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quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Poesias para crianças que encantam os adultos


Brinquedo

Foi um sonho que eu tive:
Era uma grande estrela de papel,
Um cordel
E um menino de bibe.

O menino tinha lançado a estrela
Com ar de quem semeia uma ilusão;
E a estrela ia subindo, azul e amarela,
Presa pelo cordel à sua mão.

Mas tão alto subiu
Que deixou de ser estrela de papel.
E o menino, ao vê-la assim, sorriu
E cortou-lhe o cordel.

Miguel Torga
Imagem: Obra de Albano Afonso da série "Fazendo Estrelas" - "noite estrelada após Van Gogh

terça-feira, 16 de outubro de 2007

"Por detrás da magnólia" de Vasco Graça Moura


Acabei ontem de ler o livro de Vasco Graça Moura “Por detrás da magnólia”. Achei-o muito interessante sobretudo porque retrata a vida de algumas gerações de uma família burguesa proveniente de uma determinada área geográfica, o Douro. Soou-me bastante familiar e fez acordar em mim algumas doces lembranças.

É também a região de origem do meu avô materno e cresci a ouvir referências aos mesmos locais bem como histórias com grandes semelhanças embora contadas de outra perspectiva, do outro lado; o do trabalhador assalariado embora (neste caso), também ele proprietário de terras, vinhedos, rebanhos e outros bens, mas sem o brilho do “senhorio”.

Com liberdades de ficcionista a que associa histórias da sua própria família, de forma ligeira e muito fluida embora de escrita refinada, faz, julgo eu, um excelente retrato de época, quer do ponto de vista dos usos e costumes quer das turbulências próprias da transição da monarquia para a república bem como dos subsequentes conturbados movimentos da primeira república e respectivas consequências económico-sociais numa região que, associava grande peso económico, a uma enorme vulnerabilidade.


Leitura muito refrescante.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

Citação


Natureza morta de Cézanne
Diz Cézanne:

“Os frutos gostam que lhes pintem o retrato. Parecem ficar ali, a pedir desculpa por irem secando. Os perfumes que exalam trazem-nos os seus pensamentos. Chegam-nos com todas as suas fragrâncias, falam-nos dos campos que deixaram para trás, da chuva que os alimentou, das alvoradas que testemunharam.”

Citação retirada do livro que me encontro a ler “A sétima porta” de Richard Zimler e que me apeteceu partilhar.

Se calhar passarei a olhar para as ditas “naturezas mortas” com outros olhos…

sábado, 13 de outubro de 2007

Mais um dos livros que escolhi para férias

“As pequenas memórias” de José Saramago

São, como o título do livro indica, um conjunto de memórias do que foram alguns episódios marcantes da infância e da adolescência ou pré-adolescência do autor passados entre as diversas casas (ou partes de casa) que habitou em Lisboa com os seus pais e a casa dos avós na aldeia de Azinhaga, banhada pelo Almonda que se encontra um pouco mais adiante com o Tejo.
Nele se descrevem vivências diversas: brincadeiras, trabalhos, desgostos, inquietações, vergonhas, sucessos, amizades, amores, desamores e outras emoções que têm em comum o facto de terem sido marcantes, se não determinantes, na vida de José Sousa (Saramago apenas por influências de Baco), enquanto escritor.
Escrito de forma simples, despretensiosa, fluída, sem os já habituais artifícios de pontuação, mas, obviamente, de excelente qualidade literária, vai-nos contando os vários episódios, eivados de candura, humor, realismo e ternura, sem lamechices ou nostalgias exageradas, com que nos conduz pelos diversos locais, acompanhando-o nas sucessivas experiências por ele vividas (sucessivas não do ponto de vista cronológico mas porque se sucedem na narrativa).
A meu ver, um defeito a apontar: o final. Deixou-me perplexa e insatisfeita; de água na boca. Então e o resto?
Porém, e sem retirar nada daquilo que disse, uma dúvida se me coloca: se este mesmo livro, com esta simplicidade (não confundir com simplismo), tivesse sido apresentado a um qualquer editor sem que exibisse este nome de autor, será que teria merecido da parte daquele a mesma atenção? Será que teria tido mesmo honras de publicação? E se as tivesse tido teria sido procurado e lido pelo mesmo número de pessoas que o fez? E na hipótese (remota, julgo eu) de ter tido os mesmos leitores, teria merecido o mesmo tipo de análise/crítica?
Da para pensar um pouco, ou não?

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Desculpem o "castelhanês"

Em relação ao poste anterior, talvez me deva desculpar pelo "castelhanês" nele utilizado ao tentar reproduzir algumas das frases que ouvi. Contudo, dado o contexto das mesmas, não será difícil para ninguém entender que me estou literalmente "nas tintas" para a sua correcção.

Estranhas peripécias em pleno voo


Imagem: "Munch cat" de Susan Herbert (paródia sobre o quadro "O grito" de Munch)
Cá vou eu, calma e relaxada, quase ronronando de prazer, no avião que me transportará ao destino escolhido para as férias tão desejadas e, diga-se, merecidas.

Mais para dar um esticãozinho às pernas do que por outra razão, decido levantar-me e empreender o longo percurso até à cauda da aeronave onde se encontram os sanitários.

