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sexta-feira, 11 de abril de 2008

Escrevo!


Olho as orquídeas que florescem sob a laranjeira!
Passo-lhes os dedos, ao de leve, com cuidado.
Tão macias! Tão exóticas! De cores tão suaves,
e, contudo, tão irresistíveis!
Gritam alto o fim do tempo triste,
cinzento e frio, em que a própria natureza,
se encrespa e parece tudo castigar.
Fazem coro com os melros negros que debicam
aqui e ali, os pequenos insectos do jardim,
exibindo, orgulhosos, os seus bicos de intenso amarelo
(como gosto de os ver, altivos).
Fazem coro com as rolas que arrulham
nos galhos dos carvalhos que avisto do jardim,
cuja verdura tenra é também um alegre hino
ao renovar da alegria, ao reforço da vida.
E os pardais?
Esses, que todo o ano por aqui deambulam,
surripiando descaradamente a comida do cão,
não se atrevendo na dos gatos,
andam agora mais alegres,
mais arrojados,
disputando a fartura que já se adivinha.
E eu, dou por mim enternecida,
Espreitando quase religiosamente tudo isto
e ensaio a melhor forma de fazer parte deste mesmo hino.
Escrevo!

Donagata em 2008-04-11

Preguiça

(Imagem: Envy num daqueles seus momentos)

Hummm.... E é tão bom!

quinta-feira, 10 de abril de 2008

"contos Vagabundos" de Mário de Carvalho

Enquanto vou lendo um livro que exige de mim um grande nível de atenção, um recurso quase permanente à memória e até alguma pesquisa adicional para que melhor me possa situar e compreender o que leio, fui intercalando com um outro, de leitura mais ligeira. É que, tenho que confessar, a minha capacidade de manter a atenção muito tempo focada num assunto já não é o que era ou, mais provavelmente, nunca foi lá grande coisa.

Assim, lá fui lendo os “Contos Vagabundos” de Mário de Carvalho. Trata-se de uma compilação de pequenos contos, como o próprio título nos sugere, dezassete, ao todo, já publicados anteriormente em revistas e/ou outras antologias.

Muito interessante, de leitura facilitada pela qualidade da prosa bem como por se tratar de um livro composto por pequenos contos e que sintetizam, em minha opinião, os vários registos de escrita de Mário de Carvalho.

São efectivamente vagabundos pois oscilam entre a crítica demolidora, o hilariante, o irónico, o burlesco, o insólito, o fantástico, a fábula e, até, o absurdo. Todas as situações que refiro se encontram inscritas num quotidiano ou dele são eduzidas de uma forma que, por vezes o desconcertam.

Gostei, além de que teve a enorme vantagem de me ir dispersando a pensamento…

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Leitão à ...Aguada de Cima


Ainda em relação ao poste “Festa em Aguada de Cima”, deixei dito que uma das curiosidades que lá ouvi é que a tão apreciada iguaria gastronómica “leitão da Bairrada”, surgiu, nada mais, nada menos, aqui, em Aguada de Cima. Ligada, provavelmente aos farnéis dos cumpridores de promessas na festa das “Almas Santas da Areosa” e, mais recentemente, às feiras mensais que têm lugar no recinto envolvente da Capela.

De acordo com os locais, já nos farnéis que ali eram partilhados entre os romeiros que ali acorriam, aparecia a dita iguaria. Contudo, só em inícios do século XX, um tal Ti Marcelino, regressado do Brasil, decidiu montar o seu negócio de comes e bebes numa das barracas da dita feira. Tendo como especialidade o leitão assado, a ele se dedicou com inusitado sucesso. Não se tendo limitado à feira, percorria as ruas de aguada de Cima vendendo a iguaria de porta em porta.

Sucedeu-lhe um aprendiz seu o “Morcego” de seu nome António Almeida que veio a expandir o negócio dando-lhe projecção internacional.

