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sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Socorro (reflexões em torno de uma palavra)

(Imagem daqui)

So-co-rro!

Palavra tão silabada,

tão difícil de soltar.

Tão perra,

tão demorada

quando o horror

nos transtorna

e é preciso gritar.

Prende-se logo a voz

na consoante, um sibilo.

Escapa um silvo hesitante,

sem consistência, enfezado,

quando aquilo que se exige

é um som acutilante.

Tenta-se engrossar o “co”,

Mas é mudo este o.

Fica preso, sem sentido,

é discreto, comedido,

ineficaz por si só.

Resta-nos o “rro” final.

Começa bem, rola forte

mas sendo o som terminal,

tão fraco como o anterior,

morre, pois não tem suporte.


Socorro, palavra oca,

dita sempre com amargor,

é algo que nos sufoca

É um brado imolador.

Donagata em 2008/08/07

Jogo de palavras inspirado numa frase de Mia Couto do livro que estou a ler no momento “Venenos de Deus, Remédios do Diabo” “…a própria palavra “socorro!” lhe parecia demasiado silabada para ser gritada, mesmo em súbita e suprema aflição.”

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Parabéns Mamã!



Mais um ano que ganhaste na tua já longa vida.
Estás diferente. Agitada, mas ainda não rendida.

És ainda a matriarca, aquela que em todos manda,
Aquela que tudo sabe, em torno de quem tudo anda.

Custa-me ver-te decair. Pouco a pouco, vou sentindo,
Que aquilo que eras ontem, hoje já te vai fugindo.

E eu sem nada poder, sem ter como transformar,
Isso que é o envelhecer, numa canção de embalar!

Nessas rugas que hoje tens, nessas cãs que te enobrecem,
Estão escritas amarguras e solidões que transparecem.

Ontem cantaste para mim e eu adormeci serena,
Hoje escrevo eu para ti, mãe com perfume de açucena!

terça-feira, 5 de agosto de 2008

"O artista da morte" de Daniel Silva


Estava há muito tempo com curiosidade de ler alguma coisa deste escritor que, além de ter um nome português (é norte americano, mas filho adoptivo de pais açorianos), é dono incontestado de uns poucos de best-sellers.



Pois bem, “O artista da morte” foi o livro eleito para me estrear com o escritor.

Trata-se de um thriller, com todos os ingredientes necessários. O enredo tem por base os conflitos israelo-árabes e cria uma trama intrincada na qual os jogos de poder (por vezes entre actores da mesma facção), a intriga política, o sigilo e as duplicidades se sobrepõem a paixões intensas, amordaçadas, relegadas para segundo plano ou mesmo para nunca.



Neste mundo de simulações, a vingança pode ser um luxo caro, o expoente máximo da arte.



De leitura agradável, devo no entanto confessar que ficou um pouco aquém das minhas expectativas.

sábado, 2 de agosto de 2008

Justificação de falta

(Imagem: O tal estado quase comatoso)

Dado que fui alvo de um post tenebroso apenas por ter faltado à última aula de hidroginástica da temporada, aqui fica a justificação da referida falta, pela minha encarregada de educação, como convém. Espero que desta forma venha a evitar futuras torturas para as quais receio não estar psicologicamente preparada.


Excelentíssima Senhora Professora Doutora


É na qualidade de encarregada de educação da sua aluna das aulas de Sábado, Donagata (ao mesmo tempo que em auto-representação uma vez que sou maior e, se calhar, vacinada), que me dirijo a Vossa Excelência no sentido de proceder à justificação da falta dada pela aluna (moi même) no passado dia 26 de Julho ao abrigo do Dec-lei 181/2007 (faltas por motivo de doença).

A razão da sua ausência deveu-se ao facto de eu ter verificado que a aluna se encontrava totalmente incapacitada para a prática de qualquer tipo de exercício mais exigente do que estender-se ou deitar-se.

E porquê? Perguntar-se-á.

Pois bem, na minha modesta opinião de leiga (mas também de vítima), as razões foram as seguintes (muito sintetizadas, claro):

  • A aluna passou a semana inteira a levar enormes e desapiedadas cargas de porrada;
  • Consequentemente ficou com todos os seus músculos (mesmo os mais pequeninos dos dois dedinhos dos pés) completamente rotinhos. Não havia alinhavo que lhes valesse;
  • Sentia violentamente a falta dos metabolitos que entretanto haviam emigrado para o exterior das fibras e, em vez de andarem a excitar o que era preciso, não, entretinham-se apenas a fazer doer…

Penso que não necessito de mais referências para que se entenda o estado lastimável em que se encontrava a minha adorada educanda (Tadinha! Até já tenho uma lágrima no canto do olho…).

Ora, como encarregada de educação esmerada e atenta que me orgulho de ser, ciente da importância da minha actuação no bom desenvolvimento global da minha educanda, resolvi informar-me um pouco melhor sobre o assunto.

Na minha busca, constatei, através de um artigo que me foi dado ler (de uma especialista), que o tempo de regeneração muscular poderá variar entre as 24 e as 48 horas. Constatei ainda que seria aconselhado as pessoas (penso que será o mesmo para as gatas) fazerem, e cito: “um dia de carga (aula) e um de repouso com uma folga maior no fim-de-semana” – fim de citação.

Assim, limitando-me apenas a seguir à letra as indicações, precisas aliás, da referida especialista, e pese embora o facto de a gatinha insistir em ir, nada mais fiz do que aconselhá-la a baldar-se à aula, cumprindo assim o período de descanso de dois dias no fim-de-semana.

Espero ter sido completamente explícita e clara nos motivos que aleguei e, desde já, considero a falta devidamente justificada sem que sejam necessárias outras démarches uma vez que, a meu ver, é por demais evidente que a pequena está em estado de overtrainning (em português, estado quase comatoso), motivado pelo excessivo zelo (para ser meiga) revelado por alguns dos técnicos que Vossa Excelência também foi responsável por formar.

Sem outro assunto.

Com os melhores cumprimentos e certa da sua concordância:

Donagata a Encarregada- de- Educação

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

Devaneios

(Imagem: "Devaneios" de Guilherme de Faria)

Abomino quando me perco em devaneios
deixando fantasias, descuidadas, vagabundas,
percorrerem céleres as ideias mais profundas,
acalentando sonhos de arrebatamentos e anseios.

Acobardo-me só de pensar nesses sonhos,
nesse vaguear impudente, que não domino.
Sinto que quero o que nem sequer congemino,
tentando amordaçar os pensamentos bisonhos.

E erram assim, as ideias, inconscientes.
Pressinto-as, perturbadas, a esperar,
confiantes que, desse sonho, ao acordar,
descubra paixões reais e não ilusões decadentes.