Pelo caminho vou ouvindo a voz da hospedeira que, daquela forma quase totalmente incompreensível mas que penso ser de utilização obrigatória, anunciava a passagem dos produtos de free-shop. Ao mesmo tempo apercebi-me que já se encontrava um senhor aguardando a utilização do W.C.

Encostei-me o mais que pude dada a conhecida exiguidade dos espaços em questão quando, de repente, a porta do sanitário se abre de rompante e, do seu interior, desinveste rápida e atabalhoadamente um personagem, de ar bastante assustado que me pergunta ansiosamente o que é que a hospedeira havia dito. Embora estranhando seriamente quer a atitude quer a pergunta lá lhe fui dizendo que não tinha prestado grande atenção mas julgava ser o anúncio do início da venda dos produtos de free-shop. O outro senhor, entretanto, tinha entrado na sua vez pelo que nos mantivemos apenas os dois naquele pequeno espaço. Eu aguardava e, a criatura em questão, agora com um ar um pouco mais aliviado, explicou-me que tinha apanhado um grande susto pois como se encontrava a fumar no sanitário, o que sabia ser absolutamente proibido, julgou ter feito disparar algum alarme e que a voz que tinha ouvido lhe estaria a fazer algum tipo de intimação.

Claro está que, já com ar de poucos amigos, lhe respondi que, na minha opinião tinha feito um rematado disparate uma vez que fora bem avisado que se encontrava num voo de não fumadores (como creio serem todos agora, aliás), incluindo as casas de banho e que o não cumprimento deste preceito o sujeitava às sanções previstas pela lei do país para que viajávamos. Isto para não falar na total falta de respeito que manifestava pelos restantes passageiros utentes do W.C. que teriam de suportar o fumo intoxicante dado o reduzidíssimo espaço em questão.

A personagem olhou-me, agora com um ar de verdadeira estranheza e respondeu-me que não tinha jeito nenhum não se poder fumar, que era uma viagem longuíssima (2h e 10m) e que, pasme-se, iria voltar a entrar para acabar o que havia interrompido.

Sem resposta a dar-lhe e, sobretudo, sem qualquer vontade de prolongar tão absurdo diálogo, aproveitei o facto de o outro senhor estar a sair e entrei para a pequena cabina. Lá satisfiz as minhas necessidades (como já disse nada prementes) e quando me preparava para recompor as vestes e refrescar um pouco o rosto, eis que investem fortemente contra a porta, com berros de
“Abre!, Abre la puerta!”

Mais intrigada do que alarmada, consigo ainda com relativa calma responder “Está ocupada. Só um momento por favor!”.
Descarrego o autoclismo e é então que os encontrões à porta redobram de intensidade. Conseguem que a porta se abra (não sei bem como pois tinha corrido o fecho que a travava) no momento exacto em que eu, completamente atordoada, ofendida, irritada e sem perceber rigorosamente nada do que se estava a passar, lá consigo puxar o fecho das calças ficando com um ar minimamente composto e (julgo eu), digno. É claro que lavar mãos ou o que quer que fosse, nem pensar.

Porta escancarada deparo-me com três rostos de três zangadíssimas hospedeiras que vociferavam para cima de mim frases como “Usted estaba humando!” “Usted sabe que es prohibido!” “Usted está cometiendo un crimen e à llegada le entregaremos a la autoridad!”

Passado o primeiro momento de estupefacção e, confesso, de grande susto, apenas respondi, com ar muito calmo, “Não fui eu. Eu nem sequer fumo.”

Novamente os três rostos das três hospedeiras, ainda mais zangados, se dirigiram a mim invectivando-me com frases que já nem recordo inteiramente mas que não abonavam nada em relação à minha pessoa. Recordo-me de uma me ter dito que o sanitário cheirava a tabaco ao que eu respondi que efectivamente tinha constatado esse facto logo que entrei e que, francamente, me tinha incomodado até bastante. Outra, apontou-me um dedo bem junto do meu nariz e disse “Ay humado si, lo ay visto. Lo ay visto!”

Aí meus amigos, tendo em conta que não estou nem um pouco habituada a que, por um lado me apontem dedos em frente do meu nariz que gosto de manter bem empinado, por outro a que ponham minimamente em causa a minha palavra, apenas perguntei, com toda a calma que consegui reunir, o que é que exactamente a senhora tinha visto dado que nada havia para ver a não ser, talvez, as minhas partes pudibundas no caso de não ter sido suficientemente despachada a recompor o vestuário.
A senhora aparentou um ar ofendido mas, não tendo conseguido especificar o que viu, disse apenas “ay sido usted, ay sido usted”.

Foi aí que, de repente, a sôdonagata resolve virar as orelhas para trás, colocar as unhas em riste, soltar chispas paralisantes (pelo menos em intenção) dos olhos semicerrados à boa maneira dos meus companheiros felinos e, num sussurro quase sibilante, dizer apenas:
- "Os vossos nomes, por favor!...

Tinha ultrapassado a capacidade de aguentar o desrespeito, as atitudes intimidatórias além de ofensivas, a falta de bom senso e a inépcia de quem, apesar de tudo, tem outras obrigações.