Hoje em dia os restaurantes e os assadores de Aguada de Cima são a principal referência na arte de bem confeccionar o genuíno leitão da Bairrada, embora os mais conhecidos sejam os que se encontram junto à estrada nacional, já fora desta localidade, logicamente pela sua situação.

Mais interessante ainda será a história da Chanfana prato ainda mais típico da gastronomia local.
Talvez venha a partilhá-la…

Observações:
Não é de estranhar que a iguaria tenha o nome da Bairrada uma vez que Aguada De Cima confina com a Bairrada.
Esta história foi-me contada oralmente por locais, e confirmada no sítio da Junta de Freguesia.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Festa em Aguada de Cima

(Imagem: Capela das Almas em Aguada de Cima)


Ontem, a convite de alguém que considero já como família, visitei Aguada de Cima, terra que conhecia apenas de nome, para assistir ao último dia dos festejos da sua romaria anual a “Festa das Almas Santas da Areosa”.

A festa inicia-se sempre no Domingo de Pascoela dia em que as imagens que se encontram na Igreja se deslocam em lenta e, julgo que penosa, procissão até à Capela das Almas onde se mantêm durante uma semana. Esta procissão (a que não assisti), além dos andores com os Santos, conta ainda com anjinhos, elementos da Confraria e respectiva banda de música. Diz quem assistiu que o início já estava a chegar à Capela quando saíram da Igreja os últimos participantes. E, digo-vos eu, que vi, que o percurso é muito extenso e íngreme.

Não sendo uma pessoa de crenças religiosas, absorvi contudo, muito atentamente, tudo quanto consegui numa perspectiva mais sociológica e até histórica, talvez; a da preservação das tradições e do património cultural.

Assim, enquanto a missa se desenrolava ao ar livre, visitei a Capela das Almas e aspirei profundamente o forte odor que emanava do alecrim e da alfazema que cobriam inteiramente o seu chão. Tradição curiosíssima assim como o arco elaboradíssimo, construído e enfeitado com plantas e flores que bordejava a entrada. Observei-a em termos arquitectónicos tendo verificado que se trata de um modelo de corpo octogonal, seguido de uma capela-mor rectangular. Os retábulos, três, são muito bonitos e todos do século XVIII. O maior alberga a imagem do Arcanjo S. Miguel. Curiosa a cantaria, habitualmente em pedra, aqui em grés de tom branco, ou não nos encontrássemos nós numa zona de grés por excelência.

A Igreja não tive oportunidade de visitar, porém, despertou-me especial atenção uma das suas imagens que seguia na procissão “O Senhor Crucificado”, de rara beleza e, segundo apurei, toda ela de madeira. Não sendo, de acordo com a informação que obtive, das mais valiosas, pareceu-me muito bonita e pouco comum.

Enquanto por ali andava fui sabendo que ainda aparecem, embora cada vez em menor número, lavradores que vêm cumprir as suas promessas, geralmente relativas às colheitas, dando voltas à capela com os seus carros de bois enfeitados.

Fui-me também informando acerca da história e das lendas de Aguada de Cima que achei interessantíssimas.

Mas, como a prosa já vai longa, para não me tornar excessivamente maçadora, apenas deixo como curiosidade um cheirinho ….a leitão! Pois é, é que o famoso leitão da Bairrada, iguaria gastronómica tão apreciada por alguns, não nasceu na Bairrada, nasceu mesmo aqui. Mas em relação a isso, se calhar, falarei amanhã.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

"O Vale da Paixão" de Lídia Jorge

Tal como já havia acontecido com o livro “Rápida, a sombra” de Vergílio Ferreira, também este foi encontrado, por ler, entaladinho entre os já lidos, numa tarde em que reorganizava as estantes do escritório.
Bom, já remediei esse assunto e terminei hoje a sua leitura.


Excelente como, aliás, a sua autora já nos habituou.


Uma manta de soldado é o ponto de partida para uma interessantíssima narrativa feita por uma personagem que nunca se identifica que, ao tentar reconstituir a vida do pai, que compõe baseada na sua memória e na sua saudade, vai descrevendo também o destino de uma família/sociedade que não sabe muito bem para onde caminha.


