escrita (explicações que eu já conhecia e aceito), “se gostam ou não do livro, isso é outra coisa”.

Eu gosto. E muito. Mas este episódio, insignificante só por si, deixou-me a pensar; para esta senhora, o importante não é o livro ter-me agradado e ter feito dele um comentário honesto e elogioso até.

Não, importante mesmo, é depois na caixa de comentários aparecerem duas pessoas que (também de forma honesta e no pleno direito de manifestarem as suas opiniões), implicam com a não utilização de maiúsculas…

Vá-se lá entender porquê, devia estar em dia bom, ainda me dei ao cuidado de explicar que, no que me dizia respeito, nem achava que isto fosse uma estratégia para o autor tentar sobressair uma vez que eu entendo que ele não necessita, de todo, disso. Ele é bom. Contudo, em alguns casos, essas e outras estratégias são utilizadas com esse propósito. Creio que todos nós conhecemos casos desses.

Apesar disso, disse ainda, que sempre que o objecto artístico é literário, tenho esta mania de ver correctamente utilizadas as boas regras da língua.

E agora pasmem! Não é que a senhora, com a recensão do livro, mais os dois comentários que lá estavam meus, descobriu e fez o favor de me informar do seguinte e passo a citar “a senhora não faz a mínima ideia do que é literatura”.

Depois deste inesperado esclarecimento querem ver que não faço mesmo e o livro em causa, além de não cumprir as regras de ortografia no que refere às maiúsculas após sinais de pontuação e em nomes próprios (que provavelmente também não sei o que é), até nem é assim tão bom como eu o acho?

Pena! É que eu até gosto do autor. Mas com toda esta ignorância…

Noite quente


A estiagem rodeia-me, de repente,

convertendo-me num vulto deslizante,

de frémitos e sudações padecente

que não param, não suavizam nem um pouco,

e me tornam agitada, impaciente.

E quando, sem mesmo pensar, me toco,

tentando atenuar o desconforto,

eis que engulo, surpreendida, sensações

que acordam de mansinho no meu corpo.

E instala-se, do teu corpo, a saudade,

do teu toque, do teu beijo, do teu ser,

das noites loucas que no calor passámos,

em que os dois, éramos um, até um de nós ceder.


Donagata em 2009-05-30