Então, aparentemente surpreendida (?), uma delas, por sinal a de aspecto menos antipático e que até aí tinha sido um pouco mais comedida, deu indícios de alguma racionalidade, ou bom senso, ou fosse lá o que fosse (as outras calaram-se) e meio a perguntar meio a afirmar, disse-me:
- Não foi a senhora pois não? Foi alguém antes de si!

Surpreendida com tamanha sagacidade especialmente se associada às espantosas capacidades olfactivas destas meninas (sim, porque de meninas se tratava), surgidas não sei bem de onde, após terem sido "intimadas" a identificarem-se, e já sem vontade ou disposição para tão estúpido diálogo, ainda respondi com a paciência que consegui reunir:
- Penso que é algo absolutamente óbvio desde o início, desde que utilizassem um pouco da vossa perspicácia!

É preciso dizer que a criatura, o culpado, se encontrava postado ao meu lado, à minha frente, ou atrás de mim, conforme eu me ia movimentando, exalando, todo ele, um intensíssimo odor a tabaco, tremendamente encarnado não sei se de susto se de vergonha pela sua evidente covardia.

Estranhamente (pelo menos para mim), uma das senhoras ainda se virou para mim e disse, espante-se “Então diga-nos quem foi.”… Como se a minha função ali fosse saber quem fumava nos sanitários!!!
Pois é, aqui a sôdonagata deve ter ar de Miss. Marple, de Hercule Poirot, Sherlok Holmes, Nero Wolf e o seu fiel Archie Goodwin ou, mais provavelmente, de estúpida!...

Claro está que simplesmente lhes respondi que se não tinham algo de verdadeiramente relevante a perguntar ou a dizer e se não me iam prender já, mesmo que a intenção fosse de me entregar às autoridades à chegada, eu iria regressar ao meu lugar para prosseguir a viajem com o conforto que o seu preço me deveria estar a proporcionar. Mas, antes disso, iria tomar nota dos respectivos nomes.

O prevaricador, o covarde fumador, lá se mantinha, ombro com ombro com os intervenientes, dada a já referida exiguidade dos espaços em questão, calado, corado, com ar de querer desaparecer dali mas incapaz de ser homem.

Fitei-o longamente com o olhar mais desdenhoso que consegui, procurando nele reflectir todo o desprezo que me inspirava semelhante criatura. Triste personagem; não sei se algum dia será capaz de ter algum respeito por si próprio. Provavelmente nem saberá o que isso é.

Regressei ao meu lugar, sentei-me e prossegui a viagem disposta a lentamente, confesso, regressar à minha calma habitual, encolher as unhas, espetar as orelhas, arquear preguiçosamente o dorso e ronronar de antecipação pelos prazeres que as férias me iriam proporcionar.

Ah! É verdade, não fui presa à chegada!

Lanzarote em 18/09/2007

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Ainda as leituras de férias

“O anjo da tempestade” de Nuno Júdice

Logo como primeira impressão, sobressai a forma exímia que o autor revela no domínio das técnicas de bem escrever. Inquestionável, creio.
Contudo, à medida que se progride na leitura, o autor vai desenvolvendo uma trama de tal forma intrincada em que as ideias se enredam nas conjecturas, o passado se mistura com o presente e com outros passados e outros presentes; o deslindar de um hipotético homicídio (premissa inicial do livro) se interliga com as lutas de classes travadas em consequência de ideologias propagadas por livros como “O Capital” de Karl Marx (contemporâneo da personagem supostamente assassinada); a noiva “viúva” se confunde com a explicadora de francês, por sua vez, virtuosa tocadora de piano que pode muito bem ser também Isabelle d”Este de Ticiano ou a bela Rosina de Antoine Wiertz...
Enfim, torna-se um pouco difícil para o leitor (pelo menos para mim tornou-se), seguir o fio do raciocínio através da miríade de voltas e contra voltas do enredo, do autêntico tumulto de assuntos que o autor esgrime, com grande mestria, repita-se, sem nunca se perder naquele alucinante desencadear de ideias.
Dado que esta leitora não possui semelhante mestria, nem nada que se aproxime, decide deixar-se levar por esse nunca acabar de deambulações cujo ponto comum é, embora por vezes bem fugaz, esse antepassado assassinado, ou desaparecido, ou fugido; ou vítima da luta de classes, ou de um meteoro, ou da mão divina, quem sabe..., e consegue, por fim, usufruir do excelente texto e apreciar trechos de grande beleza em que a verdadeira personagem é o próprio autor.
Livro a ler, de mente completamente aberta, a acompanhar o autor/personagem enquanto este se compraz nas suas deambulações e vai evoluindo ao sabor da sua vontade, através dos espaços, do tempo, das emoções.

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Mais um ano

Mais um ano!!!
Quantos dias
de jantares tardios,
de longos silêncios,
de telefonemas rápidos,
de partidas,
de chegadas,
de ausências dolorosas,
de solidão!
Mas tantos, também,
de cumplicidades,
de tardes serenas de leitura, juntos,
da oferta de uma flor,
sem outra intenção além da vontade,
de partilha de:
pequenas alegrias,
momentos de grande felicidade,
tristezas,
expectativas.
De pequenos-almoços na cama
em manhãs de preguiça,
de jornais espalhados,
de notícias comentadas,
de pequenas carícias,
de dedos entrelaçados,
de corpos encaixados.
De um enorme,
sereno, maduro,
intenso amor.