Pela mão de uma prosa eivada da mais bela poesia, ora suave ora brutal, caminhamos através de cinquenta anos dos finais do Sec. XX, observando a fuga à autoridade gratuita, a emigração, a decadência do mundo rural e o surgimento de outros valores económicos (o turismo, por exemplo).
Recomendo vivamente embora não seja preciso…

quinta-feira, 3 de abril de 2008

Novas tendências Primavera/Verão (cárdio-localizada)

(Imagem: René Magritte)

Novas coreografias e outfits muito mais interessantes aqui para as aulas de exterior que se adivinham.

O público, como bem sabemos, é estruturalmente semelhante embora não tão entusiasticamente participativo. Contudo julgo que, no geral, tudo se adequa perfeitamente.

segunda-feira, 31 de março de 2008

"Rápida, a sombra" de Vergílio Ferreira

Enquanto tentava reorganizar algumas estantes do meu escritório para nelas conseguir arrumar uns quantos livros já lidos e que se iam amontoando desordenadamente em locais menos apropriados, encontrei, bem apertadinho no meio de outros, “Rápida, a sombra” de Vergílio Ferreira. Peguei nele, folheei-o, cheirei-o (tem já uns laivos do odor de livro antigo assim como as páginas ligeiramente amarelecidas), mas não me surgiu qualquer memória quanto ao seu conteúdo.

Então, resolvi lê-lo, ou relê-lo se dele viesse a encontrar memória.

Li-o ontem enquanto me resguardava do mau tempo à conta de uma estúpida constipação que tem tanto de desagradável como de inoportuna. E, seguramente, li-o pela primeira vez. Excelente! Não é um livro que se esqueça. É profundo, deixa marca, aliás como os outros que conheço do autor.

Muito centrado no eu e numa evidente obsessão do autor pela inevitável degradação física que culmina na própria morte cortando assim, de forma absurda, a promessa de imortalidade que sente; “a consciência da sua infinitude limitada”.

O livro desenrola-se em dois (talvez três) planos de ficção, em espaços distintos: a praia, o escritório e (talvez), a aldeia (a casa dos pais e a sua no monte). Iniciam-se separados mas vão-se interligando, entretecendo uma trama em que se fundem inteiramente e se tornam difíceis de distinguir as oscilações entre a imaginação e a recordação. Talvez a única coisa que nos ajude a distinguir o real do sonho seja a presença da figura da mulher; a sua, Helena, ou a sonhada, Hélia.

Ou então também pode ser que tudo não passe de um plano só em que só o sujeito se narre a si mesmo e tudo o resto seja apenas o intrincado dos seus sonhos, das suas realidades lembradas, das suas realidades sonhadas e, fundamentalmente, dos seus medos.

Seja como for, é um poema fantástico que se desenrola ao longo destas duzentas e quinze páginas de excelente prosa.

domingo, 30 de março de 2008

"Rio das Flores" de Miguel de Sousa Tavares

Depois de alguns meses a ser constantemente preterido por outros livros que se encontravam também em “lista de espera”, lá acabei por ler o “Rio das Flores” de Miguel de Sousa Tavares.


Mais um romance histórico, que me pareceu até mais interessante que o seu antecessor, o “Equador”. Centrando a acção e as personagens principais numa herdade alentejana, de onde saem para o Lisboa, Espanha, Brasil mas aonde sempre (ou quase) regressam. As suas vidas vão-se desenrolando com os seus encontros e desencontros, amores e desamores, ao longo de um tempo histórico que vai servindo de pano de fundo ao registo romanesco.

Assim, através da sua escrita elegante e fluida, vamos percorrendo os desnortes da Primeira República, o início do Estado Novo, a Guerra civil Espanhola a 2ª Guerra Mundial, a subida de Getúlio Vargas ao poder, sempre de mão dada com as personagens bem caracterizadas e fortes sobretudo as de Pedro e Diogo. Considero que as femininas estão talvez, um pouco mais presas a alguns estereótipos.


No que diz respeito à pesquisa histórica pareceu-me estar o livro suficientemente bem documentado para aquilo que se exige de uma obra de ficção.
Gostei particularmente: do perfil que traça de Salazar, um líder tacanho, mesquinho, fechado em si e ao mundo, ambíguo, gerando um país sem horizontes nem ambições; das vívidas descrições de cenas da guerra civil em Espanha, bem como de algumas curiosidades como a primeira travessia do Atlântico por um dirigível, o Hindenburg, que levou Diogo da Alemanha ao Rio de Janeiro.

Gostei.

sábado, 29 de março de 2008

A poesia é um paradoxo!

(Imagem daqui)

A poesia é um paradoxo!
É a minha opinião.
Fala de amores, de afeições,
de inconsequentes paixões,
de suspeita, de emoção,
tudo em verso, em harmonia,
em perfeita consonância
com alguma inspiração.
Ora se a alma, o alento
berço do meu sentimento,
é insegura, inconstante,
ora triste, ora exultante,
como posso num momento
versejar apaixonada,
sabendo que ao mesmo tempo,
me sinto infeliz, destroçada?
É um disparate, um absurdo
uma total contradição.
Será lógica a poesia?
Eu por mim, acho que não!

quarta-feira, 26 de março de 2008

Gato do Bolhão

(Imagem: "Gato do Bolhão" fotografia de Joana Almeida)

Olhas em frente,
tranquilo
e vês o tempo a passar.
Pousa uma pomba,
altiva,
que acompanhas com o olhar.
És calmo, de temperamento.
Fome? Nem em pensamento,
não sabes o que isso é,
pois desde que tens ideia,
que tens a barriga cheia.
Primeiro era só o leitinho.
Agora é a sardinha, o verdinho,
Por vezes a marmotinha,
que a senhora Matildinha,
não deixa de te chegar.
E quando o peixe, em demasia
já começa a enfastiar,
lá vem a carne, uma apara,
logo outra e outra ainda
que ali a ti’Adosinda,
não para de te lançar.
De afagos não sentes falta,
muitas mãos te acariciam.
Esses teus donos da praça
e os muitos visitantes
que te olham e acham graça
e com teu olhar se deliciam.

Olhas em frente e aprecias
esta tua condição.
És um gato afortunado!
És um gato do Bolhão!

terça-feira, 25 de março de 2008

Porto Sentido


(Imagem: "Quem vem e atravessa o rio" de Joana Almeida)

Adoro este poema bem como a música que lhe foi adaptada quase tanto quanto gosto do Porto... Consegue exprimir o sentimento reconfortante de quem chega a casa.

Composição: Carlos Tê / Rui Veloso

Quem vem e atravessa o rio
Junto à serra do Pilar
vê um velho casario
que se estende ate ao mar

Quem te vê ao vir da ponte
és cascata, são-joanina
dirigida sobre um monte
no meio da neblina.

Por ruelas e calçadas
da Ribeira até à Foz
por pedras sujas e gastas
e lampiões tristes e sós.

E esse teu ar grave e sério
dum rosto e cantaria
que nos oculta o mistério
dessa luz bela e sombria

[refrão]
Ver-te assim abandonada
nesse timbre pardacento
nesse teu jeito fechado
de quem mói um sentimento

E é sempre a primeira vez
em cada regresso a casa
rever-te nessa altivez
de milhafre ferido na asa

sábado, 22 de março de 2008

"O Império dos Pardais" de João Paulo Oliveira e Costa

...”Ao contemplar as aves que esvoaçavam pelos cantos da praça voltou a lembrar-se de seu pai. Enquanto os pombos tinham o seu império no centro, os pardais continuavam a dominar as zonas periféricas da praça. Em sua circulação, carregando gravetos e migalhas, eram por vezes molestados, pelas aves maiores que até chegavam a tirar-lhes a comida que transportavam. Apesar disso, os pardais não desarmavam, e numa ruela contígua a S. Domingos, tinham-se aliado aos estorninhos contra os melros, e ganhavam território, enquanto nas imediações da Rua Nova d’el –Rei, juntavam-se aos rouxinóis para afrontarem os piscos e as incursões das gaivotas. Outros refaziam alianças com as andorinhas recém-chegadas e dominavam áreas que as pegas tinham por suas e que os pombos também cobiçavam”...