Embora triste e desinspirada, não posso, não quero, deixar passar este dia sem um agradecimento ao teu enorme contributo, por tudo o que de bom temos conseguido juntos; pela nossa vida.

Donagata em 09/10/2007
Imagem: El Beso de Elberto Pinto


terça-feira, 9 de outubro de 2007

Memória


Imagem de Maggie Taylor


"Cada pessoa que passa na nossa vida, passa sozinha. É porque cada pessoa é única e nenhuma substitui a outra.


Cada pessoa que passa na nossa vida, passa sozinha e não nos deixa só porque deixa um pouco de si e leva um pouquinho de nós.


Essa é a mais bela responsabilidade da vida e a prova de que as pessoas não se encontram por acaso." *



Passaste na minha vida e partiste. Se levaste alguma coisa de mim, não sei. Mas, a mim, basta-me a tua memória e sentir-me-ei muito mais rica, uma mulher melhor.


* Citação atribuída a Charlie Chaplin bem como a Saint Exupéry, erradamente em ambos os casos. Portanto, citação de autor desconhecido.






sexta-feira, 5 de outubro de 2007

5 de Outubro de 1910

Governo provisório reunido (imagem da Wikipédia)
E foi com estas palavras que “O Século” anunciou a proclamação da República em seguida à vitória do movimento revolucionário, no dia 5 de Outubro de 1910 (3ª edição)


A PROCLAMAÇÃO DA REPUBLICA
A’s 8,30 da manhã passava pela rua do Ouro, em triumpho, a artilharia, que era delirantemente ovacionada pelo povo.
As ruas acham-se repletas de gente, que se abraça. O jubilo é indiscriptivel!
A essa hora, no Castello de S.Jorge, que tinha a bandeira azul e branca, foi içada a bandeira republicana.
O povo dirigiu-se para a Camara Municipal, dando muitos vivas à Republica, içando também a bandeira republicana.
O povo em massa dirigiu-se aos quarteis dos Paulistas, Carmo e rua da Estrella, onde foram içadas as bandeiras brancas, dando vivas à republica e à patria, que eram correspondidos enthusiasticamente pelos soldados. A’s 8,20 as forças que estavam no Rocio entregaram-se, acclamando-as o povo com delirio. À hora a que escrevemos, os navios estão salvando a bandeira republicana. O “S. Paulo”salvou egualmente.

Vê-se muita gente no Castello de S. Jorge acenando com lenços para o povo que anda na baixa. Os membros do directorio foram às 8,40 para a Camara Municipal, onde PROCLAMARAM A REPUBLICA com as acclamações enthusiasticas do povo.

O governo provisorio consta será assim constituido: presidente, Theophilo Braga; interior, Antonio José d’Almeida; guerra, coronel Barreto; marinha, Azevedo Gomes;obras publicas, Antonio Luiz Gomes; fazenda, Bazillio Telles; justiça Affonso Costa; estrangeiros, Bernardino Machado.
Governador civil, Eusebio Leão
Em quase todos os edificios publicos estão tremulando bandeiras. A policia fez causa commum com o povo que percorre as ruas conduzindo bandeiras e dando vivas à Republica.

Foi há 97 anos!

As leituras de férias



“Daqui a nada” de Rodrigo Guedes de Carvalho

É um livro interessante, viciante, que se lê facilmente de um fôlego. Bem escrito, utiliza uma estratégia complexa mas não complicada, que vai prendendo o leitor até à última página.
Documenta uma época histórica muito marcante, que não viveu directamente (é muito novo para isso), mas que retrata com inesperada exactidão. Muitas das histórias reais passadas junto de mim com pessoas que me são (ou foram) próximas, poder-se-iam ter contado desta forma.
Revela aqui muito mais do que uma promessa. Revela já a certeza do excelente escritor que se veio a tornar. Pelo menos nas outras duas obras que li suas: “A casa quieta” e “ Mulher em branco”, as quais considero excelentes, associa a facilidade , a destreza e a inteligência que demonstra, sem dúvidas, já neste livro no manejo da palavra escrita, à maturidade que os anos e, mais provavelmente, as suas experiências de vida lhe acrescentaram.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Talvez consiga sonhar


Anoitece lentamente.
Termina assim um dia
Tão bom, tão pleno e,
Por fim… tão triste!
Por momentos,
Procuro esquecer a angústia
E este sentimento de impotência
Que me assola,
E me subjuga.
Tento soltar a alma
Deste peso imenso e
Descanso o olhar no mar
(sempre o mar!).
Da janela não avisto praia
Apenas mar,
Esse mar inquieto,
Vasto,
Profundo,
Misterioso.
Esse mar infinito
Que se funde no infinito do céu.
Ao passear lentamente o olhar,
Paro-o.
Reparo e encanto-me:
No meio dessa vastidão,
Desse azul avassalador,
Dessa misteriosa inquietação,
Três barquinhos!
Três insignificantes barquinhos
Repousam,
Sozinhos, esquecidos,
Presos a coisa nenhuma,
Acomodados ao doce embalo
Do gigante.
Em seu redor
As sempre presentes gaivotas,
Apenas sombras fugidias,
Neste céu crepuscular
Soltam vagidos pungentes.
Mas os barquinhos
Tão pequenos
Tão serenos
Tão presentes
Quiçá esquecidos,
Mas tão grandes na sua pequenez
Dormem.
Talvez sonhem.
Talvez o sonho lhes confira essa imponência
Inexplicável mas inequívoca.
Talvez.
Talvez também eu possa sonhar.