Belíssima metáfora que compara os portugueses, aos pardais. Os primeiros constroem o seu extenso império além-mar enquanto outros reinos maiores e mais poderosos se degladiam entre si. Os pardais, de uma forma semelhante, aproveitam a distracção das aves mais possantes para alargarem os seus espaços.

Extraordinária obra de ficção baseada na mais apurada realidade histórica do reinado de D. Manuel I.
Através de um romance suportado por personagens riquíssimas, leva-nos a conviver com um quotidiano possível na exótica Lisboa quinhentista. Cruzam-se sabiamente as personagens ficcionadas, apaixonantes, com outras que deveras existiram. Revela-nos os jogos de intriga, de conluio, de mentiras, de espionagem, de alianças que sempre envolveram a corte.

sexta-feira, 21 de março de 2008

Dia Mundial da Poesia


(Imagem de : Imán Maleki)

Claro que não podia deixar passar este dia sem aqui colocar algumas das muitas poesias dos muitos poetas que me agradam.


A dificuldade consistiu apenas na selecção. Mas, afinal, como gosto de todas...

Aqui vão apenas algumas.


As palavras

São como um cristal,
as palavras.
Algumas um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
Barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?

Eugénio de Andrade


Este amor desarrumado
de olhos, beijos e cama,
jornais silêncios e drama,
filhos, quadros e comida,
encontros cinzas e vida,
não seria mais amado
se pintado e organizado
em contas, perdas e danos,
meu amor de tantos anos.

Maria Sofia Magalhães em “A luz que se esconde”


O Teu Riso

Tira-me o pão , se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.

Pablo Neruda em “Os Versos do Capitão”, tradução de Albano Martins


E, inevitavelmente...



O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama o coração.

Fernando Pessoa

terça-feira, 18 de março de 2008

Desagradecimento


Será que tu nem suspeitas
como magoa essa frieza,
essa altivez, essa certeza,
de quem tem sempre razão?
E toda a sensibilidade
Com que exiges ser tratada,
Ainda não te ensinou nada?
Não tem reciprocidade?
Abomino a intolerância
que mostras com frequência,
já tenho pouca paciência
para a tua grande importância!
Fico triste, desapontada
ao sentir a ingratidão.
Mas não me fiques obrigada,
não te quero essa atenção…
(Imagem: "Distância e distanciamento" de Peter Lanyon)

segunda-feira, 17 de março de 2008

Pedra Filosofal


Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

António Gedeão
In Movimento Perpétuo, 1956
(Imagem: Pintura de Imán Maleky)

domingo, 16 de março de 2008

"Crimes Solitários" de Pedro G. Rosado

Como apreciadora de livros policiais e fã incondicional de alguns dos grandes mestres (Agatta Christie, Sir Arthur Conan Doyle, Erle Stanley Gardner, Rex Stout, Ruth Rendell, Geroge Simenon, Ellery Queen, Mary Higgings Clark, Patrícia D. Cornwell, Leonardo Padura, Pepetela com o seu “Jaime Bunda”… citando apenas alguns), comprei por me ter suscitado grande curiosidade, “Crimes solitários” de Pedro G. Rosado. Essa curiosidade advinha do facto de ser policial, por um lado e, por outro, de ser de um autor português dado termos muito poucos a dedicarem-se a este género literário.

Pois bem, acabei ontem a sua leitura e, embora possa considerá-lo razoavelmente interessante, não chegou para me convencer verdadeiramente.
Com um enredo que envolve muitos temas como o tráfico de droga, a corrupção, a ambição, a homossexualidade, a intriga, tudo assuntos passíveis de dar belíssimas teceduras, pareceu-me, no entanto, que foram pouco aproveitados, surgindo as situações aparentemente do acaso (intencional?), de forma bastante previsível e, talvez, pouco consistente. Rapidamente se descortina o sentido da trama e se subentende o seu final.

Tendo a seu favor o facto de se desenrolar em terras alentejanas, com personagens cujas atitudes compreendemos bem por se enquadrarem no tipo de pessoas que nos rodeiam e que se inserem no nosso panorama de criminalidade, creio que, foi um pouco exagerado na quantidade de situações em que os envolveu em detrimento da subtileza e do suspense bem como da solidez das personagens.

Reconheço que tenho, em relação à literatura policial, um grau de exigência maior do que em relação a qualquer outro género literário. Não posso dizer, e repito, que tenha ficado inteiramente convencida, contudo irei tentar uma segunda abordagem; tenho intenção de ler “Ulianov e o Diabo” e logo verei se é para manter ou se vou modificar a opinião que este livro me deixou em relação ao autor.

sexta-feira, 14 de março de 2008

Sonho


(Imagem: The dream by Pablo Picasso)

Por vezes sinto-me num sonho,
solto-me, deixo-me voar
dispo esta pele que exponho,
escapo de mim e suponho,
poder não mais acordar…
E fico nesta ilusão,
nesta quimera, nesta ideia,
a minha alma devaneia,
num capricho de evasão.
Fantasio – me a acostar,
em porto de águas serenas,
onde escondo as minhas penas
e retomo o meu vogar.
Mas esta fantasia, esta cegueira,
este delírio algo insano,
não é mais que uma barreira,
uma mentira grosseira,
a criar meu próprio engano.

Donagata em 2008/03/13

quinta-feira, 13 de março de 2008

Estranhas associações de ideias...



Não sei porquê ao ver este vídeo vieram-me à ideia as nossas aulas de cárdio local. Será pela música (a qual também dançamos), ou pela figurinha que fazemos (embora com um pouco mais de roupinha e sem nada de censurável)!

quarta-feira, 12 de março de 2008

"Quem quer ser bilionário" de Vikas Swarup

Um pouco dando continuidade ao poste anterior, acabei hoje de ler um livro que me foi emprestado e proposto pelo meu professor de hidroginástica. O livro chama-se"Quem quer ser bilionário" e é de Vikas Swarup.
Quando me apercebi que era indiano, vieram-me imediatamente à ideia pequenos excertos de filmes musicais com que me tenho divertido no You Tube. E se a literatura for como o cinema? Confesso que me assaltaram muitas dúvidas antes de dar início à leitura do livro. Contudo, decidi ultrapassar os preconceitos e confiar no juízo do Pedro que é um rapaz inteligente e culto e lá procedi à sua leitura.

Devo dizer que se revelou uma agradável surpresa. É um livro de muito fácil leitura, divertido, embora comovente e até dramático. Revela-nos os aspectos mais sórdidos de uma Índia contemporânea cuja sociedade se bipolariza entre a grande riqueza e a extrema pobreza. É neste sector de população que deambula a nossa personagem.

A história tem por base um concurso televisivo que é ganho por um empregado de um bar, pouco mais do que analfabeto, que, contra todas as expectativas e estratégias de boicote, consegue acertar correctamente a todas as perguntas ganhando um prémio nunca antes ganho.
Cria-se um problema à empresa promotora do concurso que não tem dinheiro para pagar o prémio uma vez que o concorrente gorou todas as estratégias previstas para o concurso.
Na tentativa de evitarem o pagamento, o concorrente é preso e torturado a fim de se confessar autor de fraude. É aí que surge providencialmente uma advogada que se dispõe a defendê-lo, sendo para isso necessário ser conhecedora de toda a história.