Donagata em 25/09/2007

Acordar

Acordo.
Um pouco tarde
Talvez.
Espreito pela janela.
À minha esquerda,
O Sol,
Bem cheio,
Bem redondo,
Já bem destacado no horizonte,
Já com promessas de calor,
Espalha prodigamente
Os seus raios de ouro.
Sigo alguns, os mais atrevidos
Que, na minha frente,
Executam um bailado
Suave e belo
Por sobre as águas
Desse mar tão azul,
Tão intenso.
Mas, eis que de repente,
Pousam nos três barquinhos
Que dormem ainda.
E, cuidadosamente,
Agora em pontas,
Suavemente,
Pintam-nos de oiro.
Transportam-nos para o sonho,
Para a fantasia
Para a hipótese de serem galeões,
Caravelas ou naus,
De vogarem sobre outros mares,
De viverem outras vidas,
Outros mundos,
Outros sois.
E é com eles,
Que quero partir
E ser também
Outra Eu.

Donagata em 26/09/2007

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

Cumpro sempre as ameaças! Regressei!


Cheguei!
Melhor. Regressei!
Aliás como havia ameaçado.
Souberam bem “os banhos”. Retemperaram-me o corpo e a alma.
Gozei o mais que pude dos prazeres da água, desse doce sabor a sal, do seu rumorejar, da sua massagem forte, dos seus odores...
Saboreei, com prazer, as carícias dos raios de sol que me aqueciam a pele, enquanto lia esquecida de tudo completamente embrenhada nos enredos imaginados pelos autores.
Acariciei gatos (os meus amados gatos), gordos e bem tratados, que se passeavam à nossa volta com os seus eternos modos de donos do mundo e, de vez em quando, lá condescendiam em me dar a honra de os acariciar, de arquearem o dorso satisfeitos procurando ir de encontro à concavidade da minha mão, de me presentearem com um forte rom-rom de “estou satisfeito, não és má de todo a lidar connosco...”
Dei pedacinhos de pão a rolas, que pousavam com toda a desfaçatez na minha mesa, junto do meu prato, e mos tiravam calmamente de entre os dedos, onde os mantinha, convicta que as não convenceria a tamanhas intimidades. Eram supostamente rolas bravas! Contudo, julgo que ninguém as havia informado ainda dessa sua condição. Ainda bem.
Enfim, passeei muito, li muito, conversei muito, nadei muito, bronzeei-me muito, tive a minha quota de peripécias estranhas (talvez as conte mais tarde), tudo o que é suposto acontecer nas férias que havia programado.
Confesso, porém, que tive um pouquinho de saudades destes bocadinhos que passo aqui, neste meu retiro, a ser eu mesma, despida de tudo, só eu. Foi só um pouquinho, mas tive. E saudades, também, de visitar os outros “eus” que tanto me têm enriquecido e dado prazer.
Pois é, os vícios colam-se rápido e depois, custam, custam, a despegar...

sábado, 15 de setembro de 2007

Vou a banhos mas... I' ll be back...

Por alguns dias, aqui a Sôdonagata vai interromper as suas actividades “bloguísticas” dando a todos aqueles que por aqui passam um merecido período de descanso.
É que vou de férias (finalmente, dirão vocês)!
Comigo, como companhia, irão: o meu “muso” (desculpa Tó, se leres isto, é mesmo plágio…), alguns livros que seleccionei, os meus miados errantes e muita, muita vontade de usufruir por inteiro estes esperados dias. Aguardo um mar formidável, um sol piedoso, boas sombras e horizontes cheios de magia. Tudo isto porque… eu mereço.
Entretanto, a todos os que por aqui passarem, dou um conselho: não exagerem na alegria perante a minha ausência, porque...

"I'll be back!... soon!"

Entretanto façam o favor de ser felizes!


Livros que me acompanharão:

“Daqui a nada” de Rodrigo Guedes de Carvalho
“O anjo da tempestade” de Nuno Júdice
“Combateremos a sombra” de Lídia Jorge
“As pequenas memórias” de José Saramago
“Autobiografia de Mário Cesariny” por Mário Gonçalves Mendes


Vamos a ver se a escolha se vai revelar acertada. Depois o direi.
Fiquem bem!
Imagem. Bathers at Asnieres de Georges Seurat

"As mulheres do meu pai"