A nossa personagem inicia aqui a narração dos momentos da sua atribulada vida desde que foi abandonado à nascença e vai desenrolando episódios que, de uma forma ou de outra o colocaram em contacto com situações que o tornaram conhecedor das respostas às doze perguntas que lhe foram feitas.

O autor, Vikas Swarup, mistura de forma agradável e inteligentemente desordenada, a ligeireza da comédia e os aspectos mais dramáticos e comoventes. Fala-nos de uma sorte que mais não é que o resultado fortuito dos muitos azares da vida de Ram Mohammad Thomas.

Valeu a pena confiar no Pedro.
Quinta-feira trocaremos impressões.

terça-feira, 11 de março de 2008

Um Health Club à minha medida


Como alguns que por aqui vão passando certamente já perceberam (se não andarem completamente distraídos), frequento um health club aqui das imediações com certa regularidade.
- Grande coisa! - Dirão vocês, Até parece que é única!
Claro que não; nem sou única nestas andanças de healthclub, nem tal facto é razão para um poste. Ainda não estou assim tão falha de ideias, bolas.

O que por lá se passa é que é, tanto quanto é do meu conhecimento, bastante diferente do que se passa habitualmente em espaços semelhantes.
Claro que vou lá para cuidar do corpo; é claro também que “em corpo são, mente sã” mas, não vá o diabo tecê-las, por lá tenho cuidado efectivamente também da mente.

É verdade, além das sessões de cardio, das aulas de hidroginástica, dos momentos de natação, dos banhos turcos, do jacuzzi, da sauna e das massagens acrescente-se-lhe, e agora pasmem, o ambiente familiar que nos envolve e que permite: os almoços acompanhados de vivas conversas sobre temas literários, científicos e até filosóficos, a troca de livros com outras/os frequentadoras/os e mesmo com os próprios professores e os comentários e trocas de impressões que daí advêm, a apreciação de poesia de autor e outra, as exposições de diversos tipos de arte com que somos mimados nos espaços comuns…
Vá lá, digam agora que não é grande coisa!
É um health club à minha medida!

domingo, 9 de março de 2008

Tracy e Envie, jardineiros por vocação...

Quem por aqui passa de vez em quando já deve, certamente, ter desconfiado que gosto muito de animais. E, sobretudo de gatos, animal com que, de algum modo, me identifico.
Mas hoje vou mesmo é falar de plantas. É que eu também gosto de plantas e aprecio vê-las luxuriantes, floridas ou não, cheias de vida, ora no jardim, ora dando cor e viço aos cantos da minha sala.

A verdade, porém, é que não sou tão habilidosa na aplicação dos cuidados que elas exigem quanto o sou naqueles que os animais requerem.
Então é vê-las ir definhando sob o meu olhar incrédulo e impotente, numa lenta e prolongada agonia que não há regas, adubos ou pulverizações específicas que tragam remédio à inevitável morte.

Ora, tendo por diversas vezes observado este constante assassinato vegetal (homicídio involuntário mas, mesmo assim, homicídio), o Envie e a Tracy, os meus hóspedes de estimação, deitaram patas ao caminho e lançaram-se na árdua tarefa de me ajudarem, talvez, quem sabe, ensinarem a cuidar das pobres plantas.

Então, afanosamente e sem cansaços aparentes ou desmotivações, escavam, mastigam, cortam (presumo que para replantar…) e sei lá que mais num tratamento sem igual às massacradas plantas.
A verdade é que são praticamente tão mal sucedidos quanto eu tenho sido. Contudo, proporcionam às pobres plantas uma morte menos lenta e muito mais eficaz.
São apologistas de metodologias mais radicais: ou sobrevivem mais robustas do que nunca, ou morrem de vez sem direito a agonias prolongadas.