Acabei de ler o livro de José Eduardo Agualusa “As mulheres do meu pai”. Gostei embora, se calhar tivesse uma expectativa um pouco diferente dado que o último que tinha lido do autor tinha sido “O vendedor de passados” de que gostei mesmo muito. De comum, o facto de ambos voltearem em torno de memórias. Será, possivelmente, um tema recorrente nos livros do autor.
Este, desenvolve-se em dois planos distintos e paralelos. Um é real e funciona como uma espécie de preparação/estudo para o outro, o fictício. Quer o real quer a ficção desenvolvem-se nos mesmos locais. As personagens vão percorrendo a África austral, desde Angola a Moçambique, passando pela Namíbia e pela África do Sul, numa demanda das próprias raízes, numa procura da sua identidade.
Os planos (real e ficção), vão-se desenvolvendo em simultâneo, entrecruzando-se as respectivas narrativas, tornando por vezes muito ténue a fronteira entre um e outro. Num ou noutro momento, parece até deixar a ideia de a parte ficcionada ser mais real do que a própria realidade.
O romance vai sendo narrado aleatoriamente pelas diferentes personagens, apresentando assim diversas perspectivas de um mesmo acontecimento. Por vezes não é fácil identificar de imediato o narrador daquele fragmento.
Quanto a mim um romance sobre mulheres, música e a magia de África. Aliás, África é-nos aqui apresentada de uma forma inédita, interessante mas surpreendentemente inesperada; não a África das selvas, das paisagens luxuriantes, das cores feéricas, dos cheiros intensos mas a outra, a África urbana, a das pessoas, a da música, a da poesia.
Muito bem escrito, aliás como sempre nos habituou o autor.
Romance que, na minha opinião, vale a pena ler.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Atrás da sombra

Imagem: Fotografia de Vihuol - Sombra

Atrás da sombra na praia correremos
atrás da sombra
atrás do sol ardendo nos sentidos
do cheiro a sal e a areia atrás da espuma
atrás do tempo correremos
atrás do amor e do verão
atrás da sombra agora
atrás da sombra correremos

Lisboa 24-4-2002

Manuel Alegre em Doze Naus

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Outra vez o Mar


Imagem : Rocha de Júlia Novais

Hoje o meu mar estava cinzento, taciturno, talvez triste. As águas inquietas revolteavam nervosamente em largos remoinhos que se soltavam impiedosamente sobre as altivas rochas, antes de desmaiarem exaustas na areia. A espuma branca rolava sobre as águas lembrando fragmentos de finíssimos vestidos de noiva, despedaçados por Megera, resultado de um qualquer castigo por ciúme, infidelidade, ou até adultério, quem sabe.
E as águas, hoje mais cinzentas, recuam e avançam numa expiação constante pela sua inevitável indecisão; amam furiosa e apaixonadamente as rochas mas... entregam-se calmamente ao amor doce e sereno quando se enroscam nas suaves areias da praia e estas as sorvem por inteiro.
O nevoeiro cobre o horizonte escondendo o sol que, envergonhadamente, mostra apenas o seu contorno circular, difuso, sem ânimo para, com os seus raios, desafiar aquela nuvem pegajosa e húmida que se instalou na minha praia.
Hoje, não no bar da praia, mas sentada na areia, entre dois rochedos, isolada de tudo, tento, neste relativo conforto, terminar a leitura do livro que me acompanha, “As mulheres de meu pai” de José Eduardo Agualusa.
Contudo, à medida que o tempo vai passando, as personagens ganham outras vidas, vogam através do nevoeiro, perdendo-se no cinzento das águas. Esquecem as paisagens de Africa, e escolhem um argumento diferente. Vestem-se de espuma branca, enleiam-se nas grandes algas carnudas, voam com as gaivotas, provam o sal das rochas, rolam lubricamente pela areia fina, oferecendo-se aos desmandos da água. E eu, personagem do mesmo conto, deixo escorregar devagarinho o livro que repousa esquecido na areia enquanto me aconchego nos braços de Morfeu.

Praia do Marreco 10-09-2007

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Irresistível

Tentei.
Acreditem que tentei mesmo muito mas não fui capaz de resistir a mais uma parvoíce. É certo que esta não é da minha autoria, não a saberia escrever,confesso, apenas a vou reproduzir.
Em relação a uma alegada orgia que terá tido lugar em casa de Cristiano Ronaldo, em Manchester e que terá chegado prontamente aos tablóides (sempre apostados na divulgação de informação de qualidade) através das boquinhas recatadas das cinco meninas participantes, as quais relataram pormenorizadamente os acontecimentos, de resto acompanhados de fotografias elucidativas que tiraram aos participantes com os seus telemóveis, li o seguinte comentário no Expresso do dia 8 que passo a reproduzir exactamente:

“Essas ‘vacas’ deviam era estar caladas porque ‘comem’ esses meninos maravilhosos e depois ainda vêm dizer cá para fora.
Grandes porcas, pindéricas!
Desgraçadas, ganham uns trocos e, em vez de ficarem caladinhas, vêm atirar postas de pescada”.
José Castelo Branco

Desculpem. Não quero emitir nenhum juízo de valor em relação ao acontecimento em si; não me interessa minimamente.

Mas o comentário...Esse, desculpem lá, achei-o absolutamente irresistível!
Enfim, fala quem sabe!

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

E ainda mais alguns comentários de autores acerca dos livros


“O bem de um livro reside em ser lido. Um livro é feito de signos que falam de outros signos, os quais por sua vez falam das coisas. Sem olhos que o leiam, um livro é portador de signos que não produzem conceitos, e portanto é mudo.”
Umberto Eco


“Devo horas preciosas ao universo dos livros […]; são oásis num mundo de destruição.”
Ernst Jünger


“Saibam que o ler dos bons livros e boa conversação faz acrescentar o saber e virtudes como cresce o corpo, que nunca se conhece senão passando por tempo: de pequeno que era, se acha grande, e o delgado fornido.”
D. Duarte


“O livro, tal como a sensitiva, cerra as suas folhas ao tacto impertinente. Há que chegar até ele sem ser sentido. Exercício, quase, de faquir. Há que fazer calar previamente no nosso espírito todos os ruídos parasitários que trazemos da rua, dos negócios e das ocupações, e até a ânsia excessiva de informação literária. Então, no silêncio, começa a escutar-se a voz do livro; porventura medrosa, pronta a desaparecer se lhe dão prazo com qualquer suspeita solicitação. Por isso, Sir Walter Raleigh pensava que, em cada época, só havia dois ou três leitores verdadeiros.”
Alfonso Reyes


“Cada homem é um mundo, por isso mesmo, cada homem que se sabe contar é um livro nunca igual a outro livro. O princípio da originalidade está no partido que se tira de tal circunstância.”
Aquilino Ribeiro


"O milagre de uma página é o de vos atrair amigos invisíveis.”
Michel Déon


“Que é um livro? Uma sucessão de pequenos sinais. Apenas isso. Compete ao leitor extrair por si próprio as formas, as cores e os sentimentos a que esses sinais correspondem.”
Anatole France



“O pouco que sabemos de nós próprios é por vezes a personagem de um livro quem no-lo sugere em voz baixa.”
François Mauriac


“É só quando de nós nos esquecemos
e com a alma toda mergulhamos
no abismo de um livro, seduzidos
pelo sal da beleza e da verdade,
que dele todo o bem nós retiramos…”
Elizabeth Barret Browning

sábado, 8 de setembro de 2007

A propósito de livros

Imagem: Livros de Van Gogh

Tenho verificado que em vários blogues, os seus autores vão partilhando impressões e marcas que a leitura de alguns livros lhes deixaram. Positivas umas, negativas outras e ainda aqueles cuja leitura, aparentemente, não acrescentou absolutamente nada à pessoa que os leu (o que , na minha opinião, é bem pior do que deixar uma marca negativa).

Achei o assunto interessante e, dado que me considero uma leitora compulsiva e não sendo já, propriamente, uma jovem, possuo um vasto campo de análise.

Depois de alguma reflexão e da consulta de alguns, breves, comentários que, geralmente, deixo no início de cada livro depois de o ler, concluí o seguinte: Li livros de que gostei muito e que foram, de facto, marcantes numa determinada fase da minha vida (alguns dos quais não voltaria a ler agora sob pretexto nenhum); Li livros cuja leitura me deu um prazer imenso sem que me tenham acrescentado mais nada além do próprio prazer do acto de os ler; Li livros que detestei e, apesar disso, me marcaram profundamente (também não os releria); Li livros que me foram quase indiferentes e, esses, são os que considero de leitura menos proveitosa embora, apesar disso, não possa dizer que não me tenham acrescentado absolutamente nada; E finalmente, li aqueles que me preencheram, me deram prazer, me fizeram esquecer o mundo e que, volta não volta, vou reler, nem que sejam apenas alguns excertos (é verdade, eu sublinho passagens, faço comentários na margem, colo postits enfim, uma vergonha!), para avivar a memória.

Resta-me dizer que sou uma leitora ecléctica e que, para mim, tanto pode ser "classificado" nesta última categoria (os que gosto muito), um policial, como um romance, um ensaio, uma biografia, um livro de poemas ou outro. Só não suporto, mas é que não suporto mesmo, ler mau português.


E ainda a respeito dos livros, vejamos o que sobre eles dizem alguns autores:

“Um livro é um animal vivo”
Aristóteles

“É preciso olhar os livros por cima do ombro do autor”
Paul Valéry

“Já que não podemos ler tantos livros como os que podemos ter, basta que tenhamos tantos quantos possamos ler”
Séneca

“Pode-se avaliar a beleza de um livro pelo vigor dos safanões que ele nos deu e pelo tempo que levamos depois a recompor-nos.”
Gustave Flaubert

“Leio e estou liberto. Adquiro objectividade. Deixei de ser eu e disperso. E o que leio, em vez de ser um trajo meu que mal vejo e por vezes me pesa, é a grande clareza do mundo externo…”
Fernando Pessoa

“A título de consolação, como sempre, restam os livros, navios ligeiros e seguros, preparados para as errâncias através do tempo e do espaço, ou mesmo para além deles.
Desde que se tenha um livro à mão e o ócio da leitura, nenhuma situação pode ser desesperada nem completamente desprovida de liberdade.”
Ernst Jünger

“Não existe uma lista de livros que seja absolutamente necessário ter lido e sem os quais não haverá salvação nem cultura. O que existe, para cada homem, é um determinado número de livros nos quais só ele, esse homem singular, pode ir encontrando satisfação e prazer. Descobrir pouco a pouco esses livros, estabelecer com eles uma relação duradoura […] constitui para cada indivíduo tarefa pessoal e particular.”
Herman Hesse

“Os livros encantam-nos até à medula, falam-nos, dão-nos conselhos e ficam unidos a nós por uma espécie de familiaridade viva e harmoniosa.”
Francesco Petrarca

“Tenho muitas vezes observado este facto curioso: um livro, tomado ao acaso, traz-me sempre ecos das minhas actuais preocupações. Será que tudo existe num livro, mesmo num mau livro? Ou então que o acaso não existe e a nossa escolha, sem que o saibamos, é afinal guiada?”
Claude Mauriac