São assim estes bichanos com vocação para a jardinagem e sempre prontos a dar uma "patinha" para me ajudar…

sábado, 8 de março de 2008

"o remorso de baltazar serapião" de Valter Hugo Mãe

Porque tenho sempre alguma curiosidade em conhecer novos escritores, sobretudo nacionais, tinha há já algum tempo em “lista de espera” o livro de Valter Hugo Mãe, prémio literário José Saramago 2007 “o remorso de baltazar serapião”.
Confesso que a sua leitura constituiu para mim uma surpresa enorme; foi quase como se tivesse, de repente, levado um murro no estômago. Perdoem-me a metáfora deselegante mas na verdade não me ocorre nada que melhor reflicta o que senti ao lê-lo.
Não julguem que quero dizer com isto que não gostei do que li. Não, muito pelo contrário, gostei muito. Só que se trata de um livro forte e despudorado sobretudo no que concerne à condição da mulher.

O romance passa-se algures numa idade média, indefinida e é protagonizado por uma família muito pobre na qual a condição da mulher se iguala e, em alguns casos, até se apouca em relação à dos seus animais, sobretudo à de sarga a vaca da família.
Baltazar, o filho mais velho, vem a casar com uma bela donzela que cedo vê compartilhada com o seu senhor de uma forma que nunca chega a entender. Possuído pelo ciúme, também ele, Baltazar, tal como seu pai havia já feito com sua mãe, sujeita a sua mulher às maiores sevícias, estropiando-a com o objectivo de a “educar”. Acaba por se enredar em bruxarias e, finalmente, quando já nada lhe resta, surge o remorso.

É um livro que retrata uma realidade extremamente dura expressa num tipo de linguagem que o autor pretende ser uma reprodução da linguagem arcaica utilizada pelo povo.
Abre-nos uma janela para um novo modelo de escrita ao mesmo tempo que, na minha opinião, poderemos considerá-lo também uma metáfora em relação aos mais diversos tipos de violência que, ainda hoje, é exercida sobre a Mulher.

Forte motivo para reflectirmos uma vez que se celebra hoje o “Dia Internacional da Mulher” e há, por esse mundo fora situações em que as mulheres vivem numa condição tão ou mais humilhante quanto aquela a que este romance nos transporta.

sexta-feira, 7 de março de 2008

A palavra

Com a palavra comunico
apalavrando o sentido,
sentindo o significado,
Traduzindo o sentimento.
Com a palavra transmito
palavreado sem tento
num fraseado bonito
num arroubo do momento.
A palavra, o verbo, a voz,
com ela me apraz jogar.
A ela lhe empresto o sentir,
a ela lho volto a tirar.

Donagata em
2008-03-06


(Imagem: "Words are sweetsounds for objects unreal" de Justin Simoni)

quinta-feira, 6 de março de 2008

"A herança de Eszter" de Sándor Márai

Pois é, não resisti. Uma vez terminado um livro que me deu muito prazer mas também muito trabalho em termos de pesquisa para que pudesse ser convenientemente compreendido, eis que lá regressei eu a Sándor Márai e ao livro da sua autoria que ainda tinha para ler, “A herança de Eszter”.

E, mais uma vez me senti intensamente agarrada e enredada na complexidade de sentimentos que o autor tão facilmente controla. Leva-nos a entrar na alma das personagens, põe-nos a pensar como e com elas e, em tantos momentos, quase nos faz tentar mudar o rumo da história…

Mais uma vez gostei muito. Um pouco diferente, em termos estruturais, dos dois que havia lido anteriormente “A mulher certa” e “As velas ardem até ao fim” uma vez que aqui, as personagens interagem um pouco mais. Mantêm todavia, a sua riqueza (personagens muito trabalhadas), e o seu pendor intimista. É espantosa a forma como vai bem ao fundo das suas almas e as escalpeliza pondo a nu os sentimentos e as emoções mais recônditas, as desembrulha sem que, por isso a história cesse de prosseguir, fatalista; sem que todo este aprofundar de sentimentos e a tomada plena da sua consciência consiga inverter o rumo de um destino traçado há vinte anos atrás.

É, quanto a mim, absolutamente imperdível.