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Luto



O mundo da música em particular e o da cultura de uma forma mais abrangente ficou hoje drasticamente empobrecido com a morte de Luciano Pavarotti, uma das maiores referências da música lírica de sempre.
O tenor, artista de excepcional talento ao qual associava um extraordinário carisma, era amado pelo público e querido pela imprensa.
Detém o record do artista com maior número de chamadas ao palco (165) e, o disco que gravou com Plácido Domingo e José Carreras (outros dois tenores de grande vulto do nosso tempo), acompanhados pelo maestro Zubin Mehta, "Os três tenores", continua a ser o álbum de música clássica mais vendido de sempre.
Pioneiro na forma como ultrapassou o âmbito da música lírica para compartilhar grandes espectáculos com músicos das áreas do rock e do pop, nem por isso saiu minimamente beliscado no seu esplendor. Pelo contrário, ao "popularizar" (não vulgarizar) um género musical tradicionalmente reservado a alguns, mais eruditos, só pôde ter saído engrandecido.
Alvo de homenagens por todo mundo em que vozes consternadas enaltecem não só o extraordinário cantor, mas também o Homem carismático, divertido, apreciador das artes gastronómicas, amigo e solidário com as grandes causas.
Estamos todos de luto.

Fotografia do site oficial de Luciano Pavarotti acompanhada da seguinte frase do tenor:
"Penso che una vita per la musica sia una vita spesa bene ed è a questo che mi sono dedicato"
"Penso que uma vida pela música é uma vida bem empregue e é a esta que eu me tenho dedicado"

Pôr do Sol no bar da praia

Já é Setembro.
Mais uma vez me encontro no bar da praia. É fim de tarde de um dia em que o calor nos faz recordar que ainda é Verão. O sol, agora quase no seu ocaso, vai abrandando a intensidade do seu brilho perdendo um pouco da inclemência com que nos afogueou todo o dia. Parece até corar um pouco envergonhado pela sua rudeza, tingindo de tons rosados o horizonte à medida que se vai escondendo. O mar, hoje de águas excepcionalmente mansas, parece um espelho em que a prata da superfície reflecte o azul do céu, já com alguns matizes de cinza num prenúncio inequívoco da noite que se aproxima. Lá ao longe, na linha do horizonte, os últimos raios de sol teimam em salpicar de reflexos rosados esse espelho, dando os retoques finais de cor, pinceladas de verdadeira mestria, no quadro belíssimo que se estende à minha frente. Ao longe vislumbram-se, ainda hesitantes, pouco nítidas, as luzes de pequenas embarcações pesqueiras que iniciam agora a sua faina.
No vasto areal que antecede e completa esta preciosa paisagem, vêem-se ainda uns quantos retardatários que, muito preguiçosamente, se vão retirando talvez com pena de deixarem de ser protagonistas de tão belo cenário. Junto da água, um cocker spaniel dourado corre incessantemente para um lado e para o outro, feliz na sua liberdade, sem ouvir (ou fingindo não ouvir) os, também um pouco dolentes, chamamentos do seu dono para regressarem.
As gaivotas, sempre presentes, espalham-se; umas pela areia dourada debicando aqui e ali e outras vogando ao sabor da água aproveitando esse doce embalo.
Hoje não peço café. Hoje janto aqui. Vou usufruir do luxo de dois prazeres simultâneos; uma refeição agradável contemplando uma paisagem indescritível.
Também hoje não preciso de um livro. Hoje não irei perder-me nas descrições de nenhum local maravilhoso que alguém visitou e onde viveu momentos de intensa felicidade, ou dor, ou emoção, ou medo, ou mera contemplação. Não irei apreciar a prosa mais ou menos real, mais ou menos filosófica, mais ou menos pragmática, mais ou menos bem escrita de um qualquer autor.
Hoje não preciso de nada que tenha surgido da imaginação de outros, porque hoje sinto-me personagem de algo grandioso. Hoje, também eu faço parte deste poema.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

A um livro

Imagem: "Pillow book" de Vladimir Kush

No silêncio de cinzas do meu Ser
Agita-se uma sombra de cipreste
Sombra roubada ao livro que ando a ler,
A esse livro de mágoas que me deste.

Estranho livro aquele que escreveste,
Artista da saudade e do sofrer!
Estranho livro aquele em que puseste
Tudo o que eu sinto, sem poder dizer!

Leio-o, e folheio, assim, toda a minh’alma!
O livro que me deste é meu, e salma
As orações que choro e rio e canto!...

Poeta igual a mim, ai quem me dera
Dizer o que tu dizes!...Quem soubera
Velar a minha Dor desse teu manto!...


Florbela Espanca - Sonetos

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Ausência


Imagem: Ausência xxi 2006 - Paul Ruiz

Não sabes como me dói a tua ausência!
Não sabes como desejo que chegues,
Que me olhes e me ames com urgência.
Não sabes as vezes que não me vês chorar
Saudosa da tua presença, da tua voz,
Do teu calor, do teu cheiro, do teu olhar,
Não sabes o medo que tenho
De que esta dor que cresce
Me faça esquecer de te amar.

Donagata em 29-08-2007